domingo, 14 de junho de 2009

Outras vozes: contribuições da Blogosfera (2)


O professor e pesquisador Jayme Bueno, com a sensibilidade e sabedoria que lhes são próprias, enviou-me, há algum tempo atrás, um belíssimo artigo sobre “a imagem do espelho na literatura”. Em correspondência de e-mail, datada de 20 abril de 2009, o ilustre estudioso alude:


Prezada Hercília Fernandes,

Motivado pelo título de seu blog HF DIANTE DO ESPELHO, resolvi buscar informações e alguns poetas mais conhecidos que trabalharam o tema espelho em seus poemas.


O artigo comporta algumas definições sobre o fenômeno do espelho na literatura, particularmente na poesia, apresentando análises conceituais de teóricos como Bachelard, Humberto Eco e Winnicott. Além disso, o prof. Jayme desenvolve a temática a partir de obras e fragmentos literários de grandes nomes da literatura universal e contemporânea, destacando o tema em Shakespeare, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Mario Quintana, dentre outros.

E, encerra o artigo com uma belíssima obra em prosa de Érico Veríssimo, onde o autor proclama que: “O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica em que passo pelo rosto o aparelho de barbear” (VERÍSSIMO, in: Solo de Clarineta).

Passemos, então, aos espelhos poéticos contemplados pelo excelentíssimo prof. Jayme Bueno.



DIANTE DO ESPELHO


Por Jayme Bueno


Estar à frente de um espelho e mirar-se nele faz parte do inconsciente coletivo. Essa fixação sobre a imagem no espelho provém, como quase tudo na literatura, das lendas gregas. Neste caso, ela deriva em especial da lenda de Narciso poetizada pelo poeta latino Ovídio nas Metamorfoses. Narciso, enlevado por sua própria beleza, ia olhar-se todo dia nas águas de um lago. Era o desejo de conhecer-se que o atraía e o deleitava.

Todos nós mortais queremos conhecer-nos a nós mesmo. Somos todos personalistas, todos encantados conosco mesmos. De certa forma, seguimos o preceito de Sócrates; conhece-te a ti mesmo. Com certeza, porém, ele não acrescentou: enleva-te com a sua própria imagem. A Sócrates, filósofo como era, preocupava o conhecimento interior a essência do ser, e não a beleza da imagem, que é algo exterior e passageira.

Veio, então, essa verdadeira fixação à imagem que aparece no espelho, que, em tempo, já não lendários, substituiu as águas do lago. Para Bachelard, segundo Cássia Helena Barbosa José e Adilson José Ruiz, em Diálogo com Narciso: uma interpretação plástica de Bachelard: O espelho (...) é demasiadamente civilizado e geométrico. Quando Narciso se depara com sua imagem refletida em um lago, ele encontra na água um campo aberto para uma experiência íntima de beleza.

Para Clarice Lispector, em Água Viva, p. 79: ... Espelho é luz. Um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo. (...) É coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto.... O espelho, portanto inspira sonho e devaneio. Ele representa a profundeza que se mostra a um poeta.

É necessário que, como Umberto Eco, Sobre os espelhos e outros ensaios, tenhamos a necessária consciência de que não somos nós que estamos dentro do espelho, mas a nossa imagem, que lá inclusive aparece distorcida: o relógio do pulso esquerdo aparece no direito: O espelho reflecte a direita exactamente onde está a direita e a esquerda onde está a esquerda. É o observador (ingénuo, mesmo quando faz de físico) que por identificação imagina que é o homem dentro do espelho e, vendo-se, se dá conta de que traz, por exemplo, o relógio no pulso direito. Mas o facto é que só o traria se ele, o observador, fosse aquele que está dentro do espelho (Je est un autre).

O psicólogo Winnicott, da linha lacaniana, foi outro a quem o tema interessou, em Mirror-role of mother and family in child development (O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil), no capítulo IX - O Brincar e a Realidade, p. 131 -, escreveu: O que faz o bebê quando ele ou ela olham a face da mãe? Eu sugiro que, geralmente, o que o bebê vê é a ele mesmo. Winnicott vê, portanto, as nossas mães como as precursoras de nossos espelhos.

Para Tomás Baêna, que se baseia em Bachelard e em Winnicott: O espelho (do latim speculum) exerceu desde sempre um grande fascínio sobre o espírito humano, pois gera um espaço de ambiguidade: a imagem que reflecte é simultaneamente idêntica (ainda que invertida) e ilusória. O espelho assume, assim, sentidos radicalmente opostos: representa a verdade (símbolo mariano) e a aparência (símbolo demoníaco).

