Mostrando postagens com marcador GÊNERO E POESIA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador GÊNERO E POESIA. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de agosto de 2012

Mulher e Poesia na Era Blog: “Os Casos da Maria Clara”


   Hercília Maria Fernandes
Professora Doutoranda CFP-UFCG / UFRN


RESUMO: O texto constitui parte analítica do artigo: Voz Poética Feminina na Era Blog: "Os Casos da Maria Clara", publicado na Revista Línguas e Letras, Unioeste, Vol. 12, n. 23, 2011. O artigo expande a ideia de que a poesia feminina, na produção contemporânea, transcende aos valores da tradição falocêntrica e do misticismo religioso que, em períodos anteriores, contribuíram para sufocar vozes; remetendo as mulheres, em suas práticas de leitura e escrita, à expansão de uma “poética do silêncio”. O texto desenvolve alguns elementos imbricados na criação feminina atual, situando a poesia elaborada por mulheres, na virtualidade, como uma escrita que se define pela diversidade de atmosferas, temas e linguagens. Para tal feito, o artigo apresenta os dados de uma vivência literária desenvolvida na Internet por doze autoras que se encontram em diversas localidades do Brasil e apresentam formações e atuações profissionais várias em suas práticas cotidianas. Com essas atitudes, o estudo, ao debater a multiplicidade que perpassa a produção poética de mulheres na contemporaneidade, situa “os casos” da obra “Maria Clara: uniVersos femininos” - coletânea nascida em um novo espaço de escrita e textualização -, no cerne das discussões sobre gênero e poesia.
PALAVRAS-CHAVE: Gênero e poesia. Era blog. Maria Clara: uniVersos femininos.


Introdução


A Internet, com seus múltiplos espaços de comunicação e informação, tem contribuído para formar uma nova racionalidade pautada na “subjetividade opinativa” (RODRIGUES, apud CERQUEIRA; RIBEIRO; CABECINHAS, 2009, p. 117). Diversos sujeitos sociais, então excluídos dos meios tecnológicos convencionais, têm experimentado, através dos espaços virtuais, dentre eles os blogs, o prazer de difundir as suas ideias e sentimentos; participando mais ativamente da produção de linguagens e saberes.
No tocante à participação das mulheres, verifica-se um grande número de escritoras e poetisas na virtualidade. Na Blogosfera, cenário virtual que aglomera inúmeras propostas de escrita e leitura literárias, dentre elas a poesia, as mulheres têm vivenciado uma oportunidade ímpar de construção de “um teto todo seu”. Buscam instaurar a identidade de suas vozes que, na contemporaneidade, se concebe heterogênea e, simultaneamente, portadora de singularidades. Entretanto, a busca pela identidade das vozes femininas não condiz, exclusivamente, ao direito à expressão. Mas, simultaneamente, à afirmação das singularidades que permeiam as vidas das mulheres. Tendo em vista que os gêneros são construções históricas, aos quais foram atribuídos diferentes papeis nas práticas sociais, cujas ressonâncias delimitaram subjetividades e relações de poder entre homens e mulheres (BOURDIEU, 1999; SCOTT, 1990).
Dessa maneira, contrariamente aos cânones literários que desprestigiam a criação poética feminina, compreende-se que as mulheres contemporâneas – detentoras de formações, leituras e inúmeras experiências de mundo -, buscam expandir um discurso em que o “eu” das mulheres se apresenta, de fato, “feminino”. Tal realidade implica em uma percepção pautada nas distintividades de seus próprios universos, nas suas diversas maneiras de sentir, refletir e, consequentemente, externalizar o mundo.
É dentro desta perspectiva de análise que se concebe a composição poética de 12 autoras que integram o blog voltado à apreciação de poesia feminina Maria Clara: simplesmente poesia[1]; cuja proposta online resultou na publicação do livro Maria Clara: uniVersos femininos. Obra estruturada em 256 páginas distribuídas em “apresentação”, “prefácio”, “12 capítulos” e “posfácio”. Tendo sido publicada pela LivroPronto Editora, de São Paulo-SP, e lançada durante a 21ª. Bienal Internacional de Livros de São Paulo, em agosto de 2010.

