domingo, 17 de agosto de 2008

Seleta de Poemas: "Vozes Femininas na Blogosfera"



O Novidades & Velharias, iniciando o quadro Vozes Femininas na Blogosfera, traz a poética de algumas das poetisas que vem se destacando na Internet com suas percepções apuradas, imagens e canções.
Nesta seleta de poemas, o blog destaca o trabalho das autoras Bina Goldrajch, Bianca Feijó, Dyane Priscila e Taninha Nascimento.
As autoras e textos estão organizados mediante a ordem alfabética dos seus nomes, acompanhando breve descrição dos seus dizeres femininos e endereços eletrônicos dos espaços. Passemos às suas vozes líricas:


Bina Goldrajch: Sensível e versátil, a poetisa Bina Goldrajch manuseia, com maestria, a linguagem e expõe as sensações do eu-poético, sejam metafísicas ou carnais. Às vezes certo descontentamento e/ou pessimismo - diga-se não sufocante! - perpassa suas linhas, denunciando o estranhamento do homem pós-moderno nessa nova ordem de coisas. Escreve no blog “Deglutição de pensamentos” (http://degluticaodepensamentos.blogspot.com/), onde se encontram formas líricas e narrativas bem elaboradas.

Violenta
Vinha
lenta
lenta
lenta,
a calmaria.

Via,
lenta
lenta
lenta,
a estrada fria.

A inércia, antes, me aprazia,
agora anseio ventania.

Venta
lenta
lenta
lenta...

Fui e me esqueci:
volto algum dia.




Bianca Feijó: Escritora reflexiva e inspirada, Bianca Feijó expande, em sua bela prosa-poética, a inquietação filosófica, muito embora se recuse a tal experiência, já que “não filosofa, tem sentidos”... A belíssima poetisa publica seus genuínos e elevados pensamentos no blog “Bianca Feijó” (http://www.biancafeijo.blogspot.com/), em seu espaço encontramos formas líricas em escritas, sensivelmente, construídas.


Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me comove.
Lembro-me que viver ou morrer são classificações como animais ou vegetais que tenham seu normal ou mais freqüente meio de vida. Apenas faço parte das coisas.
Aceito as dificuldades da vida porque fazem parte do destino – e acredito que sem elas não haveria propósito. Se me queixo?
Sim, me queixo como quem meramente aceita, e encontra uma alegria no fato de aceitar. É difícil tanto quanto sublime aceitar o natural inevitável.
Sei que o mundo existe, só não sei se eu existo.
Estou mais certa da existência da minha casa na praia do que a existência da dona da casa na praia.
Só sei que a vida passa e não estamos com nossas mãos enlaçadas.
Tudo que existe simplesmente existe, é uma velhice que nos acompanha desde a infância.
A realidade não é uma idéia minha, a minha idéia de realidade é que é uma idéia minha.
Por que será que Deus quis que não o conhecêssemos?
Eu não sou filosófica: tenho sentidos...
Se falo de coisa não é porque sei o que é coisa, mas porque a amo, e amo por isso. Porque quem ama nunca sabe o que ama, nem por que ama, nem o que é amar. Amar é a eterna inocência.
E, ao lerem meus textos – pensem que sou qualquer coisa.





Dyane Priscila: Jovem e apaixonadamente poética, Dyane Priscila escreve linhas sensuais e reflexivas. Há, em sua lira, a expressão delicada e profunda dos sentimentos e impressões do eu-lírico e as indagações dos valores humanos. Expande a sua sensibilidade feminina no espaço “Quimeras de mulher” (http://dyanepriscila.blogspot.com/), com critério e beleza.


Perdida nesta imensa multidão,
estou eu e meus sonhos,
estou eu e meus medos,
estou eu e minhas recordações.
Dentro desta multidão,
estou eu; e eu.
Vejo tantas faces,
olhares,
e nada sei.
Apenas imagino,
que em cada rosto que deparo em meu caminho,
há sonhos como os meus,
há medos como os meus,
há recordações como as minhas,
e neste oceano de gente,
almas, corpos. Inerentes.
Uma vontade imensa,
de realizar as proezas,
prometidas,
nas utopias criadas,
dia após dia.
E nesta imensidão,
de vida e morte,
se existe sorte,
ela escolhe apenas um.