Segundo ainda Tomás Baêna, a crítica de Platão (427-347 a. C.) sobre o simulacro assenta precisamente nesta relação entre o objecto real e o seu enganador reflexo. Inscrito no campo animado da experiência e da actividade psíquica, o espelho veicula o sentido de verdade equívoca, sendo considerado o símbolo por excelência do Simbolismo (Michaud, 1949). Nesta medida, assume uma função estética de destaque em todos os campos artísticos.

Após este breve, embora longo excurso, vamos ver como diferentes poetas e prosadores reproduziram em suas obras a imagem do espelho:




RETRATO

Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,

Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração

Que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

A minha face?



Fragmento de PROCURA DA POESIA

Carlos Drummond de Andrade


Não recomponhas

tua sepultada e merencória infância.

Não osciles entre o espelho e a

memória em dissipação.

Que se dissipou, não era poesia.

Que se partiu, cristal não era.



VERSOS DE NATAL

Manuel Bandeira


Espelho, amigo verdadeiro,

Tu refletes as minhas rugas,

Os meus cabelos brancos,

Os meus olhos míopes e cansados.

Espelho, amigo verdadeiro,

Mestre do realismo exato e minucioso,

Obrigado, obrigado!


Mas se fosses mágico,

Penetrarias até o fundo desse homem triste,

Descobririas o menino que sustenta esse homem,

O menino que não quer morrer,

Que não morrerá senão comigo,

O menino que todos os anos na véspera do Natal

Pensa ainda em pôr os seus sapatinhos atrás da porta.



O ESPELHO

Mario Quintana


E como eu passasse por diante do espelho

não vi meu quarto com as suas estantes
nem este meu rosto

onde escorre o tempo.


Vi primeiro uns retratos na parede:

janelas onde olham avós hirsutos

e as vovozinhas de saia-balão

Como pára-quedistas às avessas que subissem do fundo do tempo.


O relógio marcava a hora

mas não dizia o dia. O Tempo,

desconcertado,

estava parado.


Sim, estava parado

Em cima do telhado...

Como um catavento que perdeu as asas!



RETRATO ANTIGO - do livro Viagem no Espelho

Helena Kolody


Quem é essa

quem me olha

de tão longe,

com olhos que foram meus?



RETRATO

Lila Ripoll


Chego junto do espelho, olho meu rosto.

Retrato de uma moça sem beleza.

Dois grandes olhos tristes de agosto,

olhando para tudo com tristeza.


Pequeno rosto oval. Lábios fechados

Pra não revelar o meu segredo...

Os cabelos mostrando, sem cuidados,

Uns fios brancos que chegaram cedo.[...]


Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.

O espelho é meu amigo. Nunca mente.

No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.

E sabe desde quando estou descrente!...



O ESPELHO

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa


O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.

Pensar é essencialmente errar.

Errar é essencialmente estar cego e surdo.



Uma estrofe do poema FOLHAS DE ROSA

Florbela Espanca


O espelho de prata cinzelada,

A doce oferta que eu amava tanto,

Que reflectia outrora tantos risos,

E agora reflecte apenas pranto



O ESPELHO DO GUARDA-ROUPA – Parte III

Ferreira Gullar


Carregar um espelho

é mais desconforto que vantagem:

a gente se fere nele

e ele

não nos devolve mais do que a paisagem

Não nos devolve o que ele não reteve:

o vento nas copas

o ladrar dos cães

a conversa na sala

barulhos

sem os quais

não haveria tardes nem manhãs



POEMA 22

João Manuel Simões


Estilhacei o espelho

a pontapés

pensando destruir

a própria imagem.

(E era eu que habitava

além do espelho.)

Por isso em cada caco

habita agora

um pedaço de mim,

esquartejado.



AL ESPEJO

Jorge Luis Borges



¿Por qué persistes, incesante espejo?

¿Por qué duplicas, misterioso hermano,

el movimiento de mi mano?

¿Por qué en la sombra el súbito reflejo?


Eres el otro yo de que habla el griego

y acechas desde siempre. En la tersura

del agua incierta o del cristal que dura

me buscas y es inútil estar ciego.


El hecho de no verte y de saberte

te agrega horror, cosa de magia que osas

multiplicar la cifra de las cosas


que somos y que abarcan nuestra suerte.

