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sexta-feira, 8 de março de 2013

Lado a lado


“Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher...”
(Dito popular)



A novela global "Lado a lado", cuja exibição do último capítulo dar-se nesta sexta-feira, 8 de março, Dia Internacional das ‘Mulheres’, tem evidenciado a recentidade histórica das múltiplas violências, físicas e simbólicas, que submeteram as mulheres brasileiras, no entre-séculos, aos ditames de uma "poética do silêncio".

Assim como a personagem Laura (professora e jornalista, que lutara por seu estar e de outras mulheres no mundo, contrariando os valores hegemônicos da aristocracia cristã-burguesa), inúmeras mulheres foram, no período, classificadas como “loucas, subversivas ou prostitutas” por reivindicarem ocupação em cargos públicos e o efetivo exercício em práticas sociais para além dos limites do privado.

No entre-séculos, as mulheres que contestavam as interdições impostas pela mentalidade tradicional, além de serem percebidas por categorias masculinas que as denegriam ideológica e moralmente, eram proscritas socialmente pela própria família, sendo afastadas do convívio afetivo imediato, muitas vezes sentenciado pela figura da “matriarca”, mulher de poder da tradição, e legitimado pela ciência mental, a psiquiatria.

No caso da atuação da mulher escrevente, as publicações, a imprensa e os meios de comunicação em geral contribuíam para reforçar a negação das identidades das mulheres enquanto sujeitos históricos. O que exigira por parte das escreventes a adoção de mecanismos correspondentes à mentalidade e aos comportamentos sociais aceitáveis, que lhes impunham modelos de criação tidos como ideais, além de assinaturas anônimas ou uso de pseudônimos masculinos.

Esse estado de coisas remete à noção de que a dominação masculina impõe uma “ordem” que atua:

“como um mercado dos bens simbólicos dominado pela visão masculina: ser, quando se trata das mulheres, é [...] ser percebido, e percebido pelo olhar masculino ou por um olhar habitado pelas categorias masculinas – as que se aplicam sem que seja possível enunciá-las de modo explícito, quando se elogia uma obra de mulher porque ‘feminina’ ou, pelo contrário, ‘nada feminina’. Ser ‘feminina’ é essencialmente evitar todas as propriedades e práticas que podem funcionar como signos de virilidade, e dizer de uma mulher de poder que é ‘muito feminina’ não é senão uma maneira particularmente suctil de se lhe denegar o direito a esse atributo propriamente masculino que é o poder” (BOURDIEU, 1999, p. 86).*

Todavia, o movimento feminista crescente, as diversas transformações ocorridas no mundo ao longo dos anos, bem como os estudos histórico-culturais, têm colaborado para que se possa pensar as mulheres em contextos diferenciados e a partir de categorias que problematizam sentidos ideológicos hegemônicos, incluindo o desmerecimento e/ou, simultaneamente, a preferência pelo “feminino”. Categoria essa que ocasionara a inversão da realidade histórica, já que as mulheres não se apresentavam dóceis e frágeis (ainda se apresentam?) ou escreviam sentimentalidades e trivialidades do cotidiano (ainda escrevem?) devido as suas particularidades biológicas. Muito embora atributos como afetividade, sensualismo, capacidade interpessoal de se ver no lugar de outrem, de doar-se... figurem igualmente no ser e estar femininos, considerando que constituem, para além das faculdades naturais predeterminadas pelos dons da maternidade, heranças simbólicas suscetíveis a continuidades e rupturas.

E dentro das continuidades e rupturas, a luta pelo fortalecimento da identidade das mulheres pautada no “empoderamento” das singularidades históricas femininas consiste, ainda, uma tarefa desafiadora para o século XXI.

Em meio às mudanças paradigmáticas e estruturas contemporâneas, os sujeitos homens e mulheres vêm caminhando “lado a lado”? Têm recebido as mesmas oportunidades de formação? De acessibilidade e, igualmente, de questionamento e posicionamento crítico diante o mercado de bens simbólicos da humanidade? De inclusão e expansão de suas diversas formas de expressão? Enfim, de empoderamento humano nas diversas práticas e demandas do século XXI? Ou têm se preservado, lacunar e veladamente, sobretudo em grupos histórica e socialmente marginalizados, o velho imaginário de que “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”?


Hercília Maria Fernandes
Cajazeiras, 8 mar. 2013.



