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sábado, 24 de abril de 2010

Das (inter)subjetividades


 
.......Consiste uma atividade saudável e enriquecedora na Blogosfera a construção de diálogos poéticos entre os escritores.
.......Através da intertextualidade os poetas configuram inúmeras interações, participam da fruição literária e apontam para múltiplas ressignificações. Participam ativamente do processo de criação artística em meio a um fenômeno que costumo chamar de “intersubjetividade poética”.
.......Dentre as intersubjetividades existentes em o HF diante do espelho, espaço pessoal voltado à poesia, destacam-se parcerias com o poeta e escritor Fred Matos - do blog Nas horas e horas e meias -, autor dos livros "Eu, meu outro" (Poesia Diária: 1999) e "Anomalias" (Kelps: 2002)
.......Para composição desta postagem selecionei alguns poemas que estabelecem diálogos com Fred Matos e concluo o post com o poema "Subjetividades", também de sua autoria e a mim ofertado.
.......Passemos à apreciação das escritas:




O café dormido
A manteiga ranzinza
O leite perecido
O queijo minguado
A maçã carcomida
O pão aguado...

: isso e beijo água & sal

***

há dias em que não se aguen-
tudo parece perecível,
: minguado

hercília fernandes

***

Meus dias sem juízo


há dias em que tudo conspira contra mim:
chove apenas porque ansiava o sol e o mar
o trânsito engarrafa porque tenho pressa
qualquer olhar é uma ameaça
qualquer sorriso uma ironia
qualquer palavra uma afronta
nenhum café é forte e quente
nenhum carinho suficiente
nenhuma cerveja é
suficientemente gelada,
nenhuma mulher é bela
não rio de nenhuma piada

há outros em que o clima não importa
nenhuma adversidade é intransponível

e sou até capaz de rir de mim
se me lembro dos meus dias sem juízo

fred matos

***


Ao poeta Fred Matos


Ainda que eu quisesse
não saberia como agraciar.
Jamais fui referência postular
Não carrego a benevolência
da madre Tereza de Calcutá.
Se existe céu ou inferno
não cabe a mim pronunciar.
Embora, em seus mistérios,
a humanidade ora padeça
[ ilesa ] de purgatório
: peleja secular...

hercília Fernandes

***

conquanto não sejas santa
com certeza não és nem será
a madre tereza de calcular
exceto que calcules sílabas
com um metrônomo acústico
que eu, nos meus versos rústicos,
não saberia como usar

mas na peleja secular
entre a fé e a ciência
uso um metrônomo pendular
que hora está aqui, hora está lá
hora está aqui, hora está lá
hora está aqui,
hora está lá

fred matos

***

À amiga e poeta Hercília Fernandes



convencionemos inicialmente
que isto será um poema.

não creio que possa
causar a alguém algum
problema aceitar
que a aparência
não define a natureza,
a aparência
não define a natureza

a aparência
não define a natureza a aparência
não define a natureza

bem como que a
subjetividade determina,
entre outros,
o conceito de beleza

sendo assim,
imaginemos que
de repente,
feito Samsa,
façamos-nos

[omitamos aqui qualquer adjetivação]

um animal
que não nos causaria asco
se não estivéssemos
condicionados aos conceitos

se não estivéssemos
condicionados aos conceitos
aos pré-conceitos

por sua vez
subordinados aos padrões
da época
e das suas circunstâncias

pausa para os nossos comerciais

este poema é um oferecimento
do magazine Casas da Ilha
produtos de qualidade
para a mãe e para a filha

zapeando para outro canal:

um homem sonha e ronca
raízes saindo pelos olhos
tronco pela boca elástica

imaginemos que
de repente,
feito Samsa,
façamos-nos
um inseto
olhos imensos
antenas
boca larga
corpo polido

qual seria então
a nossa orientação estética

a nossa orientação

orientemo-nos
se não pela constelação do cruzeiro
do cruzeiro
do cruzeiro do sul

orientemo-nos
se não pela constatação de que a aranha
a aranha

a aranha não tem asas
poetas não têm asas

poetas não têm asas mas voam

orientemo-nos pela desorientação
desorientemo-nos
descolemo-nos dos conceitos
desconceituemo-nos
descondicionemo-nos

mas se não der
convencionemos que um poema
é uma convenção

uma convenção
uma convenção
uma intenção
uma intervenção
uma inversão

uma invenção

um oferecimento
do magazine Casas da Ilha
produtos de qualidade
para a mãe e para a filha