Cuando esté muerto, copiarás a otro

y luego a otro, a otro, a otro, a otro…



ESPELHO DE UM MOMENTO

Paul Éluard, postado por Carlos Machado


Ele dissipa a claridade

Mostra aos homens as imagens sutis da aparência

Arrebata aos homens a possibilidade de se distraírem.

É duro quanto a pedra,

A pedra informe,

A pedra do movimento e da rua,

E seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as

máscaras se deformam.

O que a mão tomou desdenha mesmo de tomar a forma da mão.

O que foi compreendido não existe mais,

A ave se confundiu com o vento,

O céu com sua verdade

O homem com sua realidade.



SONETO INGLÊS

Shakespeare, trad. Ivo Barroso


O espelho não me prova que envelheço

Enquanto andares par com a mocidade;

Mas se de rugas vir teu rosto impresso,

Já sei que a Morte a minha vida invade.


Pois toda essa beleza que te veste

Vem de meu coração, que é teu espelho;

O meu vive em teu peito, e o teu me deste:

Por isso como posso ser mais velho?


Portanto, amor, tenhas de ti cuidado

Que eu, não por mim, antes por ti, terei;

Levar teu coração, tão desvelado


Qual ama guarda o doce infante, eu hei.

E nem penses em volta, morto o meu,

Pois para sempre é que me deste o teu.



ESPELHO

Sylvia Plath, trad. postada por Beatriz Galvão


Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.

Tudo o que vejo engulo no mesmo momento

Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.

Não sou cruel, apenas verdadeiro —

O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.

O tempo todo medito do outro lado da parede.

Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele

Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.

Escuridão e faces nos separam mais e mais.


Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,

Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.

Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.

Vejo suas costas, e a reflito fielmente.

Me retribui com lágrimas e acenos.

Sou importante para ela. Ela vai e vem.

A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.

Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha

Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.



Para concluir, segue a voz de um grande prosador, Érico Veríssimo: Solo de Clarineta - Livro de memórias – Texto prefácio:



O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, numa linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes, alheias ou nossas, antigas ou recentes, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado - e às vezes, inexplicavelmente, do futuro - enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz ou pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas, uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito. Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem" - murmuro-lhe às vezes - "Tuas carnes se tornas flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". - "E como imaginas que estás?" - replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso é verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.

No Homem do Espelho reconheço os olhos escuros e me­lancólicos de minha mãe. Essa cabeçorra, quase desproporcional ao resto do corpo, herdei-a de meu pai. Quanto à pele morena, talvez me tenha vindo de algum remoto antepassado índio ou mouro. As sobrancelhas negras e espessas - que passaram a vida no vão esforço de dar a essa cara um ar façanhudo, de­certo com o propósito de atenuar a mansuetude quase humilde dos olhos - foram suavizadas pela prata com que o tempo as retocou. (Prata ou cinza?)

Eu gostaria de simplificar o problema de meu "tempera­mento", apresentando-me como a manifestação duma dicoto­mia, segundo a qual tendências que herdei de minha mãe ­sobriedade, senso de responsabilidade, devoção ao trabalho, à ordem e à normalidade - podem ser comparadas com os muros duma cidadela sitiada e repetidamente atacada por insi­diosos e alegres bandos de guerrilheiros constituídos por certos componentes do caráter de meu pai: sensualidade, auto-in­dulgência/ inclinação para o ócio e para uma espécie de hedo­nismo irresponsável.

"Mas a coisa não é assim tão simples e nítida'.! - observa o Outro. - Eu sei, eu sei" - respondo em pensamentos ­"mas vamos adiante, companheiro. É pelos sendeiros do erro e da dúvida que havemos de chegar um dia ao reino da ver­dade."

O Fantasma foca em mim os seus olhos secretamente cé­ticos e murmura: "Será que esse reino existe mesmo fora da mitologia?". Ambos encolhemos os ombros.