Referência:

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Oeiras: Celta, 1999.


Imagens:


Cenas da novela "Lado a lado", produzida pela Rede Globo.


Sugestão de Leitura:

Voz Poética Feminina na Era Blog: Os Casos da Maria Clara (Fernandes, Hercília; 2010, in Línguas & Letras).



sábado, 10 de março de 2012

Deter a Primavera?... Jamais!





Em dedicatória:  

à minha Mãe e às minhas Irmãs,
às Mestras e às Discentes de Pedagogia (CFP/UFCG),
às Mestras da UFRN,
em especial à profª. Drª. Marta Maria de Araújo,
e às Poetisas e Escritoras da Blogosfera.
 

Antes de iniciarmos as discussões em torno do objeto de nossa investigação, neste encontro de aula, eu não poderia deixar de realizar, enquanto mulher, mãe e educadora, algumas considerações ao dia 8 de março, Dia Internacional das 'Mulheres'.
As palavras as quais me inquietam tecer partem, inicialmente, do pressuposto de que se hoje estamos aqui reunidas, propondo-nos à reflexão e à construção de saberes e práticas teórica e metodologicamente orientadas ao ensino de Geografia nos anos iniciais, essa realidade se deve, em grande medida, às heranças socioculturais vindas de outros tempos e espaços, que nos apontam à compreensão do presente e à reinvenção do futuro.
Assim, antes de o 8 de março constituir um dia voltado às felicitações e às ofertas de presentes às mulheres, faz-se necessário lembrar que a data, acima de tudo, configura, simbolicamente, as ações femininas em prol da liberdade e do empoderamento humano e intelectual das mulheres. Ações que possibilitaram maior inserção e participação desses sujeitos nas esferas públicas da sociedade. A data, nessa direção de entendimento, faz emergir as sombras e as luzes de uma recentidade histórica, consiste “data-símbolo” à recordação das submissões e represálias as quais as mulheres foram, historicamente, submetidas; mas, igualmente, à recordação dos embates e reivindicações por direitos, bem como das conquistas e transgressões a valores, normas e paradigmas ideológica e socialmente instituídos, cujas ressonâncias inspiram-nos e remetem-nos às transformações.
Igualmente, não tão somente pela rememoração à trágica ação reacionária imposta às mulheres operárias, nos EUA, em 1857, que ocasionara a morte de aproximadamente 130 mulheres quando, em movimento grevista, as tecelãs requeriam condições mais justas de trabalho, além de valorização salarial. Muito embora este acontecimento, até pela barbárie da ação e repercussões posteriores, constitua, da mesma forma, símbolo para refletirmos as condições atuais das mulheres na sociedade contemporânea.
Por longos anos, as mulheres ocidentais foram anuladas enquanto sujeitos, tendo suas especificidades falseadas por concepções abstratas e sobrenaturais, que contribuíram para disseminar visões distorcidas do feminino atreladas às faculdades biológicas das mulheres, especialmente em relação à maternidade. Ideias que se legitimaram no todo social e que, reproduzidas, de formas estruturalmente orquestradas, principalmente por meio da família, igreja e escola, no dizer de Bourdieu, contribuíram para consolidar a dominação masculina sobre o suposto “sexo frágil” ou “segundo sexo”, segundo Simone de Beauvoir.
Posteriormente, com a revolução industrial e grandes guerras, as mulheres são convocadas às esferas públicas, especialmente ao trabalho nas fábricas e nas escolas. Todavia, se por um lado, as mulheres passaram a exercer funções produtivas na sociedade, estabelecendo relações além dos limites do privado. De outro, essa participação fora marcada por ideologias que minimizavam as suas reais condições de profissionalismo. Às mulheres, bem como às crianças, não se faziam necessários altos salários para garantir-lhes a sobrevivência, tendo em vista que se encontravam, na organização societária conservadora, sob a proteção masculina. Essas atividades, mediante discurso circundante, deveriam ser concebidas como complementares, já que constituía responsabilidade dos homens, pais ou maridos, o provimento familiar.
Em relação à atividade docente, objeto de nossas mediações cognoscentes, a difusão dessas ideias, em geral amparada por teorias explicativas cuidadosamente formuladas, caracterizou o fenômeno que, na literatura especializada, costuma-se definir como “feminização do magistério”. Isso porque, dos fins do século XIX ao início do século XX, para se efetivar o projeto de modernidade social e modernização da economia, as nações ocidentais compreenderam que era preciso investir, indistintamente, na escolarização das gerações que ocupariam funções no mercado de trabalho, sobretudo no setor industrial em crescente desenvolvimento. Entretanto, como nem todas as nações disponham de recursos materiais para garantir a plena expansão do ensino, as mulheres, então concebidas pelo pensamento filosófico como possuidoras de qualidades divinas para educar as crianças, constituíam os sujeitos ideais, conforme discurso liberal, para encabeçar o movimento de expansão da escola.