fred matos


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

CORDAS DE CORRESPONDÊNCIA: intersubjetividade poética



precisamos de entrar mais vezes numa imensa roda de papos e prosas
aflorar os
nervos sensíveis da poética
expressar vontades
desejos medos e os erros aos quais estamos expostos
não precisamos
sair a concordar
mesmo que para isso rebentemos a
corda
muitos não querem mais as cordas amarradas em um mesmo
eixo
e
aqui concordamos com a exuberância dos livres
precisamos de mais trocas e recíprocas
precisamos de expor nossas
dissonâncias
por vezes penso:
por que é tão difícil assumirmos discordâncias?
será porque fomos educados sob a égide educativa do consenso?
(Fernando Cisco Zappa, 08 fev. 2009).

precisamos tanger a roda
pois que a corda se rebenta
quando se afirmam parâmetros / atalhos / mostras
quando se fecha o círculo e se distorcem os ismos
quando prevalecem normas / dicções e achismos
o amanhã é o contraponto do presente na contradança do futuro
que venham absurdos / desconstrução / preenchimento de abismos
no estalar de dedos / na voz dos dementes / nas bandeiras
dos ímpios e dos justos
que venham novos hálitos nos lábios dos Avulsos
e más maneiras nos brados comprimidos encarcerados nos vãos
do subterfúgio
que venham lâminas para cortar nós!...
(Hercília Fernandes, 10 fev. 2009).




Fernando Cisco Zappa é formado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, e atualmente reside em Belo Horizonte. Difunde sua arte literária em verso e prosa no blog Cisco Zappa.

Ilustrações: Fá Duarte

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

LÍNGUAS QUE ROÇAM A LÍNGUA: o fazer metalingüístico das vozes femininas na Blogosfera


1 Nas bordas do tema

Dentre tantas possibilidades de entendimento para a poesia contemporânea, a busca pela “abertura da linguagem”, segundo historiciza Coelho (1980), configura uma das tendências na produção poética. A pluralidade de formas, cores, signos, imagens perpassa as linhas do poema em meados do século XX, especialmente após os anos 60/70.

A poesia contemporânea, ainda com Coelho, oscila entre a vocação demiúrgica, a consciência “de poder criar realidades através da palavra” e a consciência de “ser apenas um objeto de linguagem” (COELHO, 1980, p. 314). E, nesse movimento pendular entre “consciência épica”, “experimentalismo” e “continuidade”, a poesia tende para a “consciência da linguagem como verdadeira matéria poética” (COELHO, 1980, p. 318); onde a intertextualidade e a metalinguagem constituem terrenos fecundos para a criação e “a linguagem mais do que nunca se revela como matéria original que cabe ao poeta combinar em infinitas possibilidades de existência” (COELHO, 1980, p. 319).

Desde então, tem sido uma experiência corriqueira na produção dos poetas a utilização do intertexto, de elementos visuais do minimalismo e/ou de “metasignos bailarinos”, parafraseando o poeta Fred Mattos, para composição do poema. Experimentações que se expandem, hoje, abundantemente com a chamada Era Virtual, onde infinitas possibilidades de combinação e entrecruzamentos lingüísticos podem se realizar efetivamente a fim de expressar os estados emotivos, conceituais e temático-estilísticos do poeta. No entanto, tal realidade, conforme refletir-se-á, levanta controvérsias de opinião.

Para a poetisa Mariana Ianelli, autora dos livros Trajetória de antes (1999), Duas Chagas (2001), Passagens (2003), Fazer Silêncio (2005) e Almádena (2007), tem havido, na atual criação poética, um certo exagero na utilização de recursos metalingüísticos que pode levar o poeta a perder uma dimensão essencial da linguagem: o caráter transformador da poesia. Em entrevista concedida ao jornalista e escritor Álvaro Alves de Faria para o jornal de literatura Rascunhos, a poetisa expõe as suas inquietações:

Fico um pouco aflita com a obsessão dos poetas de hoje pela metalinguagem. Que um escritor reflita sobre o seu ofício e investigue as inúmeras possibilidades que a palavra oferece de falar e de calar, eu compreendo [...]. Mas quando o poeta se deixa fulminar pela idéia da criação, ele corre o risco de perder de vista a dimensão essencialmente humana da linguagem. E aí está o mal. Falar da criação supõe que se fale do mundo. Imagine Deus especulando sobre o ovo cósmico e sobre a poeira das estrelas sem nunca dar a ver ao homem a humanidade... Qual o sentido disso? [...] é onde reina a crise do pensamento e da fé que o ato da escrita mais do que nunca se afirma como uma perspectiva de transformação das coisas tal como elas nos são dadas. No poema que fala sobre o homem, e para o homem, está a verdadeira metalinguagem (IANELLI, apud FARIA, 2009, grifo nosso).


