quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Fenômeno Criador na Poesia à Luz de Gaston Bachelard




Hercília Maria Fernandes / UFRN
Antônio Basílio Novaes T. de Menezes / UFRN
RESUMO
O artigo consiste pesquisa exploratória do fenômeno criador na poesia à luz da fenomenologia de Gaston Bachelard. Por meio de uma revisão bibliográfica, mais especificamente do estudo das obras A poética do espaço e A poética do devaneio, busca-se uma compreensão aos pressupostos bachelardianos acerca da imaginação e razão na atividade poética.
Palavras-chave: Gaston Bachelard. Imaginação. Razão.


1 O fenômeno criador

A vida científica de Gaston Bachelard (1884-1962), segundo Pessanha (1982), pode ser compreendida através das duas faces do filósofo: o Bachelard “diurno”, cientista incansável em sua interminável tarefa de clarificar, corrigir conceitos e formular um novo racionalismo: aberto, setorial, dinâmico, militante. E, o Bachelard “noturno”, “inovador da concepção de imaginação, explorador do devaneio, exímio mergulhador nas profundezas abissais da arte, amante da poesia” (PESSANHA, 1985, p. vi).
Em A poética do espaço, o filósofo Gaston Bachelard noturno analisa que para estudar os problemas relacionados à imaginação poética se deve, antes, esquecer o seu saber. Estar aberto a uma fenomenologia da imaginação que se distancia dos preceitos das ciências racionalistas conservadoras. Ou seja, Bachelard aponta que é indispensável para se efetuar uma compreensão das imagens poéticas, o envolvimento direto do pesquisador na relação sujeito-objeto e propõe cortes, rupturas com as teorias e métodos racionalistas que concebem e investigam, artificialmente, o fenômeno poético. Em suas palavras:
Um filósofo que formou todo o seu pensamento ligando-se aos temas fundamentais da filosofia das ciências [...] deve esquecer seu saber, romper com todos os hábitos de pesquisas filosóficas, se quiser estudar os problemas colocados pela imaginação poética. É preciso estar presente, presente à imagem no minuto da imagem: se houver uma filosofia da poesia, essa filosofia deve nascer e renascer no momento em que surgir um verso dominante (BACHELARD, 1978, p. 183).

Para Pessanha, Bachelard demonstrou grande jovialidade espiritual ao longo de sua vida científica, não se deixando prender as ortodoxias das escolas filosóficas. Para Bachelard, a verdade provém da discussão e não da simpatia, por isso formulou o seu inconformismo intelectual que denominou de “filosofia do não”. Para ele, a história das idéias não se faz por continuísmos, mas através de rupturas, revoluções, cortes epistemológicos, por isso revestiu a sua obra de caráter polêmico, fazendo críticas à influência da metafísica tradicional – particularmente a cartesiana – sobre o desenvolvimento da epistemologia. Também não poupou críticas aos principais pensadores do século XX, dentre eles Freud, Bergson e Sartre. Por outro lado, oposto aos sistemas fechados, fez uso bastante pessoal de várias noções: psicanálise, fenomenologia, dialética, materialismo; e, ao mesmo tempo, defende uma nova concepção de racionalismo: aberto, dinâmico, setorial e militante (PESSANHA, apud RODRIGUES, 2005, p. 60).
Bachelard critica, veementemente, a psicanálise freudiana. Para ele, a postura intelectualista de Freud transparece na tendência de interpretar as imagens poéticas, apenas, como símbolos dos recalques oriundos das pulsões sexuais sublimadas. Para o filósofo, ao fazer isso, Freud deixa de investigar o poder em si da imaginação. Igualmente, Bachelard critica Sartre, descobrindo nele a mesma postura intelectualista ao privilegiar o visual e o formal, distanciando-se do material e da manualidade, visto que para Bachelard “as duas grandes funções psíquicas são justamente a imaginação e a vontade” (PESSANHA, 1985, p. xv).
Na tentativa de postular uma metafísica da imaginação, o filósofo busca formular uma teoria em torno de uma ontologia da imagem pura. Levando em conta que “a poesia é, antes de ser uma fenomenologia do espírito, uma fenomenologia da alma” (BACHELARD, 1978, p. 185). Para tanto, não deve ser estudada mediante os pressupostos e métodos da psicologia, nem da psicanálise, visto desconsiderarem a novidade que a imagem poética evoca. Em outras palavras, a poesia não possui passado, não é fruto, exclusivamente, de uma causalidade psíquica provocada pela manifestação de impulsos adormecidos. Outrossim, se constitui um ser distinto com dinamismo próprio; apesar do filósofo considerar que: “pela explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa em ecos e não se vê mais em que profundidade esses ecos vão repercutir e cessar” (BACHELARD, 1978, p. 183).
Assim, para equilibrar a dicotomia entre o passado do poeta e a novidade da imagem poética, Bachelard adentra no universo da “repercussão”. Segundo suas análises, a imagem poética repercutida - que na sua teoria envolve a dimensão fenomenológica também do leitor -, se constitui de uma sonoridade do ser-poeta intersubjetivada no ser-leitor. Isso significa que a comunicação realizada entre o poeta e o leitor guarda, em si mesma, uma significação ontológica, que, para o metafísico, só pode ser compreendida por meio de uma fenomenologia da imaginação. É dentro dessa perspectiva que o filósofo defende a tese de que a imagem poética não pode ser entendida pelas únicas vias da causalidade, visto que:

O poeta não me confia o passado de sua imagem e, no entanto, sua imagem se enraíza em mim [...]. Pode-se, certamente, nas pesquisas psicológicas, dar uma atenção aos métodos psicanalíticos para determinar a personalidade de um poeta [...], mas o ato poético, a imagem súbita, a chama do ser na imaginação escapa a tais indagações. Para esclarecer filosoficamente o problema da imagem poética é preciso voltar a uma fenomenologia da imaginação. [...] no momento em que ela emerge na consciência como um produto direto do coração, da alma, do ser do homem tomado na sua atualidade (BACHELARD, 1978, p. 184, grifo meu).

2 Um método fenomenológico: o devaneio

Em A poética do Devaneio, Bachelard retoma a discussão do estudo da imaginação poética a partir da fenomenologia, onde justifica e ensina o seu método de investigação. Conforme seu entendimento, o método fenomenológico leva o pesquisador a uma comunicação com a consciência criante do poeta, levando-o até as origens da imagem poética: “A exigência fenomenológica com relação às imagens poéticas, aliás, é simples: resume-se em acentuar-lhes a virtude de origem, em apreender o próprio ser de sua originalidade psíquica que é a imaginação” (BACHELARD, 1988, p. 2).
O filósofo retoma a problemática dos impulsos psíquicos manifestos pelo inconsciente, contrapondo-se a idéia de que a poesia se constitui, basicamente, de causalidade e liberação, como justifica a teoria da sublimação das paixões e dos desejos na visão psicanalítica do fenômeno criador mediante abordagem freudiana. Para Bachelard, a imagem poética aparece como um novo ser da linguagem, não podendo ser comparada a uma metáfora comum que serve de instrumento para liberar instintos recalcados. Nesse sentido, o filósofo reflete que a poesia é um dos destinos da palavra, e quando se busca a tomada de consciência da linguagem ao nível dos poemas, atinge-se uma ingenuidade maravilhante capaz de elevar o espírito de modo a tocar o homem da palavra nova, em suas palavras:

Tentando sutilizar a tomada da consciência da linguagem ao nível dos poemas, chegamos à impressão de que tocamos o homem da palavra nova, de uma palavra que não se limita a exprimir idéias ou sensações, mas que tenta ter um futuro. Dir-se-ia que a imagem poética abre um porvir da linguagem (BACHELARD, 1988, p. 3).

Nessa perspectiva, Bachelard analisa que para se participar dessa tomada de consciência criante do poeta, além de despertar, em si mesmo, a ingenuidade maravilhante, é necessário que essa ingenuidade seja sistematizada por meio de uma ação ativa do fenomenólogo, visto que o conduzirá a uma tomada de consciência da imagem poética e da identificação de suas múltiplas variações:

Como a finalidade de toda fenomenologia é a tomada de consciência presente, num tempo de extrema tensão, a tomada de consciência impõe-se a conclusão de que não existe fenomenologia da passividade no que concerne aos caracteres da imaginação (BACHELARD, 1988, p. 4).

Seguindo essa linha analítica, o filósofo Bachelard diurno enfatiza que a ação da fenomenologia deve preceder de uma intencionalidade e vigilância ativa capaz de vivenciar e examinar, cientificamente, os fenômenos, sem, no entanto, deixar-se levar pelas impressões primeiras, visto que:

O devaneio é uma fuga para fora do real, nem sempre encontrando um mundo irreal consistente. Seguindo a ‘inclinação do devaneio’ [...], a consciência se distende, se dispersa e, por conseguinte, se obscurece. Assim, quando se devaneia, nunca é hora de se ‘fazer fenomenologia’ (BACHELARD, 1988, p. 5).
3 O devaneio na ciência: imaginação e razão

O filósofo Bachelard noturno, entretanto, posteriormente, reflete que o devaneio do sonhador traz, por meio da imaginação poética, uma boa inclinação a uma consciência em crescimento que poderá ser seguida, considerando que o devaneio que o filósofo investiga é aquele que evoca das imagens puras:

O devaneio que queremos estudar é o devaneio poético, o devaneio que a poesia coloca na boa inclinação [...]. Esse devaneio é o devaneio que se escreve ou que, pelo menos, se promete escrever. Ele já está diante dessa página em branco. Então as imagens se compõem e se ordenam. O sonhador já escuta os sons da palavra escrita (BACHELARD, 1988, p. 6).