Essas ideias justificavam-se à luz da sensibilidade maternal feminina para com os infantes no âmbito da domesticidade, que, consistindo uma atividade espontânea, deveria ser extensiva, também, às práticas de ensino formais. Sendo a escola extensão natural do lar e da família, bastaria às mulheres professoras a expansão do amor que, naturalmente, experimentavam nas relações afetivas cotidianas. A docência, nessa perspectiva, fora entendida enquanto “missão sagrada”, um ato de “doação”, de desprendimento individual em prol da coletividade, especialmente em favorecimento daqueles que necessitavam dispor dos instrumentos de racionalização para saírem da condição de miséria e atraso sociocultural dos quais se encontravam submersos e submetiam às nações subdesenvolvidas.
Porém, se a formação feminina, sobretudo nos cursos direcionados à profissão docente, fora marcada por falseamentos e inversões da realidade histórica, a inserção das mulheres nos processos formais de racionalização, por outro lado, possibilitou-lhes, por intermédio da leitura e das práticas sistemáticas de escrita, os primeiros exercícios de reflexão filosófica, que contribuíram, posteriormente, à identificação das problemáticas sociais existentes, principalmente no reconhecimento das singularidades que permeiam os universos de vidas femininos.
Nesse sentido, lembremos o nome de algumas mulheres, cujas atuações nas esferas públicas da sociedade levam-nos a indagar a legitimidade dos discursos e da ordem dominante socialmente instituída. Como, por exemplo, o nome da escritora potiguar Nísia Floresta que, ainda no século XIX, advertira sobre as contradições existentes no ideário político predominante, bem como nas instituições que o legitimavam, acenando para a emergência do saber para a promoção da participação feminina nas decisões políticas brasileiras no entre-séculos: “Por que a ciência nos é inútil? Porque somos excluídas dos encargos públicos. E por que somos excluídas dos cargos públicos? Porque não temos ciência”. Provoca-nos a escritora.
Rememoremos o nome da filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), que fizera da reflexão filosófica e do exercício de escrita instrumentos de resistência, engajamento político e quebra de paradigmas hegemônicos, denunciando, por meio de suas ações e vasta produção bibliográfica, que as diferenças entre os sexos não consistiam realidades predeterminadas pelas particularidades biológicas, mas, acima de tudo, constituíam-se pelas intervenções históricas dos sujeitos, que delimitavam diferentes papéis sociais aos homens e às mulheres, estabelecendo assim as relações de poder entre gêneros.
Recordemos o nome da poetisa e educadora brasileira Cecília Meireles (1901-1964) que, em anos de repressão impostos pelo Estado Novo, sobretudo na década de 1930, fizera da escritura jornalística instrumento de transformação social. E, mais recentemente, de autoras como Adélia Prado, Lya Luft, Hilda Hilst e tantas outras autoras contemporâneas, cujas escrituras literárias e poéticas remetem-nos a refletir a repressão secular, as estruturas patriarcais de poder e as condições de existência das mulheres.
Pensemos, aqui e agora, na nossa primeira presidenta Dilma Rousseff que, corajosamente, desafiara o autoritarismo da ditadura e, mesmo com as recordações das violências físicas e simbólicas sofridas, não se deixara abater pelas forças opressoras e hoje ocupa o posto mais elevado na política brasileira.
Mas lembremos, igualmente, de uma soma considerável de mulheres que, estando à margem dos espaços políticos, culturais e socioeducativos convencionais, não ocupam as páginas de notícias, mas todos os dias se vêem quebrar e se reconstruírem em suas práticas cotidianas. As mulheres que sofreram e sofrem abusos físicos e sexuais, que não tiveram ou não têm acesso à informação e ao conhecimento formal, nem a formas favoráveis de empoderamento sociocultural e, portanto, ao pleno exercício da liberdade e da autonomia enquanto sujeitos, muito embora mesmo em situações adversas possam encontrar mecanismos de resistência e vislumbrar, em suas microcotidianidades, maneiras de “driblar”, ainda que elementarmente, formas arbitrárias de poder.
Lembremos de nossas Avós e Mães que, em períodos anteriores, tiveram o direito negado à escolarização e ao conhecimento elaborado e, por essa razão, incentivam-nos à formação humana e acadêmica como condição a priori para garantir-nos o exercício da cidadania.
Igualmente, pensemos em Nós - mulheres, mães, esposas, amantes, pedagogas -, que assumimos “diuturnamente” uma multiplicidade de funções e, mesmo assim, não perdemos a capacidade de sonhar e de nos regozijar com o belo, de vislumbrar objetivos, fazer planejamentos, sistematizar as nossas ações por meio de buscas e caminhos cada vez mais sólidos de amadurecimento humano e intelectual.
Pensemos, também, em nossos filhos e filhas, em nossos educandos e educandas, cuja configuração e reinvenção do futuro relacionam-se às ações coerentes por nós, sujeitos históricos, empreendidas nas diversas problemáticas que requerem soluções na contemporaneidade.
Não nos esqueçamos, portanto, de exercer a nossa historicidade, reconhecendo aquilo que é universal e, simultaneamente, particular às nossas vidas tão semelhantes e tão distintas. Porém, não nos esqueçamos, também, de cultivar as nossas sensibilidades, de darmos abertura às diversas formas de expressão, linguagens e culturas, pois que nos arranquem uma, duas, três rosas, mas que jamais nos permitamos deter a Primavera que, em nós, habita-nos.



