quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Dade Amorim e o brincar de ser grande


(Dade Amorim)

A alma é música que às vezes entorta e deixa cair o ritmo janela abaixo
é lago no escuro trêmulo do quarto à procura de luzes e luz sempre em busca.

Alma é deserto pleno e fala dos oásis que não viu
alma é brinquedo quebrado e ainda assim
amado pela criança que imagina seu brinquedo todo inteiro
por um milagre que só mesmo as crianças acreditam.

Milagre é brincar de ser grande
e misturar a alma na longa espera
das pessoas grandes.


Dade Amorim, inspirada e habilidosa poetisa, já não se encontra entre nós. Fomos pegos de surpresa com a notícia de sua partida. Um sentimento de perda preenche, neste momento, a alma de poetas e escritores que interagiram com a sua poesia e gozaram de sua companhia em blogs e redes sociais.

Assim como muitos amigos, tive a honra de apreciar a sua poética e dispor de sua companhia, esta última sempre leve e cativante. Certamente, cada um de nós tem uma história relacionada à poesia ou à presença de Dade.

Lembro bem de suas visitas ao blog "Maria Clara", projeto de vozes femininas que possibilitou a publicação do livro "Maria Clara: uniVersos femininos" (2010), assim como ao blog "HF Diante do Espelho". Lembro da grandeza de sua alma, de sua humildade que ultrapassava qualquer manifestação de ego ou interesse imediato. Lembro das trocas e incentivos literários que se traduziam em palavras, mas também em atos.

Dade foi uma das primeiras autoras a expressar interesse de leitura do livro "Nós em miúdos" (2013). Bastava-nos, no entanto, a leitura de sua poesia para elevarmo-nos a alma, tornamo-nos literária e humanamente melhores, mas a poetisa sempre foi além: "brincava de ser grande" enquanto, poética e materialmente, percorria "a longa espera". Assim foi, assim viveu.

Por essas e outras coisas, sou-lhe grata e guardarei os passos de nossas interações em minhas melhores recordações. Sentiremos a imensidão de sua ausência, prezada poetamiga. Consola-nos, porém, a eternidade de sua poesia e as lembranças dos momentos compartilhados. 


*Para ler ou conhecer a poesia de Dade Amorim:





domingo, 12 de outubro de 2014

NÃO AO CONTINUÍSMO, SIM ÀS MUDANÇAS QUALIFICADAS

Ou, porque votarei em Dilma Rousseff


Com liberdade de pensamento e, principalmente, por conceber o diálogo com o contraditório um processo democrático necessário à participação política e à prática da cidadania, defendi o projeto de governabilidade apresentado pela candidata Marina Silva à sociedade brasileira no primeiro turno das eleições 2014. Agora, no segundo turno, com a mesma liberdade de pensamento, posiciono-me “contrária” ao apoio ofertado pela representante do PSB e da Rede Sustentabilidade à candidatura de Aécio Neves.

Entendo que os resultados das Urnas no último dia 5, considerando inclusive os votos nulos e brancos, apontam a uma crise de representatividade e demonstram o desejo profundo da sociedade brasileira por mudanças qualitativas. Concebo, também, que as estratégias de desconstrução dos ideais de governança e da imagem de Marina Silva, então arquitetadas durante a campanha do primeiro turno, minimizaram possibilidades de diálogo e entendimento para que se firmasse uma aliança com o PT; como alguns membros do PSB e da Rede Sustentabilidade assim aspiravam. E, ainda, reconheço o esforço de Marina Silva e da Rede em conduzir o apoio a Aécio Neves com base na concessão de propostas, entre elas a luta pela reforma agrária, a demarcação de terras indígenas e tornar o programa Bolsa Família uma política de Estado, levando o candidato a assumir, em Carta oficializada, uma série de compromissos face aos cidadãos brasileiros.

No entanto, a história recente nos mostra que governo PSDB não é indicativo de mudanças sociais, tampouco de erradicação da pobreza e desigualdades sociais, bem como de fortalecimento das instituições públicas, entre elas as Universidades e Institutos Federais. Por isso, apesar de conceber legítima a alternância gestora para fortalecer a democracia, não vislumbro o retorno do PSDB ao poder executivo federal como sinônimo de credibilidade representativa e projeto de transformação social; até pelas alianças com representações demasiadamente reacionárias e conservadoras que, certamente, dificultarão as mudanças almejadas.

Não nego: tenho sérias críticas ao governo Dilma e não me esquivo de discuti-las nos espaços que interajo, especialmente a centralidade ideológica via controle das instituições e de seus processos, abandono ou negligência de pautas sociais, incluindo os direitos das comunidades indígenas, alianças questionáveis para promover a governabilidade, além de um certo autoritarismo partidário que se recusa ao reconhecimento de erros e abertura ao diálogo com modos diversos de pensar. Entretanto, entendo que participação política é um processo em contínua construção, e o próprio ativismo autoral pressupõe o “debate” e o “embate” constantes com as forças gestoras, sobretudo quando elas se distanciam das aspirações e das lutas em prol dos direitos dos cidadãos.

Tendo em vista as considerações realizadas, posiciono-me favorável, neste segundo turno das eleições 2014, não ao continuísmo e sim às mudanças qualificadas que firmar-se-ão na nova gestão da presidente Dilma Rousseff. Esse posicionamento implica, além de não negação das conquistas sociais já alcançadas que não se pode desconsiderá-las, o reconhecimento dos erros e a consciência de que a luta apenas se inicia, pois é, sobretudo, nas batalhas cotidianas que fortalecemos o nosso ativismo guiado em interesses coletivos.

Para que o Brasil não retroceda e se qualifiquem as mudanças, meu voto é Dilma 13.


Hercília Fernandes
12 out./2014

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