Nesse contexto, o fenomenólogo noturno defende a tese de que há uma linha muito tênue entre imaginação e razão, argumentando que as grandes invenções científicas surgem sempre a partir de sonhos despertos que, na sua teoria, se constituem devaneios positivos para a ciência:

[...] perguntaremos pois aos cientistas: como pensais, quais são as vossas tentativas, vossos ensaios, vossos erros? Quais são as motivações que vos levam a mudar de opinião? Por que razão vocês se exprimem tão sucintamente quando falam das condições psicológicas de uma nova investigação? [...] Dai-nos não o vosso empirismo da tarde, mas o vosso rigoroso racionalismo da manhã, o a priori do vosso sonho matemático, o entusiasmo dos vossos projetos, as vossas intuições inconfessadas (BACHELARD, apud RODRIGUES, 2005, p. 57).
Assim, o fenomenólogo retomando a crítica da razão inaugurada por Kant (1724-1804), faz uma análise crítica do empirismo e do racionalismo. De acordo com Rodrigues (2005), Bachelard, a partir dessa crítica, elabora uma outra concepção de razão na medida em que se aproxima das obras dos poetas surrealistas; buscando, com essa nova atitude, a ligação entre:
[...] razão e imaginação, sonho e aventura, pensamento e instrução na medida em que pensa se aventurando e se aventura pensando, em que dinamiza o pensamento, direcionando-o, para que encontre uma intuição súbita, além do conhecimento instruído (RODRIGUES, 2005, p. 53-54).

Para Bachelard, a imaginação antecede o pensamento, não é uma substância derivada nem submetida à razão, se constituindo uma situação inversa: “em seu contato com a razão, a imaginação mostra a força inventiva, criadora e aberta daquela” (RODRIGUES, 2005, p. 55). Segundo o filósofo, quando a razão é provocada pela imaginação, a razão constituída transforma-se “em razão experimental, suscetível de organizar surracionalmente o real” (BACHELARD, apud ROGRIGUES, 2005, p. 55). Assim, o conceito de imaginação para Bachelard não se resume a capacidade de perceber, compreender ou reproduzir a realidade, visto que: “A imaginação não é, como sugere a etimologia, a faculdade de fornecer imagens da realidade; ela é a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade, que cantam a realidade. É uma faculdade de sobre-humanidade” (BACHELARD, apud PESSANHA, 1985, p. xvi).
Mediante tais formulações, o fenomenólogo instaura uma nova concepção de razão que, segundo síntese realizada por Rodrigues no conjunto da obra bachelardiana, tem como características básicas (RODRIGUES, 2005, p. 59):

  • a atividade da razão é consciência de retificação;
  • a razão tem função de invenção, relacionada à imaginação como potência virtual em atualização, submetida a uma rigorosa aprendizagem, operando a educação do pensamento materialista e da filosofia racionalista;
  • a razão é uma consciência presente no domínio técnico e teórico das operações científicas;
  • a razão é consciência que julga seu saber, a partir de uma ampliação e reforma da racionalidade;
  • a consciência da racionalidade educa-se na própria mudança dos sistemas de racionalidade;
  • as relações entre razão e experiência formam as noções de racionalismo aplicado e materialismo ordenado;
  • a razão compõe com a imaginação as margens do pensamento.

Dentro dessa perspectiva, o filósofo sonhador, além de formular uma nova concepção de razão, acaba contribuindo, pedagogicamente, para uma nova forma de se conceber as artes na atualidade, trazendo grande relevância epistemológica para o universo da pesquisa educacional e colaborando para mudanças de atitudes nas práticas pedagógicas, sobretudo, nas questões relacionadas ao imaginário, ao conhecimento científico e à interdisciplinaridade. Como apontam Caruso & Freitas (2003) no artigo Educar é fazer sonhar:
Bachelard – do ponto de vista filosófico – ganha papel primordial quanto à questão da importância da poesia e das artes na pedagogia, não como meios ou instrumentos didáticos, mas dando-lhes autonomias, e estudando-as como processo criativo, como poéticas. [...] ele valoriza o homem em uma sociedade produzindo ciência, tecnologia e poesia, conferindo-lhes igual valor na criação de um pensamento, ao mesmo tempo racional e imaginativo, capaz de produzir mudanças no conhecimento e no próprio homem (CARUSO; FREITAS, 2003, p. 4, grifo dos autores).

4 O devaneio na poiésis: alma e espírito

Mediante Bachelard, o devaneio poético é um fenômeno naturalmente transcendente, pertinente às crianças durante a infância e adormecido no ser humano na vida adulta. Segundo sua teoria, o devaneio poético origina-se na alma e promove o reencontro do homem com a sua natureza infanto-primitiva. É, propriamente, um estado individual, subjetivo, ocorre no psiquismo humano através do sonho diurno que se diferencia do sonho noturno. É um despertar da consciência adormecida para os mistérios profundos do mundo interior e da vida, que se realiza por meio da solidão do ser. Dessa maneira, o devaneio poético é um estado da alma sonhado pela memória, lembrado pelo devaneio e reanimado pela imaginação que ilustra a memória do artista:

[...] a memória sonha, o devaneio lembra. Quando esse devaneio da lembrança se torna o germe de uma obra poética, o complexo de imaginação e memória se adensa, há ações múltiplas e recíprocas que enganam a sinceridade do poeta. Mais exatamente, as lembranças da infância feliz são ditas com uma sinceridade de poeta. Ininterruptamente a imaginação reanima a memória, ilustra a memória (BACHELARD, 1988, p. 20).
Nesse sentido, pode-se dizer que, na teoria bachelardiana, o poeta é o sujeito capaz de suscitar, através de imagens poéticas, as lembranças de uma infância adormecida no ser-leitor, como bem diz o filósofo: “os poetas nos ajudarão a reencontrar em nós essa infância permanente, durável, imóvel (BACHELARD, 1988, p. 21). Para o fenomenólogo, a imaginação poética - objeto de sua abordagem metafísica -, pertence ao universo da alma, sendo o verdadeiro poeta, o sujeito que, ao penetrar na origem de uma imagem poética, cria outra atmosfera, originando uma nova linguagem que repercutirá no leitor: “O poeta na novidade de suas imagens, é sempre origem de linguagem” (BACHELARD, 1978, p. 185).
Todavia, Bachelard enfatiza que, ao anunciar uma metafísica da imagem pura, despreza a composição e estrutura do poema que pertence ao domínio do espírito e não da alma. Para ele, espírito e alma não são sinônimos, a alma pertence ao universo da imortalidade; enquanto que o espírito emerge do saber instituído e da intencionalidade criadora. Nesse sentido, ele reflete que a poesia pura, considerada a imagem nova, é aquela que transcende ao universo do espírito, posto que para o filósofo, “nos poemas se manifestam forças que não passam pelos circuitos de um saber” (BACHELARD, 1978, p. 186).
Para o filósofo noturno, a imagem poética existe antes do pensamento, pois para um poeta criar uma única imagem não existe um projeto preconcebido, a alma movimenta a imagem. Todavia, para o poeta escrever o poema completo, bem estruturado em sua composição, faz-se necessário uma intencionalidade criadora, um projeto prefigurado pelo espírito.
Nessa perspectiva, em sua fenomenologia da imaginação, Bachelard deixa de lado o problema da composição do poema, visto se constituir de grupamentos de imagens múltiplas que dificultam a ação do cientista fenomenológico na busca da origem da imagem pura (BACHELARD, 1978). Todavia, o autor alude que essa problemática se constitui digna de pesquisa científica, já que: “Nessa composição do poema intervém elementos psicologicamente complexos que se associam a cultura mais ou menos distante e o ideal literário de um tempo, componentes que uma fenomenologia completa deveria examinar” (BACHELARD, 1978, p. 189).

5 Conclusões

Mediante o que fora visto, poder-se-ia inferir que a imaginação poética, conforme Bachelard, envolve duas dimensões específicas: uma de natureza transcendente, subjetiva, portanto, não mensurável; e, outra, de natureza material passível de exame e síntese.
Assim, a metafísica bachelardiana, além de servir como fundamentação teórica, serve como premissa à reflexão pedagógica acerca da formação dos sujeitos sócio-humanos, remetendo a um questionamento sobre que tipo de educação corresponde às expectativas atuais da humanidade. Segundo Bachelard, a criança na infância é um ser naturalmente sonhador, e o sonho desperto, quando bem dirigido, traz benefícios à vida humana, posto que a imaginação, segundo o filósofo, apesar de ocorrer subjetivamente, contém elementos materiais, pois se associa diretamente à experiência e ao conhecimento.
Nesse sentido, sendo a poesia de domínio do imaginário, faz-se necessário que se “ensine a sonhar” para que se possa potencializar essa faculdade. O devaneio, no sentido da imaginação poética, pode servir para acordar a criatura humana para os mistérios da vida e potencializar competências, como destaca Bachelard (1978, p. 195): “Com a poesia, a imaginação se coloca no lugar onde a função do irreal vem seduzir ou inquietar – sempre despertando – o ser adormecido em seus automatismos”.
Nesse contexto, a educação estética pode abrir diversas possibilidades para uma consciência em crescimento (BACHELARD, 1978). Visto que, através da imaginação poética, o sujeito passa a ver a vida noutra dimensão, adquire uma nova visão de mundo, de si mesmo e vislumbra possibilidades concretas. Entretanto, “o sonhador não consegue sonhar diante de um espelho que não seja profundo” (BACHELARD, apud CARUSO; FREITAS, 2003, p. 4). Nesse sentido, é tarefa da pedagogia pensar a profundidade desse espelho, como apontam Caruso & Freitas (2003):

É fundamental que seja o educador a dar profundidade a esse espelho, através de sua própria imagem, reflexo de um conjunto de valores e saberes adquiridos. É ele que motivará seus alunos a sonharem, sob pena de levá-los à frieza da incredulidade. Sua postura diante da vida – da própria vida e da vida dos outros – é determinante (CARUSO; FREITAS, 2003, p. 4).


Referências Bibliográficas


BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. In: ______. Filosofia do não; O novo espírito científico; A poética do espaço. Trad. Antônio da Costa Leal e Lídia do Vale Santos Leal. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1978, p. 181-354.
______. A poética do devaneio. Trad. Antonio de Párdua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
______. O direito de sonhar. Trad. José Américo Motta Pessanha et al. São Paulo: DIFEL, 1985.
CARUSO, Francisco; FREITAS, Maria Cristina Silveira. Educar é fazer sonhar. In: Centro de Brasileiro de Pesquisas Físicas / CBPF-CS-009/03. Disponível em: < http://cbpfindex.cbpf.br/publication_pdfs/cs00903.2006_12_08_10_36_41.pdf.> Acesso em: 04/02/2007.
RODRIGUES, Victor Hugo Guimarães. Gaston Bachelard e a sedução poética: a criação de um filosofar onírico. In: Revista Eletrônica Mestrado em Educação Ambiental. v. 15, julho a dezembro de 2005. Disponível em: <http://www.remea.furg.br/edicoes/vol15/art05.pdf.> Acesso em: 05/02/2007.
PESSANHA, José Américo Motta. Bachelard: as asas da imaginação (Introdução). In: BACHELARD, Gaston. O direito de sonhar. Trad. José Américo Motta Pessanha et al. São Paulo: DIFEL, 1985.