Breve biografia de Jayme Bueno:




Jayme Bueno é professor universitário e estudioso em literatura. É autor de vários livros sobre a literatura portuguesa, destacando-se: Távola Redonda: uma experiência lírica (1983) e Aspectos da Poética de António Gedeão (1979). Dispõe de vasta participação em congressos de literatura, cuja recente explanação se desenvolveu a partir do tema Padre António Vieira, Escritor e Diplomata, em agosto de 2008, no IX Congresso AIL (Associação Internacional de Lusitanistas), na Universidade da Madeira, em Funchal-Portugal. Contatos com o autor: Blog do Jayme Bueno.


quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Fenômeno Criador na Poesia à Luz de Gaston Bachelard




Hercília Maria Fernandes / UFRN
Antônio Basílio Novaes T. de Menezes / UFRN
RESUMO
O artigo consiste pesquisa exploratória do fenômeno criador na poesia à luz da fenomenologia de Gaston Bachelard. Por meio de uma revisão bibliográfica, mais especificamente do estudo das obras A poética do espaço e A poética do devaneio, busca-se uma compreensão aos pressupostos bachelardianos acerca da imaginação e razão na atividade poética.
Palavras-chave: Gaston Bachelard. Imaginação. Razão.


1 O fenômeno criador

A vida científica de Gaston Bachelard (1884-1962), segundo Pessanha (1982), pode ser compreendida através das duas faces do filósofo: o Bachelard “diurno”, cientista incansável em sua interminável tarefa de clarificar, corrigir conceitos e formular um novo racionalismo: aberto, setorial, dinâmico, militante. E, o Bachelard “noturno”, “inovador da concepção de imaginação, explorador do devaneio, exímio mergulhador nas profundezas abissais da arte, amante da poesia” (PESSANHA, 1985, p. vi).
Em A poética do espaço, o filósofo Gaston Bachelard noturno analisa que para estudar os problemas relacionados à imaginação poética se deve, antes, esquecer o seu saber. Estar aberto a uma fenomenologia da imaginação que se distancia dos preceitos das ciências racionalistas conservadoras. Ou seja, Bachelard aponta que é indispensável para se efetuar uma compreensão das imagens poéticas, o envolvimento direto do pesquisador na relação sujeito-objeto e propõe cortes, rupturas com as teorias e métodos racionalistas que concebem e investigam, artificialmente, o fenômeno poético. Em suas palavras:
Um filósofo que formou todo o seu pensamento ligando-se aos temas fundamentais da filosofia das ciências [...] deve esquecer seu saber, romper com todos os hábitos de pesquisas filosóficas, se quiser estudar os problemas colocados pela imaginação poética. É preciso estar presente, presente à imagem no minuto da imagem: se houver uma filosofia da poesia, essa filosofia deve nascer e renascer no momento em que surgir um verso dominante (BACHELARD, 1978, p. 183).

Para Pessanha, Bachelard demonstrou grande jovialidade espiritual ao longo de sua vida científica, não se deixando prender as ortodoxias das escolas filosóficas. Para Bachelard, a verdade provém da discussão e não da simpatia, por isso formulou o seu inconformismo intelectual que denominou de “filosofia do não”. Para ele, a história das idéias não se faz por continuísmos, mas através de rupturas, revoluções, cortes epistemológicos, por isso revestiu a sua obra de caráter polêmico, fazendo críticas à influência da metafísica tradicional – particularmente a cartesiana – sobre o desenvolvimento da epistemologia. Também não poupou críticas aos principais pensadores do século XX, dentre eles Freud, Bergson e Sartre. Por outro lado, oposto aos sistemas fechados, fez uso bastante pessoal de várias noções: psicanálise, fenomenologia, dialética, materialismo; e, ao mesmo tempo, defende uma nova concepção de racionalismo: aberto, dinâmico, setorial e militante (PESSANHA, apud RODRIGUES, 2005, p. 60).
Bachelard critica, veementemente, a psicanálise freudiana. Para ele, a postura intelectualista de Freud transparece na tendência de interpretar as imagens poéticas, apenas, como símbolos dos recalques oriundos das pulsões sexuais sublimadas. Para o filósofo, ao fazer isso, Freud deixa de investigar o poder em si da imaginação. Igualmente, Bachelard critica Sartre, descobrindo nele a mesma postura intelectualista ao privilegiar o visual e o formal, distanciando-se do material e da manualidade, visto que para Bachelard “as duas grandes funções psíquicas são justamente a imaginação e a vontade” (PESSANHA, 1985, p. xv).
Na tentativa de postular uma metafísica da imaginação, o filósofo busca formular uma teoria em torno de uma ontologia da imagem pura. Levando em conta que “a poesia é, antes de ser uma fenomenologia do espírito, uma fenomenologia da alma” (BACHELARD, 1978, p. 185). Para tanto, não deve ser estudada mediante os pressupostos e métodos da psicologia, nem da psicanálise, visto desconsiderarem a novidade que a imagem poética evoca. Em outras palavras, a poesia não possui passado, não é fruto, exclusivamente, de uma causalidade psíquica provocada pela manifestação de impulsos adormecidos. Outrossim, se constitui um ser distinto com dinamismo próprio; apesar do filósofo considerar que: “pela explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa em ecos e não se vê mais em que profundidade esses ecos vão repercutir e cessar” (BACHELARD, 1978, p. 183).
Assim, para equilibrar a dicotomia entre o passado do poeta e a novidade da imagem poética, Bachelard adentra no universo da “repercussão”. Segundo suas análises, a imagem poética repercutida - que na sua teoria envolve a dimensão fenomenológica também do leitor -, se constitui de uma sonoridade do ser-poeta intersubjetivada no ser-leitor. Isso significa que a comunicação realizada entre o poeta e o leitor guarda, em si mesma, uma significação ontológica, que, para o metafísico, só pode ser compreendida por meio de uma fenomenologia da imaginação. É dentro dessa perspectiva que o filósofo defende a tese de que a imagem poética não pode ser entendida pelas únicas vias da causalidade, visto que:

O poeta não me confia o passado de sua imagem e, no entanto, sua imagem se enraíza em mim [...]. Pode-se, certamente, nas pesquisas psicológicas, dar uma atenção aos métodos psicanalíticos para determinar a personalidade de um poeta [...], mas o ato poético, a imagem súbita, a chama do ser na imaginação escapa a tais indagações. Para esclarecer filosoficamente o problema da imagem poética é preciso voltar a uma fenomenologia da imaginação. [...] no momento em que ela emerge na consciência como um produto direto do coração, da alma, do ser do homem tomado na sua atualidade (BACHELARD, 1978, p. 184, grifo meu).

2 Um método fenomenológico: o devaneio

Em A poética do Devaneio, Bachelard retoma a discussão do estudo da imaginação poética a partir da fenomenologia, onde justifica e ensina o seu método de investigação. Conforme seu entendimento, o método fenomenológico leva o pesquisador a uma comunicação com a consciência criante do poeta, levando-o até as origens da imagem poética: “A exigência fenomenológica com relação às imagens poéticas, aliás, é simples: resume-se em acentuar-lhes a virtude de origem, em apreender o próprio ser de sua originalidade psíquica que é a imaginação” (BACHELARD, 1988, p. 2).
O filósofo retoma a problemática dos impulsos psíquicos manifestos pelo inconsciente, contrapondo-se a idéia de que a poesia se constitui, basicamente, de causalidade e liberação, como justifica a teoria da sublimação das paixões e dos desejos na visão psicanalítica do fenômeno criador mediante abordagem freudiana. Para Bachelard, a imagem poética aparece como um novo ser da linguagem, não podendo ser comparada a uma metáfora comum que serve de instrumento para liberar instintos recalcados. Nesse sentido, o filósofo reflete que a poesia é um dos destinos da palavra, e quando se busca a tomada de consciência da linguagem ao nível dos poemas, atinge-se uma ingenuidade maravilhante capaz de elevar o espírito de modo a tocar o homem da palavra nova, em suas palavras:

Tentando sutilizar a tomada da consciência da linguagem ao nível dos poemas, chegamos à impressão de que tocamos o homem da palavra nova, de uma palavra que não se limita a exprimir idéias ou sensações, mas que tenta ter um futuro. Dir-se-ia que a imagem poética abre um porvir da linguagem (BACHELARD, 1988, p. 3).

Nessa perspectiva, Bachelard analisa que para se participar dessa tomada de consciência criante do poeta, além de despertar, em si mesmo, a ingenuidade maravilhante, é necessário que essa ingenuidade seja sistematizada por meio de uma ação ativa do fenomenólogo, visto que o conduzirá a uma tomada de consciência da imagem poética e da identificação de suas múltiplas variações:

Como a finalidade de toda fenomenologia é a tomada de consciência presente, num tempo de extrema tensão, a tomada de consciência impõe-se a conclusão de que não existe fenomenologia da passividade no que concerne aos caracteres da imaginação (BACHELARD, 1988, p. 4).