Os casos da Maria Clara

A ideia de reunir, em único espaço virtual, as 12 poetisas que compõem a coletânea Maria Clara: uniVersos femininos - cujas vozes expandem-se, na obra, em capítulos individuais intitulados com os próprios nomes e/ou representações imagéticas pertinentes às autoras -, surgiu nas próprias situações de interação entre as poetisas que participam, entre si, do processo de criação e fruição literárias, na Internet, por intermédio de blogs pessoais. Assim, o blog Maria Clara: simplesmente poesia, como espaço destinado à produção literária elaborada por mulheres, foi criado nos fins de 2008 e início de 2009 com o objetivo de, a priori, favorecer a leitura e a produção de saberes. Sendo composto por colaboradoras, cujas publicações realizam-se, mensalmente, por ciclos de postagens.
Os blogs, segundo Blood (apud CERQUEIRA; RIBEIRO; CABECINHAS, 2009), consistem páginas na Internet atualizadas com certa regularidade. As páginas se apresentam dispostas em forma de posts e permitem combinar texto, imagem e som. Os blogs, além dos links nas escritas dos posts, que encaminham os leitores para outros locais na rede, dispõem de blogroll, isto é, uma lista de blogs que o autor acompanha e que serve para identificação do grupo e/ou tribo a qual o autor blogueiro e/ou blogger pertence ou deseja pertencer.
A interação entre autores e leitores, na rede virtual, é assegurada por caixas de comentários, através das quais os internautas oferecem opiniões sobre as postagens, podendo esse contributo ser ou não moderado pelos bloggers. Para Robert Macdougall (apud CERQUEIRA; RIBEIRO; CABECINHAS, 2009, p. 116), as pessoas participam nos blogs de forma a interagir com um público invisível, porém os bloggers respondem aos comentários como se estivessem numa situação de interação social real.
Essas últimas enunciações podem ser consideradas a partir das interações entre as autoras que compõem o blog Maria Clara: simplesmente poesia que, além de reunirem as suas vozes para construção de um ambiente virtual próprio, materializaram as suas ideias, sonhos e sentimentos em suporte material impresso; ampliando, assim, as expectativas e experiências de leitura e escrita vivenciadas no âmbito da virtualidade.
São elas, segundo a ordem alfabética dos nomes: Adriana Godoy (Belo Horizonte–MG); Adriana Riess Karnal (São Leopoldo–RS); Hercília Fernandes (Caicó–RN); Lara Amaral (Brasília–DF); Lou Vilela (Recife–PE); Maria Paula Alvim (Belo Horizonte–MG); Mirze Souza (Rio de Janeiro–RJ); Nina Rizzi (Fortaleza–CE); Renata Aragão (Juiz de Fora–MG); Talita Prates (Cajuru–SP); Úrsula Avner (Belo Horizonte–MG); e, Wania Victoria (Porto Alegre–RS).
As autoras apresentadas são possuidoras de origens, formações e contextos múltiplos. Não havendo, portanto, um ideal único ou padrão estabelecido de linguagem literária e orientação referencial. Poder-se-ia destacar, como homogêneo no grupo, o amor à poesia, o zelo à palavra e o profundo respeito à expansão de suas vozes. Apesar de integrarem um mesmo ciclo de relacionamentos na Blogosfera que, por sua vez, apresenta certa afinidade de grupo social. Nesse sentido, as vozes das marias claras[2] podem ser definidas pela pluralidade, considerando que são pertinentes a mulheres com formações e atuações na educação, na medicina, na história, no direito, no jornalismo, na administração... Mas, que se dedicam, também, às relações afetivas, aos cuidados com a família e a casa, e, simultaneamente, à arte de criar e apreciar poesia.
Além das singularidades expressas, as marias localizam-se em diferentes lugares do Brasil, do Norte ao Sul, o que permite uma miscigenação cultural patrocinada pela multiplicidade de contextualizações e linguagens. Essas anunciações apresentam-se sintetizadas na voz da poetisa Lou Vilela, que apresenta, no poema Às Marias (VILELA, 2010, p. 99-100), a diversidade dos uniVersos femininos das marias claras:


Hoje é dia de Maria...

Maria dos morros dos velórios
das sacadas das calçadas [...]

Maria da fome, dos talheres de prata
erudita popular
(“ir-me-ei...; toma lá da cá!”)

Bruta lapidada
peçonhenta panaceica
(dese)equilibrada
puta indissoluta
(r)evolução estelar

Todas belas, todas manias
com ou sem cria
Marias emoção!

Sim, todo dia é dia de Maria!
que tomba levanta que sonha
que cala, das vozes-maria

Maria (im)perfeição
Maria poesia

- Ave, Maria!


Segundo Coelho (1999), a consciência histórica das situações de opressão e violências simbólicas que permeavam o cotidiano das mulheres levou à crise do discurso masculino hegemônico. Assim, poder-se-ia elucidar que a expansão da crítica feminista favoreceu a ruptura dos valores da tradição falocêntrica e do misticismo religioso que, em períodos anteriores, submeteram a escrita feminina a uma poética do silêncio.
No tocante à criação das marias claras, verifica-se que as autoras buscam estabelecer as suas identidades como sujeitos históricos ao imprimir, no mundo, uma consciência crítica de seus universos. Por isso convocam os leitores, no dizer da prefaciadora, profª. Drª. Ana Santana Souza, “a pensar, principalmente, sobre a condição de mulher, essa espécie ainda envergonhada, na definição de Adélia Prado” (SOUZA, A. S., 2010, p. 15).
Não se esquivam, portanto, em pronunciar opiniões em torno das relações humanas, das ideologias e convenções que perpassam as práticas sociais. Essas elucidações podem ser apreciadas no poema Filosofia barata (GODOY, 2010, p. 30), da autora Adriana Godoy, de Belo Horizonte-MG. No texto, a poetisa questiona as desigualdades e exclusões disseminadas no organismo social, chamando atenção para as inversões históricas convencionadas por ideias que atribuem, às problemáticas sociais, explicações sobrenaturais:


reverencio os mistérios
mas não os creio divinos

a dor e o sofrimento não são divinos
a humanidade feder e exalar horrores [...]

há mistérios multitudinários
mas ninguém escolheu
comer o pão que o diabo amassou
ser miserável ter fome e desprezo
lutar em uma guerra inaceitável e desigual
morrer aos milhões por bala perdida ou por pão
à míngua ou solidão?

não me fale em livre arbítrio
a escolha não é essa
quem escolheu sofrer até a exaustão?

reverencio os mistérios
mas não me fale em deus[3]


Além de inquietações sociais, há na criação poética das marias a externalização dos desejos sensuais das mulheres em que o discurso feminino transgride as normas da convenção e os interditos sexuais, apresentando consciência espiritual e corpórea em versos ardentes e sensuais. Conforme se observa no poema A um poeta (RIZZI, 2010, p. 161), da historiadora e poetisa Nina Rizzi, residente na cidade de Fortaleza-CE:


eu vou te lendo e pouco a pouco
meus olhos verdes, beijo lento, alcançam
o azul das melancolias de picasso;

meu corpo renascentista, fremente, vai
braillando, incendiando como um poema


A clareza das mudanças de valores que permeiam as vozes femininas na contemporaneidade, seja no plano das ideias, da linguagem ou dos comportamentos femininos, aparece externalizada, com notória elegância semântica, em o texto Poeta (KARNAL, 2010, p. 53), da professora Adriana Riess Karnal[4], de São Leopoldo-RS:


Quisera eu ser poeta
indecente
Pura pretensão.
Poeta é Adélia, Hilda e Clarice.
Poucas verdadeiras o são.