Nota:
[1] Fundamentação teórica contemplada durante o Mestrado em Educação (PPGEd / UFRN), pertinente a trabalho apresentado no 18 EPENN, sob a orientação do Prof. Dr. Antonio Basílio Novaes Thomaz de Menezes:
FERNANDES, Hercília M.; MENEZES, A. B. N. T. de . Cecília Meireles e o fenômeno criador: reflexões para a lírica pedagógica à luz de Bachelard. In: 18 EPENN - Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste. Maceió, 2007.

domingo, 19 de abril de 2009

ROMÉRIO RÔMULO: o cantador de mistérios em Vila Rica


Vila Rica, pintura do alemão Johann Moritz Rugendas

.........eu faço poesia
..............porque a vida não basta
...................e preciso dividir mistérios
...

Estes são os versos iniciais do poema Para Renata do poeta mineiro Romério Rômulo.

O artista e educador Romério Rômulo é natural de Felixlândia-MG e reside na histórica cidade de Ouro Preto-MG, onde atua como professor de Economia Política na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

A sua trajetória literária comporta várias publicações em livro, destacando-se as obras: Só pedras no caminho pedras pedras só pedras nada mais (Lemi, BH, 1979); Anjo Tardio (Edição do Autor, Ouro Preto, 1983); Bené para Flauta e Murilo (Edições Dubolso, Sabará, 1990) e Tempo Quando (Dubolso, 1996). Também consta em sua trajetória literária o Prefácio da primeira edição assinada das poesias eróticas de Bernardo Guimarães, “O Elixir do Pajé” (Dubolso, 1988) e a sua efetiva colaboração na fundação do Instituto Cultural Carlos Scliar.

Na web, o poeta difunde as suas linhas poéticas no blog Romério Rômulo e, atualmente, dedica-se ao lançamento do livro Per Augusto & Machina, que será publicado, ainda neste semestre de 2009, pela editora Altana.

A poesia de Romério Rômulo trafega o universo dos sonhos e da materialidade, daquilo que é, simultaneamente, imaterial e palpável na palavra, na arte e existência humana. Através de inquietações, reflexões profundas e buscas por sentidos, o poeta voa os labirintos do devaneio poético e da universalidade, onde delineia o próprio reconhecimento e, concomitantemente, a sua identidade histórica.

Em entrevista concedida ao Novidades & Velharias[1], Romério Rômulo expõe as suas concepções acerca de homem comum e poeta, explicitando quando e como lhe ocorreu a descoberta da poesia e a consciência artística, atestando que no princípio da carreira sentia-se um poeta maldito, um Baudelaire, algo assim. Esclarece, também, os motivos que perpassam suas linhas poéticas, as influências culturais e literárias da antiga Vila Rica, onde acena que por vezes se considera um personagem do século 18, e que não há em sua poesia rupturas claras com o passado, o que leva-o a beber nas águas dos poetas da Inconfidência.

Acerca dos mistérios intrínsecos à poesia, à atividade do poeta e a relevância da experiência poética para a existência humana, Romério Rômulo elucida que os mistérios são as não-respostas, os avessos e até os direitos não compreendidos e que compartilhar os mistérios da vida não é a única razão da poesia, mas é, certamente, uma delas.

Além de questões conceituais e a trajetória criadora do artista, o poeta mineiro reflete alguns elementos imbricados em poemas como Para Renata, Uma bravura regenera a noite, Cândidos, um sopro; e, apresenta as linhas gerais de seu novo trabalho poético: Per Augusto & Machina. Sobre o seu novo livro, o poeta elucida as relações entre nuvens e materialidade corpórea, onde acena que o mundo transita entre o fluido e o palpável.

No café literário virtual foram debatidas, também, questões relacionadas à literatura na Blogosfera e à receptividade literária pelo meio acadêmico-científico da literatura veiculada na Web. No tocante à aceitação de sua poesia veiculada no universo virtual, Romério alude que o meio acadêmico-científico do campo literário parece se entender comigo. Entretanto, alerta que na Internet há blogs e blogs, e que o dele consiste um puxadinho. O do Nassif, um latifúndio[2].

Ademais, Romério Rômulo apresenta, em breve palavras, as suas convicções teóricas e artísticas, explicitando as suas preferências e referências literárias. Passemos, então, à voz do poeta e os mistérios de sua criação poética:


Entrevista com ROMÉRIO RÔMULO


Novidades & Velharias: Romério Rômulo, como você compreende o “Romério Poeta” e o “Romério homem comum”? Há diferenciações entre o “sonhador” e o homem das atividades “diurnas” voltadas para a educação? Quando você se reconheceu poeta? Houve uma ocasião específica que favoreceu a esse descobrimento? Descreva um pouco de sua trajetória literária e produção em livros.