De modo semelhante, o professor titular da UFRJ, crítico e organizador de antologias Antonio Carlos Secchin demonstra compartilhar de algumas preocupações em torno dos limites e excessos da linguagem na poesia pós-século XX[1].

Para Secchin há um certo "maneirismo" dos poetas na adoção de elementos do minimalismo, da metalinguagem e intertextualidade. Em entrevista concedida ao jornal Estado de São Paulo, o crítico chama a atenção para a “arrogância” dos poetas em “supor que qualquer recorte arbitrário do verso chancela a ‘modernidade’ e a qualidade de um texto”. E, ainda, adverte para

a volúpia com que as tribos de poetas entredevoram-se, como se isso tivesse qualquer interesse ou ressonância para além de seus estritos e restritos mundos. A utilização descalibrada da metalinguagem e da intertextualidade, erigidas não em processo, mas em finalidade suprema da obra (SECCHIN, apud ESTADO DE SÃO PAULO, 04 jan., 1999, grifo nosso).

Controvérsias, reflexões e advertências a parte..., o fato é que a poesia contemporânea tem se revestido de elementos metalingüísticos na criação, seja para concentrar-se no próprio fazer poético e/ou na palavra-em-si, seja para ir-além-de (COELHO, 1980, p. 318). Remetendo os locutores e interlocutores a se debruçarem sobre a linguagem e, assim, “roçar[em] a língua em Luís de Camões”, segundo explicitação de Caetano Veloso (Língua, In: Velô, 1984).

Também na criação poética veiculada na Internet se apresenta um fenômeno comum: o diálogo metalingüístico proposto pelos poetas, especialmente pelas vozes femininas na Blogosfera. Tal realidade, conforme se pode inferir, remete os leitores a se aproximar do universo imagístico, temático e estilístico das escritoras; participando mais efetivamente do processo de criação e fruição da leitura literária.

Dessa maneira, conforme sugere o título, o alvo e/ou compromisso do artigo é refletir alguns dizeres metalingüísticos pertinentes às vozes femininas na Blogosfera. Para tal feito, o artigo estabelecerá contextualizações com poemas de seis poetisas que vêm amplamente se destacando na Internet, quais sejam: Adriana Coelho (Pavitra), Graça Pires, Lou Vilela, Mariana Botelho, Mercedes Lorenzo (Padmaya) e Mônica Amorim.

2 O fazer metalingüístico das vozes femininas na Blogosfera

Na criação poética feminina, a atitude metalingüística frente à especulação do ato poético, dos motivos que levam o poeta à composição e de sua materialidade apresenta-se abundante nas linhas das escritoras. São célebres os versos de Motivo, da poetisa e educadora Cecília Meireles (1901-1964), onde o eu-lírico contempla o seu próprio devaneio e, simultaneamente, oferece explicações para o fazer poético da artista:

Eu canto porque o instante existe,

e a minha vida está completa

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta. [...]

(MEIRELES, 2001, p. 15).

Também na poesia veiculada na Blogosfera, os dizeres poéticos femininos assumem atitudes metalingüísticas, tanto para refletir/explicar o instante criador e as coisas que lhe estão relacionadas, como para exercitar a língua. Entretanto, antes de penetrar, efetivamente, no objeto de exposição desta análise faz-se relevante, a fim de suporte teórico-conceitual, os questionamentos: “O que vem a ser metalinguagem?” / “Como a função metalingüística pode se apresentar na literatura?”

Metalinguagem, como sugere a construção do nome, é uma palavra composta formada pelo prefixo grego “meta” + “linguagem”. O prefixo “expressa as idéias de comunidade ou participação, mistura ou intermediação e sucessão” (WALTY; CURY, 2009). Já, por linguagem entende-se “o instrumento específico [verbal ou não-verbal], de que os homens se valem para se comunicar uns com os outros, trocando experiências, isto é, transmitindo reciprocamente os seus pensamentos, idéias, desejos, conhecimentos, repulsas, etc.” (COELHO, 1980, p. 6). Conseqüentemente, a formação da palavra aponta para uma definição conceitual do termo como sendo “a linguagem que se debruça sobre si mesma” (WALTY; CURY, 2009).