Taninha Nascimento: Delicada e sensorialmente intuitiva, Taninha Nascimento traduz, em versos simples e profundos, o desejo pleno da liberdade e a busca pela desfragmentação do eu-lírico. Sua poesia é ardente e vibrante, traz à superfície um otimismo generoso em relação aos fatos da existência, muito embora denuncie, poeticamente, a não-plenitude do ser e o seu contínuo renascimento, como uma Fênix. Em seu blog “No rastro da poesia” (http://norastrodapoesia.blogspot.com/), o leitor encontra poemas, prosas e também a difusão de autores e textos que a sensibilizam.



Falas, então, de cores?
dores?
dissabores?
Você é preto
ou é branco.
Falas de temores?
horrores?
amores?
Eu... perto.
Você... longe.
Fizeste-me pó.
E eu - apenas -
era cinza.




Nota: O quadro “Vozes Femininas na Blogosfera” será permanente. As poetisas interessadas numa possível participação in matéria, poderão estabelecer um contato prévio com a editora deste blog: Hercília Fernandes.

terça-feira, 17 de junho de 2008

A LITERATURA INFANTIL ATRAVÉS DOS TEMPOS (Parte I)



A Literatura Infantil, como produto histórico humano, resulta das relações subjetivas e objetivas que o homem estabelece com o seu meio social, cultural, intelectual, lingüístico, político e econômico. Com as concepções que o artista compartilha acerca do mundo / homem / sociedade, com os ideais e valores que se consideram úteis e desejáveis para transmitir às crianças e aos jovens. Por isso, a produção literária infantil é resultante, também, dos aspectos filosóficos – políticos - educacionais e da qualidade da educação ofertada numa dada época e contexto sócio-histórico.
Nesse sentido, o estudo A literatura infantil através dos tempos, dividido aqui em seis partes, realiza um percurso histórico à Literatura Infantil - da gênese aos dias atuais - numa abordagem histórico-cultural; pontuando fatos, valores, paradigmas, intencionalidades pedagógicas, funcionalidades sociais, autores e obras.
Para tal feito, o trabalho contempla as frentes de leitura: origem e evolução histórica da Literatura Infantil a partir dos estudos oferecidos pela crítica e historiadora Nelly Novaes Coelho (1983, 1991, 2003) e demais estudiosos como Magnani (1989) e Regina Zilberman (2003); fundamentos filosófico-educacionais na literatura infantil tendo como base as pesquisas feitas por Ariès (1978), Alessandra Arce (2002) e Carlota Boto (2002); e valores ideológicos na literatura infantil a partir da parceria com a pedagogia, considerando as mudanças de paradigmas provocadas pelas conquistas da ciência, dentre eles o discurso médico-higienista sob a educação e, conseqüentemente, sob a produção literária infantil (COELHO 1991; GONDRA 2002, 2004). A partir da adoção dessas categorias analíticas busca-se focalizar a Literatura Infantil como expressão artística e sócio-histórica, portanto um fenômeno contínuo humano, ou melhor, atividade inacabável:
– “Era uma vez”...


1 QUANDO TUDO COMEÇOU... GÊNESE DA LITERATURA INFANTIL[1]

1.1 A Literatura Primordial

A história da Literatura Infantil integra o percurso histórico da Literatura Geral, já que as primeiras narrativas eram contadas, indiscriminavelmente, para “adultos” e “crianças”. A chamada literatura clássica - as novelísticas medievais, antecedentes da Literatura Infantil -, é de origem indo-européia, de fontes orais vindas da Índia que se estenderam pela Europa.
Consiste em uma “Literatura Primordial” oriunda do Oriente, da chamada Literatura Popular, ligada a eventos espirituais, míticos e fantasiosos que perduram na memória do povo; talvez porque: “O impulso de contar estórias deve ter nascido no homem no momento em que ele sentiu a necessidade de comunicar aos outros certa experiência sua, que poderia ter significação para outros (COELHO, 1991, p. 13)[2].
Dessa literatura primordial surgem as narrativas medievais arcaicas que se estendem pela Europa e América, se transformando em Literatura Folclórica e Infantil. A Literatura de Cordel, pertinente ao folclore nordestino brasileiro, consiste em versões dessas narrativas. Já a literatura Infantil tem origem nos registros feitos por escritores cultos, dentre eles Perrault e os Irmãos Grimm.
Os principais valores ideológicos dessas primeiras narrativas eram: hierarquia social mediante “a lei do mais forte”; reprodução, conservação do passado, e, transmissão de ensinamentos edificantes (Hitopadesa - modelos de moral voltados ao respeito ao próximo e a constituição da aristocracia primitiva).
Algumas narrativas: Calila e Dima (Índia, Séc. V a.C); Sendebar (Índia, s/d); Barlaam e Josafart (novelística mística/versão grega, Séc. VIII); As mil e uma noites (Contos orientais/versão européia datada do Séc. XV ou XVI).