Romério Rômulo: Poeta e homem comum são faces de um mesmo homem. Transitam e transitaram pelos mesmos caminhos. As diferenças só acontecem na externalização dos assuntos. Eu me reconheci poeta aos 16 anos, embora tenha escrito o primeiro poema aos 9. Então, comecei a produzir em grande quantidade. Ficava a pergunta: "tem valor?". Aí dependemos do outro, dos outros, que vão contribuir nesta montagem de opinião. Várias rupturas ajudaram no descobrimento. De início, me sentia um poeta maldito, um Baudelaire, algo assim. Caminhei impregnado também pelo Augusto dos Anjos, que sempre esteve na contra-mão da vida e da linguagem. O primeiro livro, "pedras no caminho", 1979, tem essas marcas. A Laís Corrêa de Araújo e o Affonso Ávila, a quem conheci em 1982, se interessaram por mim. Ela, com uma coluna semanal no "Estado de Minas", comentou da força do trabalho. Pra mim, um reconhecimento. O Drummond, o Armindo Trevisan e outros também já tinham se manifestado e reforçavam as minhas energias. Morei no Rio de Janeiro, de 1980 à parte de 1982, e o trabalho deu uma guinada. A cidade grande influenciou claramente. Saiu um livro, "anjo tardio", publicado em 1983, com outra embocadura. Elegíaco, nerudiano. Mulher, tempo, poeta e poesia como preocupações centrais. Mas algo da terra, do sertão de origem, já se mostrou ali. Sou encantado com os meus amigos e escrevo sempre sobre e para eles. Perguntado da utilidade da poesia, já respondi: "serve para falar sobre os amigos". Reuni um grupo de poemas sobre amigos, conhecidos ou não, que eles não se encontram obrigatoriamente no nosso cotidiano, ou nós os descobrimos amigos depois que morreram. Em 1986, saiu o "amigos & amigos". Pela ocasião, conheci o Tião Nunes e começamos a trabalhar algumas coisas juntos. Editamos "o elixir do pajé" do Bernardo Guimarães, edição que teve impacto, na medida em que poesia causa impacto. Esta edição, com prefácio meu, continua a ser comentada por aí. Agucei a embocadura, como deve ser, e saltei à terra. “Bené para flauta e Murilo", 1990, e a caixa com 4 livros em 2 volumes, "tempo quando", 1996, mostram isso. Na segunda metade dos anos 80 me tornei grande amigo do manuelzão, o que reforçou a postura da terra. A amizade com o Carlos Scliar também teve um peso definitivo: o homem político pisou mais no meu trabalho, dos anos 80 em diante. Fiquei 10 anos sem publicar um livro, mas escrevendo muito. Em 2006 saiu um dos resultados disso, o "matéria bruta", pela editora Altana / SP. Daí vem ainda a maior parte do "per augusto & machina", já em processo de planificação visual para publicação.

Novidades & Velharias: Você reside em Ouro Preto, cidade que comporta, em grande medida, boa parte do legado cultural brasileiro de ideais, conhecimentos, artes, historicidade. De que modo as riquezas e ruínas de um passado histórico perpassam as suas linhas? A tradição literária - artística, filosófica, política de um modo geral -, consiste objeto de exploração em sua poesia? Ou, você busca estabelecer rupturas com as heranças literárias oriundas da antiga Vila Rica? Como você relaciona “tradição” e “descontinuidade” em sua poesia?

Romério Rômulo: Ouro Preto se tornou uma marca. Por vezes, me considero um personagem do século 18. Há 4 anos moro em Ouro Preto e no Rio, muito mais em Ouro Preto. As minhas reservas estão, predominantemente, aqui. Não tenho rupturas claras com o passado e bebo nas águas dos poetas da Inconfidência. Me nutro neles, me nutro na cidade que segue com aquelas marcas trazidas pra hoje. Parte do "per augusto & machina", uma segunda parte, são poemas sobre Ouro Preto, com as pontes, gonzagas, marílias, cláudios, escravos e outras evidências. O ouro diabólico dos séculos 18 /19 dito nos 20 /21.

Novidades & Velharias: Você dispõe de um blog na Internet, cujo espaço apresenta-se bastante visitado. Nele, o leitor pode beber um pouco de seu manancial criador. Mas, tratando, especificamente, do poema “Para Renata”, disponível em seu espaço virtual, percebe-se a existência de uma explicação do ato poético, sobretudo nos versos iniciais: “eu faço poesia / porque a vida não basta / e preciso dividir mistérios”. O que é dividir mistérios? Compartilhar as obscuridades dos fenômenos consiste função da poesia, portando tarefa do poeta?

Romério Rômulo: Falei da importância dos amigos na minha vida e na minha poesia. A Renata é a poeta Renata Nassif, casada com o Luis Nassif, jornalista, músico e mais um monte de coisas. Ele é dessas pessoas com quem você se assenta para aprender. Tive uma aproximação com a Renata e ele, inicialmente pela internet, que se fortaleceu. A Renata, senhora das forças internáuticas, entendeu que eu deveria ter um blog. A contragosto, no início, encarei. Mas, ela é que faz acontecer. Não conheço o assunto e o blog se assenta em São Paulo. Na verdade, se assenta no computador que a Renata manusear. E os mistérios da construção poética, eu os divido primeiramente com ela. Quando fiz este poema, estava evidente a quem deveria ser dedicado. Estes mistérios são as não-respostas, os avessos e até os direitos não compreendidos. Dividi-los não é a única razão da poesia, mas é, certamente, uma delas.

