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domingo, 8 de novembro de 2009

Per Augusto & Machina: tumulto e racionalidade em intimidade


1. é louco ser solene.

....é lúcido ser louco!


2. se tenho, como última morada

....o som caleidoscópico da vida

....carrego matrizes, almas sombreadas.


3. meu coração de cavalo, meu ato de terra

....surrado dos demônios, ímpio em desvario.


4. quando surge de mim, fiquei varrido.

....e meu estado de coisa correu solto!


5. qualquer ambiguidade tem um tônus

....que corta toda a alma pelo avesso!


6. a dor fecunda das hostes:

....vou retomar meus laços com a vida.


(Romério Rômulo in: Abertura 1, p. 13, 2009).




Esta semana, ao retornar de breve viagem, pude sentir a agradável emoção de ter em mãos o livro Per Augusto & Machina, do poeta mineiro Romério Rômulo, lançado recentemente pela editora Altana.

O livro me fora oferecido pelo próprio poeta, que, além de me ofertar a obra com uma deliciosa dedicatória, me encaminhou mais uma de suas criações poéticas: o livro Matéria Bruta, lançado também pela Altana, em 2006.

As obras apresentam notória excelência literária e evidenciam a grandeza imagística e estilístico-semântica do poeta na captação e reverberização dos fenômenos que permeiam a existência humana e a atividade poética.

Além disso, os livros comportam excelência na apresentação visual e gráfica, incluindo ilustrações que, além de enriquecerem o suporte material, contribuem para inquietar o espírito dos leitores durante a apreciação e ressignificação textual. O que demonstra o zelo e o respeito do artista, igualmente da editora, para com a arte poética; apresentando, aos leitores, um suporte de qualidade, criativo e arrojado, compatível à beleza intrínseca às criações literárias do artista.

No tocante ao Per Augusto & Machina, o livro apresenta-se composto por poemas que se distribuem em 127 páginas e conta com belíssimo prefácio, intitulado “Uma poética implacável”, escrito pela professora, crítica literária e poetisa Maria da Conceição Paranhos. Leiam-se algumas das falas da literata voltadas ao processo de criação do Per Augusto & Machina:


Romério Rômulo se movimenta num universo de contrastes, em que a experiência vivida testa as realidades estabelecidas em favor de uma lucidez cada vez maior. Suas imagens inquirem as aparências em favor da essência do viver. [...] Desde o título, Per Augusto & Machina, o poeta des-capitaliza os vocábulos, quer rendê-los, observá-los e indagá-los sem mistificação, des-convencionando o arbitrário da língua. Por augusto e sua máquina, em favor de uma realidade mais real, em favor do homem-augusto, que assim grafado, adjetivado, nos remete a um ser humano restaurado à sua dignidade (in: Prefácio, 2009, p. 7).


Na obra, Romério Rômulo dialoga com o poeta Augusto dos Anjos e desenvolve, segundo Maria da Conceição Paranhos: “Temas recorrentes como a loucura, a corruptibilidade do corpo físico, a solidão, a morte buscam sua existência na linguagem, onde ganharão consistência e força de ataque, homem e cavalo” (in: Prefácio, 2009, p. 7).

Em abril deste ano tive o prazer de entrevistar Romério Rômulo em café literário virtual, aqui no Novidades & Velharias, cuja entrevista se desenvolveu, basicamente, em torno do Per Augusto & Machina; que, na época, encontrava-se em processo final de editoração. Na ocasião, uma das questões abordadas girou em torno da loucura. A partir dos versos “de quantas nuvens se faz uma loucura? / é construída a mão que bate o prego?”, pertinentes ao poema Uma bravura regenera a noite, interroguei o poeta sobre a dialética loucura-racionalidade durante o instante criador, onde Romério argumenta:


O criador, ou criativo, é aquele que foge do tom, que surpreende. Então, a loucura é um dado. Mas, e se eu consigo organizar essa loucura? O Oscar Niemeyer não organiza, faz prédios e cidades? Parece um contra-senso, um absurdo, e é. Mas, é real. Daí termos situações como o Rimbaud, que aos 19 anos se sentiu esgotado, ou o Niemeyer que, centenário, continua operando. Mananciais e construções, no caso, são diversos. Tumulto e racionalidade, aqui, são íntimos (in: Novidades & Velharias, 19 abr. 2009).


Hoje, lendo os poemas do Per Augusto & Machina em material impresso, a ideia central que me vem à mente, e, que de certa forma confirma minhas primeiras impressões de leitura, é que se delineia, no curso da obra, uma constante intimidade. Intimidade capaz de unir mundos aparentemente opostos, porém complementares: sonho e manualidade, vida e morte, imagística e historicidade, devaneio e intencionalidade; enfim, em o Per Augusto & Machina, parafraseando o poeta das minas gerais, “tumulto e racionalidade atuam íntimos e dividem mistérios”.