Poeta tem língua incandescente
dente amarelado do palavreado
do palavrão [...]

Escrita com tinteira
Elegante
Quisera eu ser poeta
e ter meu livro na estante.


Nesse sentido, uma das qualidades das vozes que compõem a obra Maria Clara: uniVersos femininos diz respeito à abertura da linguagem à metalinguagem, à intertextualidade e às diversas referências de leitura. As marias revelam que, para além das faculdades imaginativas, refletem paradigmas e dominam técnicas de composição. Essas elucidações se apresentam em Elementar (ARAGÃO, 2010, p. 181), da poetisa Renata Aragão, de Juiz de Fora-MG, em que a autora expande por meio de um sentir/pensar/fazer metalinguísticos uma soma de elementos que povoa o ser e/ou a condição do poeta:


De que é feito o poeta?

De matéria
etérea
ou concreta?

Do fato
que vivencia
ou da utopia
que projeta?

Ele é feito
de sopro
ou de barro?

Ele habita
o corpo
ou a alma?

O poeta levita
ou mergulha?

A escrita
lhe é fagulha
ou despiste?

O poeta acredita
que existe?


Em relação aos elementos rítmicos e sonoros, destaca-se a criação da médica Maria Paula Alvim, de Belo Horizonte-MG. Em o poema Mulheres tônicas (ALVIM, 2010, p. 119), texto que se expande em 6 (seis) atos, a poetisa esbanja humor, ludicidade e movimento rítmico ao fazer uso de proparoxítonas e aliterações com a consoante “r”. Segundo se pode ler em o primeiro ato do texto intitulado Cândida, a médica:


Era a tímida típica, estrábica, pálida e asmática. Espírito ético, pródigo.
Engolia críticas e sapos pétricos. Máscara pacífica.
Apesar da sólida clínica, lágrimas a faziam líquida. Náufraga sem fôlego.
Morreu de cálculo nefrético crônico. Trágica estatística, a propósito.


Para Souza A. S. (2010, p. 16), a criação poética das marias realiza “iluminuras poéticas várias, surpreendendo, não raro, as expectativas do leitor”. Assim, outra nuance de suas vozes refere-se às figuras de linguagem. Segundo declara a crítica no prefácio intitulado Noivas na estante: “Não é possível citar todas as vezes que fui freada por figuras como cachorros, carro quebrado e ursos brancos ou um realista mea culpa. O riso de um ataque de nervos também me surpreendeu, assim como uma rua suja de despeitos” (SOUZA, A. S., 2010, p. 16-17).
Dessa maneira, destacam-se, nos poemas, metáforas associadas às imagéticas de borboletas, corujas, vaga-lumes, cachorros, ursos, pássaros, etc. Assim como aos quatros elementos alquímicos: a terra, o fogo, a água e o ar. Igualmente, o sol, a lua, as estrelas, as nuvens, a luz e a escuridão povoam o imaginário poético das autoras. Essas qualidades expandem-se em os versos de Vozes da escuridão (AVNER, 2010, p. 229), da psicóloga Úrsula Avner, poetisa de Belo Horizonte-MG:


quando a noite repousa
estrela despenca do céu
borboleta corre ébria e nua
absoluta
coruja pia
lamento de quem vigia
o sono da noite


Imagens ligadas às memórias, às gostosuras, às meiguices e às desilusões dos sonhos de menina igualmente reverberam em suas vozes. Essas entonações fluem em versos imagéticos e autobiográficos[5] nos poemas Doce de batata (VICTORIA, 2010, p. 237), da poetisa Wania Victoria, médica em Porto Alegre-RS. E, em Duas vidas (AMARAL, 2010, p. 83), da poetisa brasiliense, formada em jornalismo, Lara Amaral. Leiam-se os fragmentos textuais:


Minha avó e eu sentávamos no chão
Passávamos horas recortando receitas de doces
E colando em um grosso caderno de capa dura
Lambuzávamo-nos nas palavras [...]
Entre risadas e garfadas
Fartávamo-nos de vida
Ela já se foi, faz tempo
Mas naqueles dias que a saudade em mim transborda
Feito leite quente derramado depois que ferve
Me pego folheando meu caderno de receitas
Meu doce álbum de fotografias.

____________

A criança dentro de mim
Vez ou outra aparece
Me prega peças [...]

Me pergunta onde estão os sonhos
As paixões, todos aqueles planos
Por que estou na contramão?

Só sei dizer que o carro quebrou
Antes de eu conseguir
Tentar outra direção.


As dores e os sofrimentos femininos também ressoam nos poemas e repercutem sobre os sentidos e sentimentos dos leitores, como em os versos de Autorretrato (SOUZA, M., 210, p. 139), da poetisa Mirze Souza, do Rio de Janeiro-RJ. Na escrita, por meio de afirmações e negativas, a autora revitaliza as cores, as formas e as sombras do passado herdado. Porém, ao estabelecer analogia com a obra inacabada de Mondrian, aponta a uma perspectiva futura:


Sou a lágrima furtiva
O engano em forma de vida
Da fotografia, sou o negativo.
Na natureza, sou o desvio.
Não sou a sombra, sequer o abrigo.
Do destro, sou a mão esquerda
Na companhia, sou a ausência
Das palavras, sou o silêncio,
Sou o ápice da dor.
Sou o espinho que feriu
Em forma de coroa, o Criador.
Sou a mãe que não vingou
Borboleta sem cor
Perdida num mundo
Imundo de amor?
Sou a obra inacabada
de Mondrian,
Sou o que ele não acabou.