Seguindo essa linha analítica, o filósofo Bachelard diurno enfatiza que a ação da fenomenologia deve preceder de uma intencionalidade e vigilância ativa capaz de vivenciar e examinar, cientificamente, os fenômenos, sem, no entanto, deixar-se levar pelas impressões primeiras, visto que:

O devaneio é uma fuga para fora do real, nem sempre encontrando um mundo irreal consistente. Seguindo a ‘inclinação do devaneio’ [...], a consciência se distende, se dispersa e, por conseguinte, se obscurece. Assim, quando se devaneia, nunca é hora de se ‘fazer fenomenologia’ (BACHELARD, 1988, p. 5).
3 O devaneio na ciência: imaginação e razão

O filósofo Bachelard noturno, entretanto, posteriormente, reflete que o devaneio do sonhador traz, por meio da imaginação poética, uma boa inclinação a uma consciência em crescimento que poderá ser seguida, considerando que o devaneio que o filósofo investiga é aquele que evoca das imagens puras:

O devaneio que queremos estudar é o devaneio poético, o devaneio que a poesia coloca na boa inclinação [...]. Esse devaneio é o devaneio que se escreve ou que, pelo menos, se promete escrever. Ele já está diante dessa página em branco. Então as imagens se compõem e se ordenam. O sonhador já escuta os sons da palavra escrita (BACHELARD, 1988, p. 6).

Nesse contexto, o fenomenólogo noturno defende a tese de que há uma linha muito tênue entre imaginação e razão, argumentando que as grandes invenções científicas surgem sempre a partir de sonhos despertos que, na sua teoria, se constituem devaneios positivos para a ciência:

[...] perguntaremos pois aos cientistas: como pensais, quais são as vossas tentativas, vossos ensaios, vossos erros? Quais são as motivações que vos levam a mudar de opinião? Por que razão vocês se exprimem tão sucintamente quando falam das condições psicológicas de uma nova investigação? [...] Dai-nos não o vosso empirismo da tarde, mas o vosso rigoroso racionalismo da manhã, o a priori do vosso sonho matemático, o entusiasmo dos vossos projetos, as vossas intuições inconfessadas (BACHELARD, apud RODRIGUES, 2005, p. 57).
Assim, o fenomenólogo retomando a crítica da razão inaugurada por Kant (1724-1804), faz uma análise crítica do empirismo e do racionalismo. De acordo com Rodrigues (2005), Bachelard, a partir dessa crítica, elabora uma outra concepção de razão na medida em que se aproxima das obras dos poetas surrealistas; buscando, com essa nova atitude, a ligação entre:
[...] razão e imaginação, sonho e aventura, pensamento e instrução na medida em que pensa se aventurando e se aventura pensando, em que dinamiza o pensamento, direcionando-o, para que encontre uma intuição súbita, além do conhecimento instruído (RODRIGUES, 2005, p. 53-54).

Para Bachelard, a imaginação antecede o pensamento, não é uma substância derivada nem submetida à razão, se constituindo uma situação inversa: “em seu contato com a razão, a imaginação mostra a força inventiva, criadora e aberta daquela” (RODRIGUES, 2005, p. 55). Segundo o filósofo, quando a razão é provocada pela imaginação, a razão constituída transforma-se “em razão experimental, suscetível de organizar surracionalmente o real” (BACHELARD, apud ROGRIGUES, 2005, p. 55). Assim, o conceito de imaginação para Bachelard não se resume a capacidade de perceber, compreender ou reproduzir a realidade, visto que: “A imaginação não é, como sugere a etimologia, a faculdade de fornecer imagens da realidade; ela é a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, que cantam a realidade. É uma faculdade de sobre-humanidade” (BACHELARD, apud PESSANHA, 1985, p. xvi).
Mediante tais formulações, o fenomenólogo instaura uma nova concepção de razão que, segundo síntese realizada por Rodrigues no conjunto da obra bachelardiana, tem como características básicas (RODRIGUES, 2005, p. 59):

  • a atividade da razão é consciência de retificação;
  • a razão tem função de invenção, relacionada à imaginação como potência virtual em atualização, submetida a uma rigorosa aprendizagem, operando a educação do pensamento materialista e da filosofia racionalista;
  • a razão é uma consciência presente no domínio técnico e teórico das operações científicas;
  • a razão é consciência que julga seu saber, a partir de uma ampliação e reforma da racionalidade;
  • a consciência da racionalidade educa-se na própria mudança dos sistemas de racionalidade;
  • as relações entre razão e experiência formam as noções de racionalismo aplicado e materialismo ordenado;
  • a razão compõe com a imaginação as margens do pensamento.