Notas


[1] Para saber mais sobre o poeta visite o blog Romério Rômulo e/ou leia a entrevista concedida ao Novidades & Velharias, em abril do ano corrente.

[2] Texto também postado em Maria Clara: simplesmente poesia.


Referências

  • RÔMULO, Romério. Matéria bruta. São Paulo: Altana, 2006.
  • ______. Per Augusto & Machina. São Paulo: Altana, 2009.

sábado, 17 de outubro de 2009

Literatura com sotaque: "português ou caipirês?"

A poetisa e professora universitária Adriana Karnal publicou um belo artigo sobre literatura e preconceito linguístico no quadro “postagem simplesmente poesia”, no blog de poesia feminina Maria Clara.

No artigo “Literatura com sotaque”, Adriana analisa o fenômeno da variedade da língua e a marginalidade linguística a que estão submetidos os grupos sociais economicamente desfavorecidos, os chamados “sem língua”.

A partir de uma reflexão pautada nos estudos realizados por Marcos Bagno, dentre os quais se destaca o livro “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, a poetisa reflete os mitos que se convencionam na sociedade em razão das diferenças sociais, regionais, dialetais; e a controversa articulação entre oralidade e escrita normativa.

Por meio de uma argumentação fundada na sociolinguística e da análise de aspectos imbricados em textos literários, onde se destaca um poema do poeta portuquês Nilson Barcelli, Adriana nos leva à preciosas reflexões sobre o uso da língua; onde acena, inclusive, para as controvérsias acerca do novo acordo ortográfico da língua portuguesa, argumentando que: “Ainda que as novas regras tenham sido introduzidas na escrita da língua portuguesa, elas ainda não conseguiram ser incorporadas pelos falantes, muito em razão de a escrita refletir a pronúncia”.

Os argumentos e análises enunciados por Adriana Karnal reportaram-me a um texto de Dad Squarisi que discute a língua portuguesa praticada pelos brasileiros. O texto reflete, no dizer de Bagno, "o círculo vicioso do preconceito linguístico" que tem raízes em interesses hegemônicos e se legitima por meio da gramática normartiva da língua culta. Mas, sem mais preâmbulos, passemos à escrita; que cada leitor realize as suas próprias acepções...



Português ou Caipirês?[2]


Dad Squarisi


Fiat Lux. E a luz se fez. Clareou este mundão cheinho de jecas-tatus. À direita, à esquerda, à frente, atrás, só se vê uma paisagem. Caipiras, caipiras e mais caipiras. Alguns deslumbrados, outros desconfiados. Um - só um - iluminado. Pobre peixinho fora d’água! Tão longe da Europa, mais tão perto de paulistas, cariocas, baianos e maranhenses.

Antes tarde do que nunca. A definição do caráter tupíniquim lançou luz sobre um quebra cabeça que atormenta este país capial desde o século passado. Que língua falamos? A resposta veio das terras lusitanas.

Falamos o Caipirês. Sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa. Vale tudo: eu era, tu era, nós era, eles era. Por isso não fazemos concordância em frase como "não se ataca as causas" ou "vende-se carros".

Na língua de Camões o verbo está enquadrado na lei da concordância. Sujeito no plural? O verbo vai atrás. Sem choro nem vela. O sujeito causas e carros estão no plural. O verbo, vaquinha de presépio, deveria acompanhá-los. Mas se faz de morto. O matuto, ingénuo, passa batido. Sabe por quê?.

O sujeito pode ser ativo ou passivo. O ativo pratica a ação expressa pelo verbo. Os caipiras (sujeito) desconhecem (ação) o outro lado. Passivo, sofre a ação: o outro lado (sujeito) é desconhecido (ação) pêlos caipiras. Reparou? O sujeito - o outro lado - não pratica a ação.

Há duas formas de construir a voz passiva:

a- com o verbo ser (passiva analítica): A cultura caipira é estudada por ensaístas. Os carros são vendidos pela concessionária.

b- Com o pronome se (passiva sintética): estuda-se a cultura caipira. Vendem-se carros. No caso, não aparece o agente. Mas o sujeito está lá. Passivo, mas firme.

Dica: use o truque dos tabaréus cuidadosos: troque a passiva sintética pela analítica. E faça a concordância com o sujeito. Vende-se casas ou vendem-se casas? Casas são vendidas (logo; vendem-se casas). Não se ataca ou não se atacam as causas? A causas não são atacadas (não se atacam as causas). Fez-se ou fizeram-se a luz? A luz foi feita (fez-se a luz). Firmou-se ou firmaram-se acordos? Acordos foram firmados (firmaram-se acordos).

Na dúvida, não bobeie. Recorra ao truque. Só assim você chega lá e ganha o passaporte para o mundo. Adeus, Caipirolândia.



Notas


[1] Vale a pena ler/reler o texto da poetisa e professora Adriana Karnal. Para tanto, visite o “Maria Clara: simplesmente poesia”.

[2] Texto extraído de: BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 5. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000. Arte disponível no Google Imagens.