A consciência histórica de eu feminino, bem como a transgressão aos valores da tradição, trafega toda a criação poética das marias. No texto Da justificativa (PRATES, 2010, p. 200), a psicóloga e musicista Talita Prates, de Cajuru-SP, atenta às deformações que, simbolicamente, constituíram as representações femininas. Em versos livres e criativos, a poetisa acena aos desperdícios de vida então configurados pelas promessas dos ideais românticos:


: que ela espera
o dia
- grande dia!
em que o fato
notável (quase mágico)
justificará sua vida.
(aprenderá - em tempo
que o Sentido
- maior
não vem de fora?
, nem veste trajes de pompa?)

[
intriga-me
o quanto de vida
se perde na espera de:
]


Esperar, historicamente, segundo elucida Souza A. S. (2010), tem sido uma das atividades das mulheres: “Esperar a chegada do amado, a hora do parto, o príncipe encantado, o reconhecimento de seu trabalho e de sua arte”. Todavia, as vozes das poetisas contemporâneas, ao transformar “as esperas em matéria de poesia” (SOUZA, A. S., 2010, p. 17), expandem a convicção de que pode “haver felicidade sem que se precise morrer” (FERNANDES, 2010, p. 66). Essas elucidações fazem sentido se se considerar, conforme poetiza Fernandes (2010, p. 64), que:


Meu eu feminino é concha
entreaberta. Ninho de possibilidades
onde se interpõem lépidas
promessas.

Meu eu feminino transpõe animus
: tem pressa!


Considerações finais

Mediante as reflexões delineadas ao longo deste artigo, entende-se que a criação poética elaborada por mulheres na contemporaneidade, especificamente na “era blog”, busca instaurar uma identidade própria às mulheres pautada nas singularidades dos universos femininos.
Se até pouco tempo, a escrita feminina portava inexpressiva valorização, esse desmerecimento por parte dos cânones literários se configurou devido as privações e as exclusões a que foram submetidas as mulheres nas práticas sociais cotidianas. Não se trata, portanto, de as mulheres escreverem de forma “goiabada”, excessivamente sentimental, segundo elucida a poetisa Nina Rizzi em sua escrita de posfácio na obra Maria Clara (RIZZI, 2010, p. 255).
Se as mulheres, por longos anos, escreveram banalidades e trivialidades do cotidiano feminino, essa realidade se deve ao fato de terem sido anuladas, historicamente, como sujeitos por ideologias construídas através da categoria gênero (SCOTT, 1990), que, aos homens, favoreceu o empoderamento e, às mulheres, o claustro, o interdito, o silêncio.
Todavia, as mudanças em curso, especialmente as tecnológicas, contribuem para que se realize um movimento de resistência aos valores herdados. Colaboram para que as mulheres encontrem as singularidades de suas vozes por meio da consciência histórica das sombras do passado que, segundo elucida Coelho (1999, 2002), apontam caminhos à “clara” compreensão do presente.
Assim, a criação poética e a interação entre autoras e autores nos blogs podem oferecer abertura ao empoderamento das mulheres, considerando que os blogs têm se revelado instrumentos capazes de proporcionar mudanças na cultura, na comunicação, no jornalismo, nas relações sociais, já que abrem “caminhos à democratização ao acesso à palavra, ao espaço público, ao enriquecimento da conversação social” (PINTO, apud CERQUEIRA; RIBEIRO; CABECINHAS, 2009, p. 117).
Além de consistirem instrumentos de participação social, os blogs promovem experimentações artísticas. Dada a constituição do espaço, em que se podem combinar múltiplas linguagens, o blog amplia horizontes de escrita e ressignificações textuais. Através do uso de hipertextos, as escritoras e os escritores inauguram um novo espaço de escrita e textualização que apresenta vantagens ao processo de criação (MARCUSCHI, 2004. Levam os internautas a participar mais efetivamente da elaboração textual, tornando-se, simultaneamente, autores e interlocutores de obras literárias (MARCUSCHI, 2004, p. 83).
É nesse contexto de mudanças de mentalidades, de subjetividades opinativas e rebeldes, de novos espaços de produção de saberes e poéticas várias que se situam os “casos” da Maria Clara: uniVersos femininos. Criação poética de 12 vozes contemporâneas que, além de envolver ternura, sensualidade, subjetivismo e intensidade - qualidades do lirismo feminino -, expande uma multiplicidade de tons - por vezes graves e dissonantes -, e uma variedade de referências nos seus (en)cantos poéticos. Atributos literários que não passam despercebidos e, como tais, reverberam a historio(grafia) das mulheres, cujas escrituras mostram-se capazes de inaugurar, parafraseando Adélia Prado, “reinos e linguagens” (FERNANDES, 2010, p. 14).


Referências

ALVIM, Maria Paula. Mulheres tônicas. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 119.

AMARAL, Lara. Duas vidas. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 83.

ARAGÃO, Renata. Elementar. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 181.

ARCE, Alessandra. A pedagogia na “Era das Revoluções”: uma análise do pensamento de Pestalozzi e Fröebel. Campinas, SP: Autores Associados, 2002.

AVNER, Úrsula. Vozes da escuridão. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 229.

BARBOZA, Cátia A. V. A dessacralização do cânone: uma visão feminina. Revista Científica Semioses, v. único, página especial, 2009. Disponível em: <http://apl.unisuam.edu.br/semioses.old/artigo.php?ed=Especial&art=64>. Acesso: 5 out. 2010.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Trad. Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 1977.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Oeiras: Celta, 1999.

CERQUEIRA, Carla; RIBEIRO, Luísa Teresa; CABECINHAS, Rosa. Mulheres & Blogosfera: contributo para o estudo da presença feminina na "rede". Ex aequo, n. 19, p. 111-128, 2009.

COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de escritoras brasileiras (1711-2001). São Paulo: Escrituras Editora, 2002.

______. O desafio ao cânone: consciência história X discurso em crise (apresentação). In: CUNHA, Helena Parente (Org.). Desafiando o cânone: aspectos da literatura de autoria feminina na prosa e na poesia (anos 70/80). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999.

DUARTE, Constância Lima. Feminismo e literatura no Brasil. Revista de Estudos Avançados. São Paulo, v. 49, p. 81-90, 2003.

______. O cânone literário e a autoria feminina. In: AGUIAR, Neuma (Org.). Gênero e ciências humanas: desafio às ciências desde a perspectiva das mulheres. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, p. 85-94, 1997. (Coleção Gênero, v. 5).

GODOY, Adriana. Filosofia barata. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 30.

GOTLIB, Nádia Battella. A literatura feita por mulheres no Brasil. In: ANPOLL, 2002. Boletim do GT A Mulher na Literatura. Florianópolis: Editora da UFSC. v. 9. p. 102-139.Disponível em: <http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/artigo_Nadia_Gotlib.htm>. Acesso em: 7 out. 2010.

FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010.

______. Apresentação. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 11-14.

______. Arranjo. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 64.

______. As delícias. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 66.

FERNANDES, Hercília M.. Cecília Meireles e a Lírica Pedagógica em Criança meu amor (1924). Natal-RN: UFRN, 2008, 189 p. (Dissertação de Mestrado) – Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2008.

KARNAL, Adriana Riess. Poeta. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 53.

MARCUSCHI, L. A. O hipertexto como novo espaço de escrita em sala de aula. Linguagem e Ensino, v. 4, n. 1, p. 79-111, 2001.

PRATES, Talita. Da justificativa. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 200.

RIZZI, Nina. A um poeta. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 161.

______. Posfácio. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 253-255.

SOUZA, Ana Santana. Noivas na estante (prefácio). In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 15-17.

SOUZA, Mirze. Autorretrato. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 139.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 5-22, jul./dez. 1990.

SCHAFFRATH, Marlete dos Anjos Silva. Profissionalização do magistério feminino: uma história de emancipação e preconceitos. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 23, Caxambu, 2000. Anais..., 2000. Disponível em: <http://168.96.200.17/ar/libros/anped/0217T.PDF>. Acesso em: 16 fev. 2011.

VILELA, Lou. Às Marias. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 99-100.

VICTORIA, Wania. Doce de batata. In: FERNANDES, Hercília (Org.). Maria Clara: uniVersos femininos. São Paulo: LivroPronto Editora, 2010, p. 237.

VIEGAS, Ana Cláudia Coutinho. Escritas contemporâneas: literatura, internet e a ‘invenção de si’. Cadernos de Letras da UFF – Letras & Infovias, v. 32, p. 61-72, 2007.

WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


Notas:

[1] Para visitar o blog Maria Clara: simplesmente poesia, ver o endereço eletrônico: http://mariaclara-simplesmentepoesia.blogspot.com/
[2] Ao longo do texto destacam-se duas formas de grafar o nome “Maria Clara”. Em relação aos títulos do blog, bem como da obra em análise, utiliza-se iniciais “maiúsculas”. E, quando em referência às autoras, adota-se letras iniciais “minúsculas” como forma de posicionamento político perante as relações de dominação que, simbolicamente, compuseram a categoria gênero e a historiografia das mulheres (SCOTT, 1990).
[3] Em sua criação, Adriana Godoy, assim como várias autoras na obra, aboli o uso de letras iniciais maiúsculas, demonstrando uma consciência política da linguagem diferentemente dos cânones da gramática normativa.
[4] Adriana Riess Karnal é também tradutora, como costuma dizer em seu blog, “nas horas vagas”. Aproveita-se a ocasião para agradecer a sua contribuição no abstract deste artigo, disponível na publicação da Revista Línguas e Letras.
[5] Na obra Maria Clara: uniVersos femininos apresentam-se vários poemas com viéses memorialísticos, dentre os quais destacam-se: Queridas avós, de Lara Amaral (2010, p. 93) e Sell, de Renata Aragão (2010, p. 193).


ADVERTÊNCIA:

Esta é uma versão resumida das discussões propostas no artigo “Voz Poética Feminina na Era Blog: Os Casos da Maria Clara”. Assim, é no Trabalho Completo, especificamente na leitura do tópico Voz Poética Feminina: do Silêncio à Transgressão, que os leitores e as leitoras encontrarão o exame das categorias que constituem o desenvolvimento analítico do texto, dentre elas "poética do silêncio e transgressão". Disponível para download AQUI.


PARA REFERENCIAR:

FERNANDES, Hercília M.. Voz Poética Feminina na Era Blog: “Os Casos da Maria Clara”. Línguas e Letras, Vol. 12, n. 23, Unioeste - Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Campus de Cascavel, 2011. ISSN 1981-4755 (versão eletrônica).

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Ana de Santana debate os uniVersos femininos das “marias claras”



No final de 2010, após os eventos de lançamento da obra Maria Clara: uniVersos femininos, em alguns estados brasileiros, livro que tive o prazer de organizar, convidei a poetisa e professora Ana Santana Souza, doutora em Literatura Comparada (UFRN), a um debate sobre poesia elaborada por mulheres na contemporaneidade, situando o livro das “marias claras”, por ela prefaciado, no conjunto das discussões sobre gênero e poesia.

