sábado, 23 de julho de 2011

Hercília Fernandes e As Iluminuras do Silêncio


 miúdas são as letras
que, em nós, se inscrevem
nos impele a ser.tão



Caríssimos(as) Amigos e Amigas,

brevemente estarei publicando o livro Nós Em Miúdos, obra que reúne três anos de atividades poéticas no blog HF diante do espelho.

Para a nossa alegria, crescimento humano e literário, o livro conta com Prefácio escrito pelo poeta e crítico "Lau Siqueira", autor da obra, recentemente publicada pela Editora Casa Verde, "Poesia sem pele".

Iniciando os trabalhos de difusão do Nós Em Miúdos, Lau Siqueira fez uma bela postagem de sua escrita de prefácio no blog Pele Sem Pele, por isso venho convidar-lhes à leitura do artigo, através do post intitulado “Hercília Fernandes e As Iluminuras do Silêncio”.

Estou imensamente contente com as palavras proferidas pelo inventivo artista e sensível analista à minha poesia, e gostaria muito que vocês, amigos(as) leitores e leitoras do Novidades & Velharias, compartilhassem do meu enorme entusiasmo e satisfação.

Abraço caloroso,
Hercília Fernandes.


*Arte: Marc Chagall.
**Poema: Hercília Fernandes in fragmento de "Vasta EspecificAção".

domingo, 29 de maio de 2011

Ensinamento: "gentileza gera gentileza"



perdeu a mão
para a escrita

não obtém bom verso
nem mesmo pobre rima

é que só sabe
sentimento

aquela palavra de luxo...


Hercília Fernandes

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.

Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".

Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.

Essa palavra de luxo.


Adélia Prado,
In Ensinamento




Vive-se uma época de retrocesso à barbárie. As bandeiras e os instrumentos de guerra, no entanto, já não são os velhos e encardidos panos, nem as espadas grotescas e as armaduras enferrujadas sobre/sob cavalos altivos...
Aprimoram-se os discursos, inventaram ideias, falsearam a realidade: “apagaram tudo, pintaram tudo de cinza”...
A palavra, outrora vinda para esclarecer os homens, tornou-se objeto de manipulação, exercício de poder e de saber. O amor, sentimento humano maior, constituiu-se objeto de riso, siso, fabulação...
E, nesse palco de dominação, anjos rebeldes são postos ao fogo, crianças e idosos jogados às próprias sortes. Mulheres violentadas, silenciadas e mutiladas em seus desígnios. Humanos morrem a cada dia e mortos-vivos enfeitam cenários; e, autômatos, enredam cenas reais nessa grande comédia da vida moderna.
Todavia, o palco não é mais o “bem perdido”, o locus amoenus redentor, élan vital capaz de oferecer luz às ideias. O palco, composto por “flores de cimento”, não configura a natureza idílica gritante, mas as pedras cuidadosamente emparelhadas, ornamentalmente bem elaboradas...
Compõem-se as cores da cidade: tons opacos, nublados, acinzentados; mãos e sinais fechados, olhos empoeirados... Cenário rude, pobre, nefasto!
E nesse teatro mortificado surge, então, o fogo; e, com ele, a devassidão, a claridade e a normalização... Entretanto, não é o fogo o temível vilão! Não é o fogo o terrível atroz da multidão!...
O fogo deixa rastros pela cidade e, com as nuvens de fumaça, vem acordar a criatura humana da sua rudeza e automatização. E em meio a desolação, um homem se levanta e grita à multidão: o MAL reside no coração!
Um homem - "com a sua dor estampada na cara" - entra em cena nesse “circo” de horrores. E, nele, recolhe doentes, expande sonhos, alimenta crianças, velhos, “lobos” e “dementes”...
Um homem com a sua dor, com a dor escancarada na longa barba, grita: só existe um caminho, o caminho é o amor!...
Mas as pessoas estão por demais ocupadas para receberem o pão na farta mesa. Seus corações, presos no cimento e no vazio, ignoram “palavras de Gentileza”. E não percebem quantas cores podem existir no mundo, na natureza, recusando-se à frase: “Gentileza Gera Gentileza”!
E, mesmo com a sua tamanha e gentil Gentileza, o circo continua pegando fogo e as pessoas que, “apressadas passam pelas ruas da cidade”, caminham silenciadas por intermináveis círculos de escuridão, posto que: “a palavra no muro fora coberta de tinta"...
O homem, com a sua dor, é afastado da cega e homogênea multidão, tiram-lhes a mobilidade do estandarte e os instrumentos de luta; tiram-lhes, da palavra, a trindade redentora: “amorrr”.
Amor escrito com o “R” do Pai, com o “R” do Filho e com o “R” do Espírito Santo. E o circo novamente invade a cidade e expande-se pela escola, e a escola rouba a vida e o tom cinza pinta negritudes nos corações.
Porém, a “gentileza que Gentileza gera” insiste em resistir e, em meio às flores de cimento, o profeta - louco, poeta, menino - indaga os mortos-vivos e deixa o questionamento como herança:
- “Qual o mais importante: o livro ou a sabedoria?
Amor, palavra que liberta, já dizia o Profeta!”

Eis, aí, a gentileza na sofia do Messias!...

Hercília Fernandes



*Textos elaborados em processos de “intersubjetividade” com Adélia Prado, Marisa Monte, Zélia Duncan e tantos outros Outros...
*Imagens disponíveis na Internet.