1.2 A Era das “sombras”... A Literatura Medieval

A literatura medieval fora marcada por contradições, já que, no período que compreende a Idade Média (Séc. V ao XV), se evidenciam traços antagônicos de violência, lutas pela hegemonia do poder, conquistas e dominações entre povos, cristianismo, luxúria e moral ascética. No entanto, fora responsável, mesmo que lentamente, por preparar terreno à Idade Moderna, assim diz Coelho (1991, pp. 32-33):

Nesses dez séculos medievais realiza-se o longo e complexo processo histórico-cultural que prepara a Idade Moderna, durante o qual [...] se foram fundindo (aquecidos pelo fogo espiritual cristão): a vitalidade rude, a violência instintiva e o sangue novo-primitivo dos bárbaros com os valores civilizadores da Antigüidade Clássica grego-romana [...] que haviam permanecido nos conventos, sob a guarda dos primitivos monges padres da Igreja.

A Literatura medieval surge na Europa por meio de duas fontes: a Popular – prosa “exemplar” vinda do Oriente -; e, a Culta – prosas aventurescas das novelas de cavalaria. Na Literatura Popular destaca-se o idealismo e a visão de um mundo de magias e maravilhas. Na Culta, os problemas da vida cotidiana, os valores ético-sociais e as lições advindas da sabedoria prática.
Características das narrativas: Os contos de fadas destacam-se pelo “simbolismo” e retratam as violências às crianças e às mulheres, os assassinatos e as práticas de canibalismo; a fome e a miséria que levam os pais a abandonarem os filhos na floresta, e os homens a matarem as esposas para se casar com as filhas (WALKENAER, apud COELHO, 1991, pp. 33-34).
Algumas narrativas desse período: Os Isopets – O Romance da Raposa (fábulas baseadas nas traduções de Fedro acerca de Esopo e se expande na Europa no Séc. X); Disciplinas Clericalis (Pedro Alfonso) contêm conselhos morais de um pai ao filho, reforçando provérbios e sentenças; O livro de exemplos (Clemente Sanchez, séc. XIV), coleção de mais de trezentos contos de caráter moralizante, sentencioso e doutrinário, usado por pregadores cristãos; O livro de Esopo (circulou na Europa, em manuscrito, por volta do Séc. XV). A versão portuguesa apresenta um Esopo cristianizado e moralizante.
As Novelas de Cavalaria, criadas da forma Culta, em versos no Ocidente, dão origens aos contos populares, sobretudo no Nordeste brasileiro, e tratam dos grandes feitos heróicos. O Decameron (Boccaccio), prosa ficcional, realista e bem humorada, limita o fim da Idade Média e início do Renascimento. Em O Decameron encontram-se os valores contraditórios de uma época: amor cortês; luxúria; asceticismo religioso; valorização ao cristianismo; desonestidades e falsidades; astúcias e luxúria da mulher.



Notas:

[1] Trabalho apresentado pela professora Doutoranda, Mestra em Educação e Especialista em Educação Infantil, Hercília Maria Fernandes à Banca de Professores Examinadores no Concurso para Professor Substituto (2008.1), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em 29 de Janeiro de 2008, durante o processo seletivo para concorrer a cadeira de professor da disciplina Literatura Infantil no curso de Pedagogia/UFRN/CERES/Campus de Caicó-RN.
[2] Todas as referências bibliográficas, citadas no curso das seis partes que integram este estudo, encontram-se presentes no término de: "A Literatura Infantil na Atualidade (Parte VI)". Disponível em: http://novidadesevelharias-fernandeshercilia.blogspot.com/2008/06/literatura-infantil-atravs-dos-tempos.html