Entretanto, à época do convite, bem como envio e recebimento das questões, encontrava-me em um processo intenso de estudos e trabalhos acadêmicos que impossibilitaram a organização da matéria. Dentre essas atividades, a elaboração do artigo: “Voz Poética Feminina na Era Blog: Os Casos da Maria Clara”, estudo apresentado em Simpósio de Letras realizado, no segundo semestre de 2010, na UFCG (Campus de Cajazeiras), cuja escrita ampliada será, por estes dias de fevereiro, publicada integralmente no dossiê "Literatura Contemporânea: escritura e resistência", da Revista Línguas & Letras, do Programa de Pós-Graduação de Letras, da Unioste-Paraná (Ver Resumo já disponível no site).

A boa notícia da aceitação e publicação do artigo levou-me a rever a entrevista realizada com Ana Santana, já que, dentre os pontos de discussão, constavam problemáticas e categorias de análise que, no período, estava desenvolvendo em meu estudo sobre as vozes das “marias claras”. Dentre elas lirismo feminino, poética do silêncio e transgressão.

Dessa forma, pela riqueza de conteúdos expressos pela poetisa e professora Ana Santana em torno deste debate, venho compartilhar, no aqui e agora, os dados da entrevista anteriormente realizada que, conforme os leitores e as leitoras confirmarão, merece e deve ser apreciada por muitos. Passemos ao debate e, posteriormente, aos trabalhos acadêmicos e a uma pequena mostra da vasta produção poética da entrevistada.


DEBATE LITERÁRIO


1 - Você é doutora em Literatura Comparada (UFRN), professora de Teoria Literária (UNP) e, também, poetisa. Suas produções se fazem conhecer tanto na universidade como em publicações de artigos e livros. Fale-nos um pouco de sua trajetória como estudiosa e autora, especificando o seu relacionamento com a poesia:

Minha trajetória como estudiosa e autora começa na escola. Em casa não tinha um ambiente muito favorável à formação leitora, por isso compreendo que a escola exerce um papel fundamental na educação das pessoas, principalmente daquelas que não têm um acompanhamento familiar. Foi a escola que me levou a ler. Posteriormente, passei a ter acesso a livros de bolso, revistas de fotonovela e outros gêneros que me chegavam aleatoriamente. As leituras me levaram à escrita. As experiências mais significativas, aquelas que permaneceram na minha memória, foram as que apresentaram uma finalidade lúdica. Lembro de uma caderneta que eu possuía para escrever contos, lembro também de um diário em que eu registrava minhas tristezas e alegrias. Esta prática me familiarizou com a escrita, então o resto foi resultado dos estudos na graduação e, especialmente, na pós-graduação. Inclusive a produção poética. O que eu escrevia antes do mestrado com pretensão poética não tinha nenhum suporte teórico que me desse a consciência do que eu estava fazendo. A partir dos estudos sobre poesia é que passei a escrever com uma noção mais clara do que significava aquela atividade.


2 – Falando da produção poética atual, especialmente da poesia feminina. Muitos teóricos da literatura, ao discutir os cânones que distinguem a criação de homens e mulheres, dentre eles a crítica Nelly Novaes Coelho, afirmam que já não se pode vislumbrar, na contemporaneidade, um universo especificamente feminino na poesia elaborada por mulheres. Tendo em vista que a criação atual parece transcender a "poética do silêncio" ou a pura externalização das afeições, dores e impressões do cotidiano das mulheres. Como você reflete a posição do eu-lírico feminino na criação contemporânea? Pode-se dizer que existe eu-lírico feminino? Se existe, quais rupturas e/ou (des)continuidades se podem traçar diante os valores historicamente inscritos/expressos nas publicações femininas de períodos anteriores?

Houve um tempo em que a produção das mulheres era limitada “a pura externalização das afeições, dores e impressões do cotidiano das mulheres”. Evidentemente, não tinha como ser diferente. Elas não possuíam “um teto todo seu”, como bem explicitou Virgínia Woolf. Seu espaço era reduzido à alcova e a cozinha e mesmo assim ocupava-os sempre com a intenção de atender os desejos dos homens. Oprimida, com uma visão do mundo filtrada pelo universo doméstico, não tinha como falar de outra coisa que não fosse o cotidiano feminino e suas dores. Com as conquistas efetuadas pelas lutas das mulheres, houve uma considerável ampliação do seu universo, o que, certamente, alterou sua escrita. Contudo, a mudança não chegou ao ponto em que não se distingue de nenhum modo a produção das mulheres da produção dos homens. Evidentemente, são sujeitos diferentes, assim como entre as mulheres também há diferenças. Não se pode falar de mulher, mas de mulheres, como bem se vê no poema Mulheres tônicas, de Paula Alvim. Não é apenas a condição sexual que diferencia os discursos, mas também o lugar de enunciação que é historicamente determinado. Assim, a língua, a condição social, a cultura, enfim, constroem as diferenças entre os sujeitos. Desse modo, homens e mulheres escrevem diferente, como escrevem diferentes também os homens entre si, as mulheres entre si. Eu não acredito na pretensa universalidade que alguns, desde os clássicos, defendem. Obviamente, o autor espera atingir um amplo número de leitores, mas ele sempre escreverá para um certo público, não tem como despertar interesse em todos. Se alguns somam um número maior de leitores e se tornam canônicos, isso se deve a muitos fatores sobre os quais não cabe uma discussão aqui. Entretanto, não podemos deixar de sublinhar o fato do cânone ocidental excluir as mulheres. A exclusão de muitas escritoras se deu em nome de uma pretensa universalidade. Ora, os valores poéticos ditos universais são, historicamente, elencados por uma elite intelectual, branca, rica, heterossexual e, principalmente, masculina. Sendo assim, o mundo das mulheres, como de negros, pobres, homossexuais, nunca interessou a elite. Evidentemente, não basta pertencer a uma dessas categorias para se dizer que temos um bom poeta, um bom romancista. Contudo, temos que ter muito cuidado para não só julgar como boa produção aquela que reproduz os valores dos grupos sociais que sempre determinaram o que era literatura. Aliás, “o que é literatura?” é uma questão extremamente complicada, impossível de uma definição. Mas uma coisa é certa: não importa se existe um eu lírico feminino, ele pode até existir, mas ele não é uma exclusividade das mulheres. Um homem pode ter uma dicção poética feminina e vice-versa. Em todo caso, a dicção feminina se alterou muito ao longo do tempo. Creio que essa mudança se deve muito ao elemento erótico. Pelo caminho do erotismo, assumindo o desejo e o corpo, negando a interdição sexual, as mulheres surpreenderam a sociedade. Isso se deu de várias maneiras, até mesmo ressignificando a alcova e a cozinha. O doméstico, como em Adélia Prado, passou a ser lugar de criação poética. Impregnado de um erotismo em que a mulher é sujeito do seu desejo, o lar adquiriu novos contornos. Não acho que essas mudanças ocorreram como ruptura, se pensarmos em ruptura como inversão de valores. As mulheres não passaram de uma docilidade para uma agressividade. Não confundiram universalidade com masculinidade, adotando uma forma que as destituíssem de elementos femininos para, desse modo, ter uma escrita considerada universal. As mulheres simplesmente passaram a ter novas experiências e, evidentemente, sua escrita sofreu mudanças. Como essas experiências são, em sua maioria, muito distintas das experiências dos homens, é natural que haja muitas diferenças, o que não quer dizer que exista um modo de falar exclusivamente feminino e outro exclusivamente masculino. Creio que há experiências mais comuns às mulheres e outras mais comuns aos homens, mas nada que seja tão exclusivo de um que não possa ser imaginado pelo outro. Vai depender do quanto sensível é um ou outro na captação do mundo ao seu redor.