Hercília Maria Fernandes
(Professora Doutoranda em Educação UFCG/UFRN)




Notas:

[1] Aula proferida em 08 de março de 2012, na disciplina “Fundamentos e Metodologias do Ensino de Geografia”, do curso de Pedagogia, do Centro de Formação de Professores, da Universidade Federal de Campina Grande (CFP/UFCG). E hoje, 09 de março, ampliada em escrita mediante as discussões desenvolvidas com a turma, que apresenta-se, basicamente, composta por discentes mulheres.
[2] Algumas das considerações historiográficas realizadas nesta explanação consistem construções teóricas, então refletidas, pertinentes ao artigo “Voz Poética Feminina na Era Blog: Os Casos da Maria Clara”, a ser publicado no dossiê “Literatura Contemporânea: escritura e resistência”, da Revista Línguas & Letras (Unioste/Campus de Cascavel). No texto realiza-se uma historiografia da participação feminina na literatura para se inserir, posteriormente, as vozes das autoras contemporâneas no cerne das discussões sobre gênero e poesia. Porém, registra-se que a apresentação do Dossiê, bem como o Resumo do artigo, já se encontra disponível para consulta no site do periódico.

terça-feira, 8 de março de 2011

Às Marias


Hoje é dia de Maria...

Maria dos morros dos velórios
das sacadas das calçadas
dos achados dos perdidos

da Maria-vai-com-as-outras
e da outra, a que fica

Daquela Maria que almeja
paixão preguiçosa
que mexe remexe acomoda
(não se atreve ir embora)
traveste-se em amor

Também da Maria-abismo
antro de perdição
Maria-bordô!

Da Maria de encantos mil...

Maria-rosa chocolate
branco neve algodão doce
Maria-espinho

Importada nacional
acadêmica analfabeta
executiva piloto de fogão

Maria do príncipe
(futebolístico ou não)
Maria que ama Maria...

Daquela que crê que reza que implora
que vai à igreja que despacha na esquina
que não dá bola

Maria da fome, dos talheres de prata
erudita popular
(“ir-me-ei...; toma lá da cá!”)

Maria boêmia abstêmica
avião balão
Maria, Maria...

Bruta lapidada
peçonhenta panaceica
(dese)equilibrada
puta indissoluta
(r)evolução estelar

Todas belas, todas manias
com ou sem cria
Marias emoção!

Sim, todo dia é dia de Maria!
que tomba levanta que sonha
que cala, das vozes-maria

Maria (im)perfeição
Maria poesia

- Ave, Maria!