Dentro dessa perspectiva, o filósofo sonhador, além de formular uma nova concepção de razão, acaba contribuindo, pedagogicamente, para uma nova forma de se conceber as artes na atualidade, trazendo grande relevância epistemológica para o universo da pesquisa educacional e colaborando para mudanças de atitudes nas práticas pedagógicas, sobretudo, nas questões relacionadas ao imaginário, ao conhecimento científico e à interdisciplinaridade. Como apontam Caruso & Freitas (2003) no artigo Educar é fazer sonhar:
Bachelard – do ponto de vista filosófico – ganha papel primordial quanto à questão da importância da poesia e das artes na pedagogia, não como meios ou instrumentos didáticos, mas dando-lhes autonomias, e estudando-as como processo criativo, como poéticas. [...] ele valoriza o homem em uma sociedade produzindo ciência, tecnologia e poesia, conferindo-lhes igual valor na criação de um pensamento, ao mesmo tempo racional e imaginativo, capaz de produzir mudanças no conhecimento e no próprio homem (CARUSO; FREITAS, 2003, p. 4, grifo dos autores).

4 O devaneio na poiésis: alma e espírito

Mediante Bachelard, o devaneio poético é um fenômeno naturalmente transcendente, pertinente às crianças durante a infância e adormecido no ser humano na vida adulta. Segundo sua teoria, o devaneio poético origina-se na alma e promove o reencontro do homem com a sua natureza infanto-primitiva. É, propriamente, um estado individual, subjetivo, ocorre no psiquismo humano através do sonho diurno que se diferencia do sonho noturno. É um despertar da consciência adormecida para os mistérios profundos do mundo interior e da vida, que se realiza por meio da solidão do ser. Dessa maneira, o devaneio poético é um estado da alma sonhado pela memória, lembrado pelo devaneio e reanimado pela imaginação que ilustra a memória do artista:

[...] a memória sonha, o devaneio lembra. Quando esse devaneio da lembrança se torna o germe de uma obra poética, o complexo de imaginação e memória se adensa, há ações múltiplas e recíprocas que enganam a sinceridade do poeta. Mais exatamente, as lembranças da infância feliz são ditas com uma sinceridade de poeta. Ininterruptamente a imaginação reanima a memória, ilustra a memória (BACHELARD, 1988, p. 20).
Nesse sentido, pode-se dizer que, na teoria bachelardiana, o poeta é o sujeito capaz de suscitar, através de imagens poéticas, as lembranças de uma infância adormecida no ser-leitor, como bem diz o filósofo: “os poetas nos ajudarão a reencontrar em nós essa infância permanente, durável, imóvel (BACHELARD, 1988, p. 21). Para o fenomenólogo, a imaginação poética - objeto de sua abordagem metafísica -, pertence ao universo da alma, sendo o verdadeiro poeta, o sujeito que, ao penetrar na origem de uma imagem poética, cria outra atmosfera, originando uma nova linguagem que repercutirá no leitor: “O poeta na novidade de suas imagens, é sempre origem de linguagem” (BACHELARD, 1978, p. 185).
Todavia, Bachelard enfatiza que, ao anunciar uma metafísica da imagem pura, despreza a composição e estrutura do poema que pertence ao domínio do espírito e não da alma. Para ele, espírito e alma não são sinônimos, a alma pertence ao universo da imortalidade; enquanto que o espírito emerge do saber instituído e da intencionalidade criadora. Nesse sentido, ele reflete que a poesia pura, considerada a imagem nova, é aquela que transcende ao universo do espírito, posto que para o filósofo, “nos poemas se manifestam forças que não passam pelos circuitos de um saber” (BACHELARD, 1978, p. 186).
Para o filósofo noturno, a imagem poética existe antes do pensamento, pois para um poeta criar uma única imagem não existe um projeto preconcebido, a alma movimenta a imagem. Todavia, para o poeta escrever o poema completo, bem estruturado em sua composição, faz-se necessário uma intencionalidade criadora, um projeto prefigurado pelo espírito.
Nessa perspectiva, em sua fenomenologia da imaginação, Bachelard deixa de lado o problema da composição do poema, visto se constituir de grupamentos de imagens múltiplas que dificultam a ação do cientista fenomenológico na busca da origem da imagem pura (BACHELARD, 1978). Todavia, o autor alude que essa problemática se constitui digna de pesquisa científica, já que: “Nessa composição do poema intervém elementos psicologicamente complexos que se associam a cultura mais ou menos distante e o ideal literário de um tempo, componentes que uma fenomenologia completa deveria examinar” (BACHELARD, 1978, p. 189).