3 - Você prefaciou a obra Maria Clara: uniVersos femininos, coletânea que reúne, em capítulos individuais, "12 poetisas" de diversas localidades do Brasil, possuidoras de formações e atuações profissionais várias, cujos trabalhos se expandem na Internet. Conte-nos sobre a experiência de prefaciar este livro, situando, inclusive, o livro Maria Clara no conjunto das discussões teóricas e historio(gráficas) sobre gênero e poesia:

Prefaciar Maria Clara exigiu uma leitura cuidadosa da obra. Evidentemente alguns poemas me chamaram mais atenção do que outros. Aliás, na primeira leitura alguns me atingiram de imediato, outros só foram me prender numa segunda leitura e outros, numa terceira. Entre uma leitura e outra, alguns iam perdendo o posto de preferidos, para depois retomarem seu lugar. Quando li a obra, não procurei teorias que me fundamentassem num juízo crítico. Não sou a favor de classificar uma obra como literária ou não literária, ou de alta literatura ou baixa literatura. Não acredito nestes binarismos porque eles excluem muitas questões que perpassam os estudos sobre o discurso. O que procurei nos poemas foi sonoridade e imagem construindo uma forma que abrigasse um discurso amadurecido. Encontrei isso na maior parte da obra. Pareceu-me que alguns poemas precisariam de um maior tempo de maturação, mas isso é relativo porque, certamente, um outro leitor elegeria estes mesmos poemas como seus preferidos. Afinal, o leitor também é histórica e culturalmente situado. No geral, o que me ficou foi uma sensação de uma obra escrita por mulheres maduras, conscientes de sua condição de mulher e de seu fazer poético. Diante disso, Maria Clara situa-se no contexto atual da escrita das mulheres que discutem questões relacionadas ao corpo, ao desejo, ao amor, ao fazer poético, à condição feminina, à relação com a terra, etc. Nessa escrita, não se percebe o temor de que uma autoria feminina seja identificada. Ao contrário, as mulheres escrevem uma autoescritura, isto é, escrevem “uniVersos femininos”, são testemunhas, superstes, e ao mesmo tempo sobrevivente. Não a testemunha que presenciou, mas a testemunha que viveu os fatos.


4 – Acerca dos valores propriamente estéticos da coletânea, o que consiste Maria Clara: uniVersos femininos? Quais experiências de leitura os leitores poderão obter ao estabelecer contato com a criação das “marias”, considerando a diversidade de motivos e/ou conteúdos, dicções e atmosferas poéticas existentes no livro?

Como já falei, procurei na obra elementos como imagem e sonoridade e não raro os encontrei. O leitor poderá se deliciar com poemas atrevidos, como os "Nina Rizzi", uma das marias mais provocantes, como se pode conferir neste poema:


Invenção

no festival de cinema finalmente
encontrei o meu amor.
corria louco atrás da moça pelada
e gritava:
“vejam como é gostosa a minha mulher”,
“vejam como é linda a minha menina”.
e do outro lado alguém também me gritava:
“nina, nina, nina
tá passando carne em transe,
tá passando carne em transe!”
foi a minha vez de correr à cama de nos ver à tela.
era um filme aventuresco, poético, psicológico, mítico.
uma obra-prima que de ser feliz subiam os créditos:
“salvem os quartos de cinema!”