Dados sobre a Autora:

Lou Vilela é natural de Natal-RN, residente na cidade do Recife-PE. Formada em Administração, com Especialização em Logística Estratégica, atua no sistema público federal há alguns anos e, simultaneamente, dedica-se às atividades literárias. Na web, a autora expande a sua voz nos blogs pessoais: Nudez Poética, Histórias (re)inventadas e Ritmos e Rimas, sendo este último dedicado às crianças. E é assídua colaboradora nos espaços coletivos “Maria Clara: simplesmente poesia” e “O Gato da Odete”. Contatos com a autora: louvilela@hotmail.com





Referência:

VILELA, Lou. Às Marias. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 99-100.


*Imagem localizada no Google sem indicação de autoria.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Maria Clara: uniVersos femininos

Uma página na historiografia das mulheres



Por que a ciência nos é inútil?
Porque somos excluídas dos encargos públicos.
E por que somos excluídas dos cargos públicos?
Porque não temos ciência.
Nísia Floresta.

No meio literário e acadêmico muito se discute sobre a existência de um eu-lírico feminino, particularmente na poesia.
Alguns defendem que não se pode realizar uma definição, posto que o que se considera “voz feminina” não é a escrita como produto de um sexo ou de outro, mas a evidência de alguns elementos de composição, dentre eles a pausa e o silêncio, a subjetividade e a introspecção, a intensidade emotiva, a imagística e o mistério..., atributos próprios do lirismo feminino.
Todavia, mesmo que se considere que alguns traços do lirismo feminino possam também povoar o imaginário poético masculino, onde se podem vislumbrá-los na poesia contemporânea, como na produção poética de Fred Matos, do blog Nas horas e horas e meias. É preciso ponderar que a problemática envolve complexidade, tendo em vista que a escrita literária comporta valores e regras próprias a cada época e contexto. Resulta, portanto, de um “ponto de vista” que, por sua vez, decorre da soma de interações que o artista realiza com a cultura e tempo histórico.
A meu ver não se pode estabelecer universalidade entre vozes masculinas e femininas porque homens e mulheres são portadores de valores e experiências condizentes aos múltiplos determinantes que envolvem os papéis sociais no emaranhado das relações humanas. Isso significa que a produção literária, seja ela elaborada por homens ou mulheres, comporta especificidades que requer o exame de uma categoria configurada historicamente: a de “gênero”.
Por mais que um(a) poeta/poetisa, escritor/escritora habilidoso(a) possa falsear literariamente a realidade, expandindo na obra uma percepção feminina e/ou masculina sobre as relações humanas, através da descrição das ideias, representações e comportamentos de suas personagens e/ou mesmo de sua subjetividade, ainda assim configurará um ponto de vista intrínseco a um "eu-lírico generificado".
Assim, entende-se que o entendimento da problemática não condiz a uma explicitação natural, portanto biológica do fenômeno. Outrossim, envolve uma discussão que privilegia o exame dos papéis que homens e mulheres desempenham em suas práticas sociais cotidianas.
No tocante à poesia elaborada por mulheres faz-se necessário relembrar que, nós autoras, somos herdeiras de um longo processo histórico de silêncios, interditos e mutilações, cujas ressonâncias ainda operam marcas na atualidade. Até pouco tempo, as mulheres escritoras, de um modo geral, para expressar opiniões, ânsias e reivindicações eram obrigadas a fazer uso de pseudônimos e/ou se esconder em véus metafóricos; expandindo uma escrita que, em síntese, nada almejava expressar além de “silêncio”. Silêncio que as mulheres se encontravam submetidas no cotidiano social.
Hoje, após anos de lutas, retrocessos e vitórias, percebe-se que há um movimento de resistência e negação aos ditames da “tradição falocêntrica” que, aliada à filosofia e aos valores cristãos, qualificara a escrita feminina, no Ocidente, como algo de segunda grandeza... Isso porque, até pouco tempo, as mulheres eram privadas de informação, cultura e conhecimento educacional formal, já que as suas maiores qualidades residiam, sobremaneira, às “alegrias e elevações da maternidade”...
Esse discurso ideológico oriundo do pensamento iluminista, no dizer da crítica Nelly Novaes Coelho, encontra-se em “crise” e o que se percebe é que a escrita elaborada por mulheres, a cada dia, toma maior consciência da singularidade da voz poética feminina. Singularidade que comporta “diversidade”, já que cada autora porta valores e representações várias, além de múltiplas vivências com a leitura e a linguagem literária.
Essas são algumas das concepções e considerações compartilhadas que guiam a organização da obra "Maria Clara: uniVersos femininos". Livro coletivo que, brevemente, se encontrará disponível nas livrarias e sites para aquisição dos leitores.
A obra consiste uma coletânea de poemas composta por 12 poetisas que atuam em espaços pessoais na Internet e, simultaneamente, integram o blog/projeto voltado à apreciação de poesia feminina, sob a minha coordenação, Maria Clara: simplesmente poesia.
Contrariamente às práticas de publicações femininas realizadas em séculos anteriores, onde as escritoras adotavam pseudônimos para expansão de suas vozes, os capítulos que compõem a obra Maria Clara: universos femininos apresentam-se intitulados com os próprios nomes das autoras e/ou com as imagens que lhes são pertinentes. São elas, por ordem alfabética:

Adriana Godoy, de Belo Horizonte – MG;
Adriana Riess Karnal, de São Leopoldo – RS;
Hercília Fernandes, de Caicó – RN;
Lara Amaral, de Brasília – DF;
Lou Vilela, de Recife – PE;
Maria Paula Alvim, de Belo Horizonte –MG;
Mirze Souza, do Rio de Janeiro – RJ;
Nina Rizzi, de Fortaleza – CE;
Renata Aragão, de Juiz de Fora –MG;
Talita Prates, de Cajuru – SP;
Úrsula Avner, de Belo Horizonte –MG;
e, Wania Victoria, de Porto Alegre – RS.

A coletânea comporta “Apreciação Crítica” elaborada pela Professora Doutora em Literatura Comparada, pela UFRN, Ana Santana Souza de Fontes Pereira (UNP); “Apresentação” contextualizada de minha autoria; e “Posfácio” escrito por Nina Rizzi, que realiza considerações sobre a leitura de mulheres na obra de Renoir.
Hoje, 08 de março de 2010, “Dia Internacional das Mulheres”, compartilho com os leitores e leitoras do Novidades & Velharias parte das informações que envolve a publicação da obra coletiva Maria Clara: universos femininos, cuja editoração dar-se-á pela Editora LivroPronto (São Paulo-SP), com lançamento previsto para junho/julho deste ano.
O livro consiste, além de arte literária, instrumento de conscientização e liberdade em prol da singularidade na voz poética feminina; compondo mais uma página na (historio)grafia das mulheres. Página capaz de fundar, parafraseando Adélia Prado, reinos e linguagens.


domingo, 8 de março de 2009

Em todas as coisas: às mulheres e aos seus [muitos] outros


Ofereço o poema às mulheres leitoras e escritoras da Blogosfera que, em meio às “singularidades” e “deformações” do universo poético-feminino
, expõem e lutam pela afirmação do eu-lírico.


Em todas as coisas


Borboleta azul
Borboleta vermelha.

Borboleta rosa-carmim
Borboleta framboesa.

Borboleta marrom
Borboleta jasmim.

Borboleta Avon
Borboleta malagueta.

Borboleta amarela
Borboleta rubi.

.....................Borboleta néon
.....................Borboleta cravo-canela.

.....................Borboleta pequena
.....................Borboleta singela.

.....................Borboleta carnuda
.....................Borboleta magrela.

.....................Borboleta amena
.....................Borboleta destemida.

.....................Borboleta carrancuda
.....................Borboleta atrevida.

.................................................................Borboleta voadora
.................................................................Borboleta surda-muda.

.................................................................Borboleta aeromoça
.................................................................Borboleta kama sutra.

.................................................................Borboleta vestida
.................................................................Borboleta camuflada.

.................................................................Borboleta despida
.................................................................Borboleta siliconada.

Borboleta na janela
Borboleta no fogão.

Borboleta na chaleira
Borboleta no sabão.

Borboleta morta-viva
Borboleta viva-morta.

Borboleta nova-velha
Borboleta velha-nova.

...............................Borboleta para ouvir
...............................Borboleta para sonhar.

...............................Borboleta para sorrir
...............................Borboleta para estudar.

...............................Borboleta para ver
...............................Borboleta para rezar.

...............................Borboleta para chover
...............................Borboleta para ensinar

Em todas as coisas
existem com certeza
um milhão de idéias
nuas e expostas sobre a mesa.

Em todas as coisas
há uma infinidade de receitas:
Borboleta pintando tragédia
Borboleta ensaiando beleza.




*Do livro Ruínas & Quimeras (FERNANDES, Hercília, 2006, p. 25).