Na literatura, a função metalingüística faz-se presente quando o autor “usa o código para explicar o próprio código” (PELLEGRINI, 1996, p. 27). Esse é, conforme se pode observar, o caso específico dos poemas Motivo de Cecília Meireles e Língua de Caetano Veloso. Evidentemente, outras funções podem se apresentar em uma mesma escrita (COELHO, 1980, PELLEGRINI, 1996). Porém, a função metalingüística torna-se evidente quando o “escritor escreve um poema e discute o seu próprio fazer poético, explicitando procedimentos utilizados em sua construção” (WALTI; CURY, 2009). E, nesse diálogo, o leitor tende a compreender um pouco mais do universo de composição do poeta, adquirindo informações que lhes serão úteis para o entendimento da linguagem poética.

No tocante às vozes femininas na Blogosfera destacam-se as atitudes e dizeres metalingüísticos das poetisas Adriana Coelho, Graça Pires, Lou Vilela, Mariana Botelho, Mercedes Lorenzo e Mônica Amorim que sugerem - por meio de imagens, canções e breves narrativas - debates pertinentes à compreensão do fenômeno criador, à figura do poeta, ao poema e às suas partes mínimas: o verso e a palavra.

Tratando de instante e processo criador, tal realidade pode ser observada nos versos oníricos de o poema Inventar nascente, da poetisa portuguesa Graça Pires, autora do livro Ortografia do olhar (1996). Na escrita, a voz poética expande onirismo, e, simultaneamente, exercita um fazer metalingüístico ao refletir o ofício de artista. Além da contemplação metalingüística do eu-lírico, destaca-se em Inventar nascente o desejo de vôo e plenitude do eu emotivo que busca, no extravasamento poético, o entendimento para as sensações do instante criador na profundidade de seu universo interior:

A minha profissão era inventar nascentes.

Eu nada sabia da ressonância das ondas,

até que fiz dos sonhos um álibi

e arrisquei qualquer fuga,

com a manhã rebentada no peito.

Indiferente à respiração dos peixes,

sigo Ícaro até às profundas águas

de um amor em fogo,

enquanto me crescem, na garganta,

as raízes do delírio.

(PIRES, 27 out. 2008).


Paisagens de sonhos, desejos de liberdade e plenitude e busca pelo verbo igualmente se configuram em Mergulho, da poetisa carioca Adriana Coelho, também conhecida na Blogosfera pelo codinome de Pavitra. Em Mergulho, a autora descreve as percepções apuradas e sentimentos experimentados pelo eu poético que guiam a captura dos versos, explicitando os processos de criação do poema:

na hora esquiva

das águas apurando

dias em ilhas alheias

ao sal me conservo

dentro dos ossos

experimentando

o nascimento de asas

translúcidas

e voo pássaro


o bico aponta

meu peito

e ronda meu corpo

mergulhado

em acasos

de sargaços e peixes

diáfanos


e eu

raramente em mim

concha adversa

me fecho

nessa mudez

que pesca o verso

(COELHO, A., 13 ago. 2008).

Também em Aquosa, Adriana Coelho exercita a função metalingüística na poesia, onde interroga as origens do verbo; expandindo, respectivamente, as impressões acerca daquilo que é material e imaterial nas palavras:

não sei de onde vêm as palavras

talvez do nada sob a pedra

em que brota a água


hoje uma palavra

inundou meus olhos

(COELHO, A., 09 dez. 2008).


A materialidade, imaterialidade e imortalidade do verbo também é tema da poetisa Mercedes Lorenzo, mais conhecida na Blogosfera pelo nome artístico Padmaya. Em Corpo diem, a poetisa realiza, em versos subjetivos e filosóficos, um fazer metalingüístico ao refletir as origens e materialidade do verbo que perdura no corredor do tempo e se transforma no universo, recompondo-se ao nascer de cada dia:

eu sou amálgama

instrumento

do sopro da vida

corda tangida

do que foi

e vem sendo

células-melodias

mitose vital

perdendo a memória

e forma original

dos primeiros dias

in pulsos latentes

que variam o tema

re compondo

o corpoema.

(LORENZO, 23 mar. 2008).