Em outros poemas, o sujeito lírico sai de si e observa o desmoronamento do mundo, como este de "Adriana Godoy", que se constrói na bela imagem do último urso branco:

Era primavera

o último urso branco saiu do estado hibernal
e caminhou lentamente na árida e fria paisagem
abriu seus braços enormes
resmungou sonetos ancestrais
abraçou-se à própria sorte
escancarou seus dentes afiados inúteis
abriu caminhos tortuosos insólitos
mergulhou no lago negro gelado
não viu rastros de homens
nem peixes nem focas nem canibais
viu algas mortas pardos areais
o último urso branco hibernou
e era primavera


5 – Cite-nos passagens do livro que tenham lhe surpreendido e/ou que revelem a que as “marias” se propuseram, poeticamente, realizar na publicação:

O livro surpreende logo pela qualidade da edição, que está muito bem cuidada. Surpreende também a diversidade das vozes femininas. A diferente formação das autoras compõe um mosaico rico em experiências de vida e, portanto, maneiras de escrever variadas que no conjunto apontam para um olhar maduro da poesia e da vida. Citar passagens me parece a coisa mais difícil de fazer. Até tentei, reli o livro inteiro, selecionei muitas, eram demais para incluir aqui. Depois tentei deixar um ou dois versos por autora, mas achei injusto porque tem autoras que tem muitos versos surpreendentes e escolher um é quase impossível, mesmo assim fiz uma seleta para atender a solicitação. Deixei de fora Adriana Godoy e Nina Rizzi porque já as apresentei na questão anterior. Em todo caso, as vozes poéticas reunidas em Maria Clara revelam uma consciência muito firme da condição feminina. E o bom é que isso se dá em versos repletos de poesia, isto é, o conteúdo se apresenta, repetidas vezes, numa forma cuidadosamente elaborada. Acho que é o que se pode conferir em versos como os exemplificados nos fragmentos abaixo:


Escreve poemas como quem
come as pernas.

(Adriana Riess karnal)


Isso tudo porque esse mar é vagabundo...

(Hercília Fernandes)


Pouco se viu dela
Pois esparramada
Tipo mole, argilosa
Ela se fundiu
À rocha.

(Lara Amaral)


em meu apogeu
sobriamente desfeita
quando a realidade bafeja.

(Lou Vilela)

Teresa não-me-toques
torce o terço:
tanto tato, tanto tino,
tanta trava...
ô tristeza!

(Maria Paula Alvim)


E segue em passos apressados
tentando antecipar a reta concisa
para decerto converter em óleo.

(Mirze Souza)


Entre o fogo e a água,
sempre fui a brisa.

(Renata Aragão)


que a conduta optasse
oposta - mente
entre
frio - quente
- só assim evitaria a náusea

(Talita Prates)


partiu com dores de parto
mas partiu
drapeja ébria
entre as flores

(Úrsula Avner)


Sou vidro
Sou cristal
Sou copo
Sou taça
Sou de todas as cores
Quando tua luz me trespassa

(Wania Victoria)


6 – Para finalizar, como você concebe a criação poética veiculada na internet? Você lê poemas em blogs e sites de relacionamentos?

A internet é o melhor expositor que se pode ter. Não existe um modo mais eficaz de se fazer circular idéias, sentimentos, emoções entre um grande número de pessoas. Quando se trata de conhecimento científico é uma maravilha porque podemos ter acesso rapidamente às pesquisas mais recentes. Quando se trata de poesia, podemos conhecer uma variedade muito grande de estilos e ter a palavra enriquecida com tonalidades que intensificam a emoção poética. Eu confesso que leio pouco diante da imensidão que o mundo virtual me oferece, mas o suficiente para reconhecer que a internet é a democratização da leitura poética, podendo contribuir com a formação leitora de muitos jovens que não se sentem atraídos pelo livro, mas são familiarizados com a tela do computador.


PRODUÇÕES ACADÊMICAS DE ANA SANTANA


  • A nação guesa de Sousândrade: uma narrativa em viagem, livro publicado em 2008, pela Academia Maranhense de Letras, Fundação Sousândrade e Universidade Estadual do Maranhão. Resultado da tese de doutorado em Literatura Comparada, a obra consiste na leitura e análise, realizadas no deslocamento entre arquivo e repertório, do poema O Guesa, de Joaquim de Souza Andradre, poeta maranhense do século XIX. A tese caminha no sentido de demonstrar como Sousândrade, numa visão bem contemporânea às narrativas da nação moderna do século XX, elabora uma performance alegórica na forma de uma poética da serpente, animal totem e mitológico.

  • Adélia Prado e a poética do falanjo, livro publicado pela editora Ideia em 2009. O texto é resultado da dissertação de mestrado em Literatura Comparada pela UFRN e segue o conceito do falanjo para analisar a obra poética de Adélia Prado, tendo a poesia de Carlos Drummond de Andrade como paradigma de leitura. O falanjo é um conceito da psicanálise que remete a um terceiro gênero, nem masculino, nem feminino. É o gênero do poeta e do anjo, aquele que não aceita os lugares determinados, antes prefere o trânsito livre.

  • Cadernos de formação docente: organizado em parceria com Tereza Câmara e Neide Maciel. O livro reúne artigos das organizadoras e de outros professores abordando questões do ensino e da formação de professores.


SELETA DE POEMAS


  • Do livro Danaides (2005, p. 30):


Crisálida


Aprendi tarde
a dispensar conselhos de druidas
a velejar barcos sem vela
a substituir com signos
a incompletude da espera.
Metano, sou chama pálida.
Maturação de fósseis ilhados.
Buril lavrando em pedra o devenir...
Recolho as bainhas das saias,
guardo nelas o tropel das madrugadas em claro
e as migalhas desprezadas pelas gralhas.
Enquanto macero rosas no álcool,
promessas navegam em folhas de Buriti.


  • Do livro Em nome da pele (2008, p. 66):


Estrambólico


Isso de misturar
azeite, mel e mostarda.
enfeite, pedra e palavra
Isso de escrever
Isso de fazer salada
Isso de banho e tosa
tudo invenção nossa
Um modo de fazer crível
a viagem no quarto
a bonança na tempestade
e a liberdade no vício.


  • Dos carnês do IPTU de Natal, ano 2009:


No canto do Mangue
uma rede alaranjada
pesca o coração dos homens
brando como o sol que se cala.


Ana de Santana



*Entrevista realizada por Hercília Fernandes, em outubro de 2010, a Ana Santana Souza (ou Ana de Santana), prefaciadora da obra Maria Clara: uniVersos femininos (LivroPronto Editora: 2010).