Novidades & Velharias: Ainda falando de “Para Renata”, o poema, além de lançar imagens poéticas em expressões como “mel da manhã” / “fel em mim” / “hiato das pontes”, realiza um fazer metalingüístico quando propõe refletir/questionar o ato criador e suas influências sob a linguagem e vida humana. E, em meio ao desenrolar de afirmações e questionamentos, o eu-lírico indaga-se: “quando os solavancos da palavra / vão redimir meu corpo?”. Você já encontrou respostas para esse questionamento? Ou, contrariamente, esse processo envolve um quefazer contínuo de buscas, inquietações e ressignificações? A palavra poética, ou as sensações que lhes são intrínsecas, é capaz de transformar a existência humana?

Romério Rômulo: A poesia não carrega respostas. A coisa é um amontoado de dúvidas, afirmações cheias de dúvidas, perguntas sobre as afirmações e sobre as dúvidas. Os solavancos das palavras são os "motores", os motivadores. O ser humano opera a transformação da existência humana e a poesia tem uma pequena participação nisso.

Novidades & Velharias: Tratando de buscas e inquietações, é perceptível em sua poesia a presença de profundos questionamentos associados a reflexões existenciais e filosóficas. No texto “Uma bravura regenera a noite”, a voz poética questiona: “de quantas nuvens se faz uma loucura? / é construída a mão que bate o prego?”. Para você, o ato poético configura um instante de loucura? Em que medida a racionalidade permeia o instante criador? Há sistematicidade no voo poético, levando em conta a “manualidade” que envolve o ofício do artista em materializar imagens poéticas através da linguagem?

Romério Rômulo: Este é o nó do processo criativo. O criador, ou criativo, é aquele que foge do tom, que surpreende. Então, a loucura é um dado. Mas, e se eu consigo organizar essa loucura? O Oscar Niemeyer não organiza, faz prédios e cidades? Parece um contra-senso, um absurdo, e é. Mas, é real. Daí termos situações como o Rimbaud, que aos 19 anos se sentiu esgotado, ou o Niemeyer que, centenário, continua operando. Mananciais e construções, no caso, são diversos. Tumulto e racionalidade, aqui, são íntimos.

Novidades & Velharias: Ainda explorando “Uma bravura regenera a noite”, vislumbra-se, a partir de um caminho de leitura adotado, um verso e/ou frase dominante que compõe “construção chave” para leitura e entendimento das outras atmosferas poéticas, qual seja: “hábito eloqüente do delírio”; que se complementa com o último verso composto em frase exclamativa: “quanta eloqüência travada no meu olho!”. Em sentido dicionarizado, eloqüência significa faculdade de expressão, ato de persuadir por meio da palavra; que, na antiguidade grego-romana, consistia um dos objetivos da educação. No sentido filosófico do termo, a palavra associa-se a retórica, a capacidade de expressar bem o conhecimento instituído. Assim, de que maneira a eloqüência torna-se delírio / e o delírio em eloqüência? Quando o homem racionaliza, tornando hábito, até mesmo a loucura? Ou essa operacionalidade condiz apenas aos artistas que, por domínios específicos de criação, são capazes de transformar os desvarios em arte?

Romério Rômulo: Esta pergunta é braba e tenho muitas dúvidas ao respondê-la. O "hábito eloquente do delírio" faz parte de mim e do meu cotidiano. Professores da universidade costumam me enxergar em doideira permanente. Com uma não-aceitação como consequência. O que faço? Por vezes, aguço mais as situações, pois não cabe recuo. Se esta operacionalidade só condiz com os artistas, não estou certo. Mas estou certo que ela condiz mais com eles. Uma conversa minha com artistas amigos meus, se dada a público, pode sugerir algum tratamento psiquiátrico. E vamos em frente, que o assunto é por aí.

Novidades & Velharias: Relações entre nuvens e materialidade corpórea são identificáveis em seus poemas, conforme se podem ler nos textos já citados e em “Cândidos, um sopro”; através do verso: “meu corpo traz uma equação de nuvem”. Fale-nos um pouco sobre essas associações e como elas se organizam em seu novo livro Per Augusto & Machina, que será lançado, brevemente, pela editora Altana. Fale um pouco sobre o Per Augusto e Machina; acenando, inclusive, para o sentido e escolha do título.

Romério Rômulo: "Meu corpo traz uma equação de nuvens". O mundo transita entre o fluido e o palpável. Daí, o desdobramento na poesia. Na primeira resposta, citei o "Per augusto & machina" e a sua origem, seqüência do "matéria bruta". O estado continua. O título vem desse poema de abertura: "augusto e máquina se arranham na última dose atormentada do corpo. A válvula é entranha. Até a amargura é mutilada". O "augusto" é o Augusto dos Anjos, de quem procuro seguir a trilha em boa parte do livro.

Novidades & Velharias: A internet tem permitido uma maior interação entre autores, textos e leitores. Possibilitando que os desconhecidos saiam de suas tocas e os textos das mesas e escrivaninhas. Entretanto, apesar da crescente criação literária e trocas de saberes e poéticas entre autores blogueiros e leitores, percebe-se que a poesia na Web, sobretudo a apresentada em blogs, ainda não é devidamente bem quista no meio acadêmico-científico. Como você compreende essa realidade? A literatura, particularmente a poesia, na Web veio para ficar; isto é, tende a se legitimar junto aos críticos, acadêmicos e leitores comuns? Ou, contrariamente, não há (boa?) literatura na virtualidade, portanto ela tenderá ao desaparecimento junto a velocidade e transitoriedade da comunicação virtual?

