A alma é música que às vezes entorta e deixa cair o ritmo
janela abaixo
é lago no escuro trêmulo do quarto à procura de luzes e luz sempre em busca.
Alma é deserto pleno e fala dos oásis que não viu
alma é brinquedo quebrado e ainda assim
amado pela criança que imagina seu brinquedo todo inteiro
por um milagre que só mesmo as crianças acreditam.
Milagre é brincar de ser grande
e misturar a alma na longa espera
das pessoas grandes.
Dade Amorim, inspirada e
habilidosa poetisa, já não se encontra entre nós. Fomos pegos de surpresa com a
notícia de sua partida. Um sentimento de perda preenche, neste momento, a alma
de poetas e escritores que interagiram com a sua poesia e gozaram de sua
companhia em blogs e redes sociais.
Assim como muitos amigos, tive a
honra de apreciar a sua poética e dispor de sua companhia, esta última
sempre leve e cativante. Certamente, cada um de nós tem uma história relacionada à poesia ou à presença de Dade.
Lembro bem de suas visitas ao blog "Maria Clara",
projeto de vozes femininas que possibilitou a publicação do livro "Maria
Clara: uniVersos femininos" (2010), assim como ao blog "HF Diante do
Espelho". Lembro da grandeza de sua alma, de sua humildade que
ultrapassava qualquer manifestação de ego ou interesse imediato. Lembro das
trocas e incentivos literários que se traduziam em palavras, mas
também em atos.
Dade foi uma das primeiras autoras a expressar interesse de
leitura do livro "Nós em miúdos" (2013). Bastava-nos, no entanto, a
leitura de sua poesia para elevarmo-nos a alma, tornamo-nos literária e
humanamente melhores, mas a poetisa sempre foi além: "brincava de ser
grande" enquanto, poética e materialmente, percorria "a longa espera".
Assim foi, assim viveu.
Por essas e outras coisas, sou-lhe grata e guardarei os
passos de nossas interações em minhas melhores recordações. Sentiremos a imensidão de sua ausência, prezada poetamiga. Consola-nos, porém, a eternidade de sua poesia e as lembranças dos momentos compartilhados.
...........O Músico e compositor algoano Marcus Vinícius, autor das canções Apenas a fumaça, Baile e Chamego - composições em parceria com Hercília Fernandes, editadas pela Sony Music e gravadas por vários artistas nordestinos -, realiza homenagem às mães com a canção intitulada Mãe. ..........Neste domingo (09/05/10), o artista interpretará a composição ao vivo em janela de abertura ao Show do cantor e compositor José Augusto, na cidade de Caicó-RN, promovido pelo SESC-Seridó.
...........Por meio de uma linha melódica envolvente, versos breves e simples, o artista expande sentimentos e representações às relações experienciadas com a sua mãe, Maria Shirley, em sua terra natal Arapiraca-AL.
...........Com a canção, o Novidades & Velharias homenageia todas as mulheres da Blogosfera, desejando-lhes um domingo abundantemente expressivo quanto é o "amor de mãe". ...........Passemos à apreciação da canção in vídeo:
Lou Vilela, natalense de origem e residente na cidade do Recife-PE, é uma poeta de grande sensibilidade imagística e habilidade semântica. Posta, regularmente, poemas e breves textos em prosa em seu espaço virtual Nudez poética,direcionado à acepção literária adulta. E desenvolve, na Blogosfera, um trabalho voltado ao leitor infanto-juvenil, especialmente às crianças, no blog Ritmos e rimas. Vejamos alguns traços de sua poesia.
Uma das qualidades da voz poética de Lou Vilela é a expansão - em versos oníricos, breves e musicais -, de temáticas profundas e ambíguas. A poeta, fazendo da “pena moinho”, anuncia/denuncia a vida das “gentes esquecidas” espalhadas à margem do tecido social. Nordestinos, mulheres, crianças são protagonistas em seus versos, oferece voz a grupos considerados “minorias”; muitas vezes expostos a múltiplas violências nas práticas sociais cotidianas.
Algumas dessas qualidades podem ser apreciadas nos versos de Simbiose e Um conto sem réis. Leiamos os poemas:
em terra seca
de ninguém
sou nada
imprescindo d’água
e na face inundada
provo das gentes
meu sertão..., mal cabe na garganta:
as gentes, escorrem-me pelos dedos
***
Naquele pardieiro
ecos paredes rachadas
de risos de bocas
esfomeadas
vazamentos incontidos
profundo (a)mar
Os poemas de Lou Vilela, além de profundidade temática, contêm intensidade lírica e apresentam belas imagens femininas associadas a contextualizações, metalinguagens, ambiguidades e sinestesias várias. Onde transbordam, em versos sugestivos e sensuais, frescores que alagam/alargam sentidos. Sensações que se podem experimentar a partir de os versos de Reflexos:
é esse teu olhar invasivo
que atordoa...
essa tua tatuagem olfativa
que embriaga...
tuas unhas que marcam,
tua saliva que cura.
são os teus trejeitos que ins.piro,
os teus trajetos que invado
entre mentes dentes dedos e falo.
enquanto transbordas
me alago.
No tocante à poesia infantil, a voz de Lou Vilela desenvolve temas como a dor, a perda e a morte; o cotidiano das crianças com suas brincadeiras, jogos e linguagens; a natureza e a temática animal; além de assuntos pertinentes à vida de um ser em desenvolvimento, como a alimentação.
Por meio do jogo e do ludismo, da imagística, da simplicidade na linguagem, da rima e figuras sonoras, a poetisa expande valores que se apresentam coerentes a um leitor em formação; e convida a criança a adentrar no mundo das letras, da imaginação e a construir conceitos.
Através do sentir/fazer poético, Lou Vilela propõe jogos de linguagem e desafios semânticos que contribuem para inquietar e remeter os leitores à plurissignificação textual; promovendo a construção de sentidos através do desvendar de pistas, combinações, sugestões de signos e imagens.
A sua poesia infantil oferece espaço para a livre significação, o que demonstra o respeito da autora às especificidades e à imaginação da criança; apresentando-lhes temas que, sem imposições moralísticas, portam consistência nos conteúdos de mensagem que, poeticamente, levam à reflexão das coisas existentes na natureza física e social-humana.
Leiamos mais dois poemas de Lou Vilela. Neles, a poetisa sopra belas imagens ligadas à natureza e se apresenta à criança - também ao leitor adulto - como "mensageira do vento"; anunciando a função da poesia e do poeta. E, posteriormente, convida o leitor a pensar a morte e a perda, valores que perpassam a vida humana:
*Texto postado em 14 de março de 2010, no blog Maria Clara: simples mente poesia, em homenagem a “data natalícia da autora” que coincide com o “dia nacional da Poesia”.
**Imagens: Catavento, de Luciana Teruz (Brasil, 1961); Céu estrelado, de Douglas Soares, 2007.