De modo distinto, porém com inquietação semelhante, a poetisa nordestina Lou Vilela, no texto Imortal, divaga o “espetáculo” da criação poética; refletindo a imortalidade do poema que, no dizer da poetisa, consiste a própria alma do poeta. Em três atos, a autora explicita quando e onde surge o poema, falece e renasce o poeta:

Corta, perfura, remenda...

Da emoção, nasce o poema

No caos, morre o poeta.

Fim do primeiro ato!


Corta, perfura, remenda...

A cada poema,

Renasce do caos, o poeta.

Fim do segundo ato!


Corta, perfura, remenda...

Imortal é o poema,

A alma do poeta

Fim do espetáculo!

(VILELA, 19 dez. 2008).


Experimentando a função metalingüística em seu poema Uno, a poetisa paulistana Mônica Amorim igualmente disserta sobre o ofício do poeta, descrevendo os procedimentos intrínsecos e extrínsecos à criação; onde conclui que, em matéria de poesia, palavra e poeta formam um só corpo:

O poeta escreve por preocupação vital

Por almejar a coragem dos que posicionam as palavras sobre o tabuleiro

No entanto, seria embaraçoso desconsiderar a estética

E ser puramente artesanal

Ou ainda, puramente bélico

Talvez seu ofício não mereça o centavo de sal

Porque o exército de palavras se forma

Em céu claro ou escuro


Brinquei com algumas palavras por el camino

Misturei as fábulas e não senti culpa

Porém, só duas coisas podem amaldiçoar o poeta:

Tirar a coragem do jovem

E iludir a mulher novata


Quanto aos abismos que cercam a palavra,

Tudo é revelação

Precipício

Queda

Entrega

Som


Mas na poesia, palavra e poeta são um.

(AMORIM, 31 out. 2008).


E o momento da fusão acontece em um “longo beijo morno”. Esse é o recorte metalingüístico traçado pela poetisa mineira Mariana Botelho que revela, no texto Ato, as impressões sinestésicas experimentadas pelo eu-lírico durante o deslumbramento poético:

um poema me deixou um sismo na carne
me arqueou o corpo
e traçou em minhas costas itinerários de espuma.

com um gosto de cor
na boca
deixei cair pulsante
um
longo beijo
morno

(BOTELHO, 23 set. 2008).


E, na efemeridade do instante e êxtase poéticos, o ser e o tempo na poesia parecem alcançar a eternidade, considerando que:

Eu não sei medir o tempo[2].
O tempo do eu-lírico é diferente do tempo
[3]
[que] se acomoda sobre a pele
[4]
[onde] as letras enrolam-se-me na saliva
[5]
[porque]
tenho a urgência dos incêndios[6]
[e a mente] insubordinada dissipa-se da razão[7].



3 Conclusões, ou... “O que quer / o que pode esta língua?”


Historicamente, a poesia contemporânea vem se multiplicando em infinitas possibilidades signas para oferecer abertura à linguagem. A metalinguagem, conforme se pôde refletir através de alguns dizeres femininos na Blogosfera, tem se tornado um precioso exercício lingüístico que, de outro lado, desperta opiniões divergentes.

Entretanto, é importante ponderar que em um texto considerado metalingüístico coexistem outras atmosferas além da explicação e/ou reflexão da língua e dos processos de criação, já que em uma mesma escrita podem se apresentar diferentes funções da linguagem[8], conforme categorização de Jakobson (1974).

Dessa maneira, além da função metalingüística, os poemas aqui destacados apresentam estados emotivos, paisagens oníricas, valores e conteúdos que favorecem o desenvolvimento da faculdade imaginativa do leitor, o entendimento da língua e os horizontes conceituais e estilísticos das poetisas; que, por sua vez, colaboram para introduzir os leitores nos mistérios da criação e linguagem poética.

Assim, o exercício metalingüístico, mesmo que centrado no fazer-em-si e/ou na palavra-em-si, beneficia a especulação, o descobrimento da poesia e o amadurecimento da experiência estética, visto remeter os locutores e interlocutores a relevantes questionamentos, dentre eles: “O que quer / o que pode esta língua?” (VELOSO, In: Velô, 1984).


Breve Biografia das Autoras:

Adriana Coelho (Pavitra), natural da cidade do Rio de Janeiro, possui formação acadêmica em Matemática e Ciências Contábeis. Estuda piano desde os oito anos, e publica poemas e pequenas narrativas em seu blog Metamorfraseando.