5 Conclusões

Mediante o que fora visto, poder-se-ia inferir que a imaginação poética, conforme Bachelard, envolve duas dimensões específicas: uma de natureza transcendente, subjetiva, portanto, não mensurável; e, outra, de natureza material passível de exame e síntese.
Assim, a metafísica bachelardiana, além de servir como fundamentação teórica, serve como premissa à reflexão pedagógica acerca da formação dos sujeitos sócio-humanos, remetendo a um questionamento sobre que tipo de educação corresponde às expectativas atuais da humanidade. Segundo Bachelard, a criança na infância é um ser naturalmente sonhador, e o sonho desperto, quando bem dirigido, traz benefícios à vida humana, posto que a imaginação, segundo o filósofo, apesar de ocorrer subjetivamente, contém elementos materiais, pois se associa diretamente à experiência e ao conhecimento.
Nesse sentido, sendo a poesia de domínio do imaginário, faz-se necessário que se “ensine a sonhar” para que se possa potencializar essa faculdade. O devaneio, no sentido da imaginação poética, pode servir para acordar a criatura humana para os mistérios da vida e potencializar competências, como destaca Bachelard (1978, p. 195): “Com a poesia, a imaginação se coloca no lugar onde a função do irreal vem seduzir ou inquietar – sempre despertando – o ser adormecido em seus automatismos”.
Nesse contexto, a educação estética pode abrir diversas possibilidades para uma consciência em crescimento (BACHELARD, 1978). Visto que, através da imaginação poética, o sujeito passa a ver a vida noutra dimensão, adquire uma nova visão de mundo, de si mesmo e vislumbra possibilidades concretas. Entretanto, “o sonhador não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo” (BACHELARD, apud CARUSO; FREITAS, 2003, p. 4). Nesse sentido, é tarefa da pedagogia pensar a profundidade desse espelho, como apontam Caruso & Freitas (2003):

É fundamental que seja o educador a dar profundidade a esse espelho, através de sua própria imagem, reflexo de um conjunto de valores e saberes adquiridos. É ele que motivará seus alunos a sonharem, sob pena de levá-los à frieza da incredulidade. Sua postura diante da vida – da própria vida e da vida dos outros – é determinante (CARUSO; FREITAS, 2003, p. 4).


Referências Bibliográficas


BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. In: ______. Filosofia do não; O novo espírito científico; A poética do espaço. Trad. Antônio da Costa Leal e Lídia do Vale Santos Leal. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1978, p. 181-354.
______. A poética do devaneio. Trad. Antonio de Párdua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
______. O direito de sonhar. Trad. José Américo Motta Pessanha et al. São Paulo: DIFEL, 1985.
CARUSO, Francisco; FREITAS, Maria Cristina Silveira. Educar é fazer sonhar. In: Centro de Brasileiro de Pesquisas Físicas / CBPF-CS-009/03. Disponível em: < http://cbpfindex.cbpf.br/publication_pdfs/cs00903.2006_12_08_10_36_41.pdf.> Acesso em: 04/02/2007.
RODRIGUES, Victor Hugo Guimarães. Gaston Bachelard e a sedução poética: a criação de um filosofar onírico. In: Revista Eletrônica Mestrado em Educação Ambiental. v. 15, julho a dezembro de 2005. Disponível em: <http://www.remea.furg.br/edicoes/vol15/art05.pdf.> Acesso em: 05/02/2007.
PESSANHA, José Américo Motta. Bachelard: as asas da imaginação (Introdução). In: BACHELARD, Gaston. O direito de sonhar. Trad. José Américo Motta Pessanha et al. São Paulo: DIFEL, 1985.

Nota:
[1] Fundamentação teórica contemplada durante o Mestrado em Educação (PPGEd / UFRN), pertinente a trabalho apresentado no 18 EPENN, sob a orientação do Prof. Dr. Antonio Basílio Novaes Thomaz de Menezes:
FERNANDES, Hercília M.; MENEZES, A. B. N. T. de . Cecília Meireles e o fenômeno criador: reflexões para a lírica pedagógica à luz de Bachelard. In: 18 EPENN - Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste. Maceió, 2007.