Romério Rômulo: O meio acadêmico-científico do campo literário parece se entender comigo. Há estudos, publicações e convites que mostram isso. Claro que se dá com a linguagem própria do meio, mas eu não me abalo. Na web temos um vale-tudo. São muitas as manifestações em todas as áreas e cabe uma avaliação. Autores canônicos, já estabelecidos, também se apresentam aí. É espaço aberto. No dia em que o Luis Nassif publica um poema meu no blog dele, tenho mais leitores do que tive em todos os meus livros. E o que não me ler ali, pelo menos vislumbra o nome. Há blogs e blogs. O meu é um puxadinho. O do Nassif, um latifúndio. A literatura na web é definitiva. Quando apareceu a possibilidade da impressão em larga escala, também se falou em perda de qualidade, em desaparecimento. Se deu o contrário: fortaleceu. Com a web o fato vai se repetir, renovado e amplamente multiplicado. Como é de se esperar.

Novidades & Velharias: Romério Rômulo, o Novidades & Velharias, a fim de promover um maior conhecimento de seu universo criativo, preferências e concepções, lhe propõe um pequeno pinque-ponque. Apresente em breves palavras as suas idéias e gostos sobre:

Poesia

R. R.:

poesia é som
que faz um ar qualquer
se estremecer.
é choque
que retoca a posição
tomada.
pode ser grito
pode ser dor
pode ser merda
desde que estremeça.
mas, nem por isso
um terremoto qualquer
será poesia.

(Pedras no caminho, Romério Rômulo, 1979)

Poeta

R. R.: “Um homem que sente fome como qualquer outro homem” (Romério Rômulo).

Poema

R. R.: “O solto, o desastre, o aço preso no corpo, em pétalas e mãos, estardalhaço" (Matéria bruta, Romério Rômulo, 2006).

Livro

R. R.: Cito 3: "Os sertões", "Vidas secas", "Grande sertão: veredas".

Cidade

R. R.: Ouro Preto e Rio de Janeiro, minhas casas.

Citação

R. R.: São muitas. Não destaco uma. Mas, me lembrei de um verso do João Cabral: "um galo sozinho não tece uma manhã".

Clássico da literatura universal

R. R.: Dostoievski.

Imortal brasileiro

R. R.: Graciliano Ramos.

Poeta contemporâneo

R. R.: 3 vivos, em ordem alfabética: Affonso Ávila, Augusto de Campos, Ferreira Gullar.

Blog

R. R.: Blog do Luis Nassif.

Novidades & Velharias: O Novidades & Velharias agradece a sua franca disponibilidade em participar desse “Café literário virtual”, e abre-lhe o espaço para que possa dirigir as suas palavras finais aos leitores.

Romério Rômulo: Um grande abraço.


Poemas de Romério Rômulo[3]

Antiga Vila Rica


Para Renata


eu faço poesia
porque a vida não basta
e preciso dividir mistérios.
incertos, os marimbondos vazios
me arrastam pela tarde.
o mel da manhã, fel em mim,
entope minhas veias.


quando os solavancos da palavra
vão redimir meu corpo?
quanto de mim é fogo
e terra?
sobram o hiato das pontes, os rios
degenerados. minha manhã dura
só faz o recomeço das coisas.


Uma bravura regenera a noite


...............de quantas nuvens se faz uma loucura?
...............é construída a mão que bate o prego?
...............as estações do corpo só revelam
...............o hábito eloqüente do delírio.
...............que nos corroa a pedra, o visgo louco
...............da agonia!


...............desmonte do tamanho, o extirpado dente,
...............gengiva em sangue são a mesma face
...............do hábito terrível de ser homem.
...............quanta eloqüência travada no meu olho!


Cândidos, um sopro


.....................................meu corpo traz uma equação de nuvem.
.....................................pobres resgatados, desmorados, osso e braço
.....................................rezam no ar de penitência suas águas.
.....................................proprietários do sobrado, pouco lhes resta.
.....................................de tempo, arreganham dentes de uma fome sólida.
.....................................ralos de feijão, seus corpos sabem o horizonte da terra.
.....................................escaldados, cândidos, um sopro.



Notas:


[1] A entrevista fora viabilizada através de correspondências de e-mails entre Hercília Fernandes (Caicó-RN) e o poeta e educador Romério Rômulo (Ouro Preto-MG). A fim de composição da matéria, o autor recebeu um questionário contendo questões abertas e contextualizadas, cujos objetivos consistiram em favorecer o conhecimento de sua trajetória artística e universo de criação, bem como o entendimento de elementos intrínsecos ao fenômeno criador e à atividade poética.

[2] Blog do jornalista e músico Luis Nassif: Luis Nassif Online.

[3] Os poemas Para Renata, Uma bravura regenera a noite e Cândidos, um sopro foram mencionados no decorrer da entrevista e serviram como pontos de partida para construção das questões apresentadas no Café literário virtual.