Graça Pires, natural de Figueira da Foz-Portugal, é licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Sua trajetória poética comporta premiações em concursos literários e uma vasta publicação em livro, onde se destacam as obras: Poemas (Lisboa: Vega, 1990); Ortografia do Olhar (Lisboa: Éter, 1996); Conjugar afectos (Lisboa: Sindicato dos Bancários, 1997), dentre outras. Expande suas linhas poéticas em seu blog intitulado Ortografia do olhar.

Lou Vilela, natural de Natal-RN e residindo no Recife-PE, possui formação acadêmica em Administração e Pós-Graduação em Logística Estratégica. Difunde a sua arte literária, em verso e prosa, em seu blog Nudez Poética. No espaço, a autora diz que: “Escrever é como uma conversa íntima em momentos cuja alternativa não me atrai. O resto é conseqüência”.

Mariana Botelho, natural do Vale do Jequi-MG, desenha versos e imagens em seu blog autoral Suave Coisa. Em seu espaço poético, a jovem poetisa afirma que “sempre quis uma parede onde [...] pudesse riscar. Sem culpa. E em silêncio”.

Mercedes Lorenzo (Padmaya), nascida em São Paulo-SP, reside atualmente no estado de Santa Catarina. Possui formação em Desenho Publicitário pela Escola Panamericana de Artes (São Paulo) e Programação Neurolinguística (Florianópolis). Publica poemas e pequenas narrativas poéticas no blog Cosmunicando.

Mônica Amorim, natural de Santos-SP, difunde a sua lírica sentimental, subjetiva e filosófica no blog intitulado Estripitize-se. Em seu espaço, a autora se autodefine: “Uma moça pura de família quase boa. Uma boneca de papel. Que saiu de algum livro e agora escreve com saudades de casa”...


Notas:


[1] Agradeço à professora, poetisa e amiga Taninha Nascimento por ter me apresentado a entrevista de Antonio Carlos Secchin, ao Jornal Estado de São Paulo, durante o período de elaboração deste artigo.

[2] BOTELHO, 24 jan. 2009.

[3] AMORIM, 22 nov. 2008.

[4] LORENZO, 30 nov. 2008.

[5] PIRES, 26 nov. 2008.

[6] COELHO, A., 30 out. 2008.

[7] VILELA, 22 dez. 2008.

[8] Para o lingüista russo Roman Jakobson (1974), a linguagem envolve seis funções que perpassam a comunicação e estabelecem relações entre o pensamento humano e o conteúdo de mensagem, quais sejam: função referencial ou denotativa: centrada no referente (contexto), no sentido usual; função emotiva ou expressiva: refere-se ao emissor (locutor), ao que lhe é específico; função fática: concernente ao canal, ao contato e material que servem para estabelecer e manter a comunicação; função conotativa ou apelativa: centrada no receptor da mensagem (interlocutor); função poética: centrada na própria mensagem, naquilo que é palpável e, também, impalpável nos signos; e, por fim, a função metalingüística: concernente ao código, a tudo aquilo que serve para explicar/refletir a própria linguagem (SARMENTO, 2005).


Referências bibliográficas:


COELHO, Nelly Novaes. (Org.). Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras. São Paulo-SP: Escrituras, 2002.

______. Literatura e linguagem. 3. ed. São Paulo: Quíron, 1980.

IANELLI, Mariana. SOLIDÃO E FÉ. Entrevista com Maria José Giglio e Mariana Ianelli. In: FARIA, Álvaro Alves de. RASCUNHOS. Jornal de literatura. Disponível em: <http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=5&lista=0&subsecao=0&ordem=2349&semlimite=todos>. Acesso em: 10 jan. 2009.

JAKOBSON, Roman. Lingüística e Comunicação. Trad. Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1974.

MEIRELES, Cecília. Antologia Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

SARMENTO, Leila Lauar. Gramática em textos. 2. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005.

SECCHIN, Antonio Carlos. Antologia Pessoal. Jornal Estado de São Paulo, 04 jan. 2009. In: ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 2009. Disponível em: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=8585&sid=624&tpl=printerview>. Acesso em: 15 jan. 2009.

PELLEGRINI, Tânia. Palavra e arte. São Paulo: Atual, 1996.

WALTI, Ivete Laura Camargo; CURY, Maria Zilda Ferreira. “Verbete” Metalinguagem. In: E-DICIONÁRIO DE TERMOS LITERÁRIOS. Coord. Carlos Ceia. Disponível em: <http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/metalinguagem.htm>. Acesso em 09 jan. 2009.