Hoje (12/09),
anterior a assembleia docente do CFP/UFCG, então voltada às discussões e deliberações
sobre os rumos da greve no campus de Cajazeiras-PB, parei, durante o percurso, em um posto de combustível. Durante o tempo de abastecimento, duas pessoas indagaram-me sobre o fim da paralisação.
A primeira, um pai de aluno do curso de medicina, perguntou-me qual a minha expectativa frente ao término da greve; alegando que, durante o decorrer da paralisação, aproximadamente
4 meses, assegurara, gratuitamente, as despesas do seu filho na cidade, já que
a família reside em Fortaleza. A segunda, o proprietário do posto, argumentou-me
que, desde que a greve fora decretada, estava tendo significativos prejuízos com
as baixas vendas.
A minha resposta
se desenvolveu, agora percebo, a partir de uma leitura prático-afetiva da ocasião, onde argumentei-lhes de
forma interrogativa:
Não posso assegurar se a greve
acabará hoje no CFP/UFCG, já que envolve uma ampla e profunda discussão
sobre a reestruturação da carreira docente, mediada pela diretoria da ADUC, bem como se associa à análise da
conjuntura local-nacional e dados oficiais do movimento grevista apresentados
pelo ANDES (Sindicato Nacional). Entretanto, em termos financeiros, como os
Senhores concebem o fato de eu estar pagando a conta de gasolina, em pleno
início do mês, com o “cartão de crédito”? (Enfatizo, a opção não era débito
automático e sim crédito!)
Se a
discussão diz respeito única e exclusivamente ao financeiro, será que nós
professores não temos enfrentado, ao longo dos últimos anos, sérios prejuízos pelas perdas salariais e
problemas em qualidade de vida, inclusive de saúde, em face desta política de
desvalorização profissional e arrocho salarial?...
Desde o
início do ano venho quantificando... as contas de água e energia subiram uma
média de 10%, o colégio dos meninos e o aluguel do imóvel em que residimos em
Cajazeiras ano a ano aumentam 10%, além dos setores de alimentos, combustíveis,
vestuários, entre tantos outros, cujos percentuais sequer sabemo-nos
calcular...
Por que esses aumentos não se dão
gradativamente, preferencialmente em doses homeopáticas distribuídas em três
anos, seguindo a mesma lógica do Acordo apresentado pelo governo federal à
categoria docente? (E olha que nem estou me detendo nos critérios
de exigências e competências para progressão da carreira, já que a "escalada" é até mais árdua!...)
Não tenho
qualquer constrangimento em anunciar que vivo, conjuntamente com a minha
família, uma vida modesta, desprovida de excessos. Talvez, bem na contramão dos
que idealizam o suposto “glamour” na/da carreira acadêmica... Minhas despesas
mais significativas condizem à educação dos nossos filhos em Cajazeiras
e com o filho universitário na cidade de Natal. Embora a universidade seja federal (UFRN), as
condições para manutenção, como sabidas, não são. Porém, concebo estas ações não como gastos, e sim como "investimento de infraestrutura", segundo um teórico lucidamente elucidou.
E se
disponho de certa acessibilidade à arte e à cultura tal realidade se deve, em
grande medida, ao fato de o meu esposo, Marcus Vinícius, ser músico, o que me
proporciona momentos de apreciação artística e sociabilidades. Da mesma forma,
ao fato de ser uma leitora que, ainda não como gostaria, adquire livros. Além
de aproveitar as possibilidades de leitura que se colocam acessíveis nas
bibliotecas públicas e na internet.
Entretanto,
sinto-me privilegiada. Evidentemente, não pelo valor da remuneração! Tampouco por
integrar uma greve remunerada, como alguns cientistas políticos vêm alegando por aí!...
Mas por entender que as atividades empreendidas pelo professor universitário contribuem para o desenvolvimento qualitativo e processual dos discentes, fato que comprovo pelas suas demonstrações diárias, ao enfatizarem a importância humana, intelectual
e social da prática docente nas universidades às suas vidas e experiências, que se traduz nas formas de ensino, pesquisa e extensão.

Hoje, além do
caloroso apoio de um expressivo grupo de discentes, na assembléia, à
continuidade da greve (precisavam ver, o gesto foi de fato comovente!), ao sair do
auditório, tive o prazer de me encontrar com uma das graduandas de pedagogia, Alzenira Cândida Alves, que apresentou recentemente trabalho
científico no IV FIPED (Fórum Internacional de Pedagogia). Na conversa, a discente me
transmitiu as palavras da Professora-Coordenadora do GT de Currículo, cujo conteúdo parabenizava-me
pela qualidade na orientação de três trabalhos desenvolvidos na disciplina
Currículo e Escola, cuja teorização e empiria, então materializados sob forma de
artigos pelas graduandas e, igualmente, por mim orientados, foram bastante apreciados durante as discussões do GT.
Agora, voltando ao desfecho da greve, torço para que não tenhamos que nos dirigir até a exaustão para
podermos deflagrar o seu término. Embora entenda que é preciso certa dose de serenidade para fazer
surgirem os resultados das ações em curso.
De uma forma ainda que utópica, creio
que os fins da educação dizem respeito à promoção de mais e melhor educação. Assim,
a greve, como instrumento de luta e resistência de uma categoria, ainda que não
vitoriosa em todos os aspectos, constitui processo de
desenvolvimento humano. Se não numa perspectiva do paradigma produtivista/economicista - lógica que alguns burocratas do ensino têm defendido enquanto finalidade da educação contemporânea -, mas no sentido
de entendermo-nos capazes de exercer a nossa condição de sujeitos de
historicidade, que ultimamente - é importante considerarmos -, encontrava-se adormecida, muito embora trazíamos a compreensão, ainda que latentemente, que a construção do amanhã, incluindo "mais e melhor educação", depende das ações por nós empreendidas
no aqui e agora.
- Texto escrito em 12/09, após assembleia realizada no Centro de Formação de Professores, da Universidade Federal de Campina
Grande (CFP/UFCG). Ofereço-o aos Graduandos de Pedagogia, cujas mediações fazem-me almejar e lutar por mais e melhor educação.
- Fotos: Graduandos de Pedagogia em atividades de aula (CFP/UFCG). Acervo Pessoal, arquivos de celular.