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domingo, 21 de março de 2010

Lou Vilela, a mensageira do vento


Lou Vilela, natalense de origem e residente na cidade do Recife-PE, é uma poeta de grande sensibilidade imagística e habilidade semântica. Posta, regularmente, poemas e breves textos em prosa em seu espaço virtual Nudez poética, direcionado à acepção literária adulta. E desenvolve, na Blogosfera, um trabalho voltado ao leitor infanto-juvenil, especialmente às crianças, no blog Ritmos e rimas. Vejamos alguns traços de sua poesia.

Uma das qualidades da voz poética de Lou Vilela é a expansão - em versos oníricos, breves e musicais -, de temáticas profundas e ambíguas. A poeta, fazendo da “pena moinho”, anuncia/denuncia a vida das “gentes esquecidas” espalhadas à margem do tecido social. Nordestinos, mulheres, crianças são protagonistas em seus versos, oferece voz a grupos considerados “minorias”; muitas vezes expostos a múltiplas violências nas práticas sociais cotidianas.

Algumas dessas qualidades podem ser apreciadas nos versos de Simbiose e Um conto sem réis. Leiamos os poemas:


em terra seca

de ninguém

sou nada


imprescindo d’água

e na face inundada

provo das gentes


meu sertão..., mal cabe na garganta:

as gentes, escorrem-me pelos dedos


***


Naquele pardieiro

ecos paredes rachadas

de risos de bocas

esfomeadas

vazamentos incontidos

profundo (a)mar


Os poemas de Lou Vilela, além de profundidade temática, contêm intensidade lírica e apresentam belas imagens femininas associadas a contextualizações, metalinguagens, ambiguidades e sinestesias várias. Onde transbordam, em versos sugestivos e sensuais, frescores que alagam/alargam sentidos. Sensações que se podem experimentar a partir de os versos de Reflexos:


é esse teu olhar invasivo

que atordoa...


essa tua tatuagem olfativa

que embriaga...


tuas unhas que marcam,

tua saliva que cura.


são os teus trejeitos que ins.piro,

os teus trajetos que invado

entre mentes dentes dedos e falo.


enquanto transbordas

me alago.


No tocante à poesia infantil, a voz de Lou Vilela desenvolve temas como a dor, a perda e a morte; o cotidiano das crianças com suas brincadeiras, jogos e linguagens; a natureza e a temática animal; além de assuntos pertinentes à vida de um ser em desenvolvimento, como a alimentação.

Por meio do jogo e do ludismo, da imagística, da simplicidade na linguagem, da rima e figuras sonoras, a poetisa expande valores que se apresentam coerentes a um leitor em formação; e convida a criança a adentrar no mundo das letras, da imaginação e a construir conceitos.

Através do sentir/fazer poético, Lou Vilela propõe jogos de linguagem e desafios semânticos que contribuem para inquietar e remeter os leitores à plurissignificação textual; promovendo a construção de sentidos através do desvendar de pistas, combinações, sugestões de signos e imagens.

A sua poesia infantil oferece espaço para a livre significação, o que demonstra o respeito da autora às especificidades e à imaginação da criança; apresentando-lhes temas que, sem imposições moralísticas, portam consistência nos conteúdos de mensagem que, poeticamente, levam à reflexão das coisas existentes na natureza física e social-humana.

Leiamos mais dois poemas de Lou Vilela. Neles, a poetisa sopra belas imagens ligadas à natureza e se apresenta à criança - também ao leitor adulto - como "mensageira do vento"; anunciando a função da poesia e do poeta. E, posteriormente, convida o leitor a pensar a morte e a perda, valores que perpassam a vida humana:



Mensageiro dos ventos


vem pulsar uma viola sob

noite enluarada,

ouvir grilos, vagar lume?


há dias em que até as pedras

cantam poemas: a natureza

explode em exuberância!


e o poeta (in)venta

: faz da pena um moinho










Vovô em cena

A Gabriel, in memoriam.


O vovô de Iago,

Mateus e Aninha

fechou os olhinhos,

esqueceu a idade:


partiu sem adeus,

sem mochila...

na hora de fazer

traquinagem.


No céu uma estrela

que brilha e acena.

Sorrindo, encena

deixando saudades







Notas:


*Texto postado em 14 de março de 2010, no blog Maria Clara: simples mente poesia, em homenagem a “data natalícia da autora” que coincide com o “dia nacional da Poesia”.

**Imagens: Catavento, de Luciana Teruz (Brasil, 1961); Céu estrelado, de Douglas Soares, 2007.


segunda-feira, 8 de março de 2010

Maria Clara: uniVersos femininos

Uma página na historiografia das mulheres



Por que a ciência nos é inútil?
Porque somos excluídas dos encargos públicos.
E por que somos excluídas dos cargos públicos?
Porque não temos ciência.
Nísia Floresta.

No meio literário e acadêmico muito se discute sobre a existência de um eu-lírico feminino, particularmente na poesia.
Alguns defendem que não se pode realizar uma definição, posto que o que se considera “voz feminina” não é a escrita como produto de um sexo ou de outro, mas a evidência de alguns elementos de composição, dentre eles a pausa e o silêncio, a subjetividade e a introspecção, a intensidade emotiva, a imagística e o mistério..., atributos próprios do lirismo feminino.
Todavia, mesmo que se considere que alguns traços do lirismo feminino possam também povoar o imaginário poético masculino, onde se podem vislumbrá-los na poesia contemporânea, como na produção poética de Fred Matos, do blog Nas horas e horas e meias. É preciso ponderar que a problemática envolve complexidade, tendo em vista que a escrita literária comporta valores e regras próprias a cada época e contexto. Resulta, portanto, de um “ponto de vista” que, por sua vez, decorre da soma de interações que o artista realiza com a cultura e tempo histórico.
A meu ver não se pode estabelecer universalidade entre vozes masculinas e femininas porque homens e mulheres são portadores de valores e experiências condizentes aos múltiplos determinantes que envolvem os papéis sociais no emaranhado das relações humanas. Isso significa que a produção literária, seja ela elaborada por homens ou mulheres, comporta especificidades que requer o exame de uma categoria configurada historicamente: a de “gênero”.
Por mais que um(a) poeta/poetisa, escritor/escritora habilidoso(a) possa falsear literariamente a realidade, expandindo na obra uma percepção feminina e/ou masculina sobre as relações humanas, através da descrição das ideias, representações e comportamentos de suas personagens e/ou mesmo de sua subjetividade, ainda assim configurará um ponto de vista intrínseco a um "eu-lírico generificado".
Assim, entende-se que o entendimento da problemática não condiz a uma explicitação natural, portanto biológica do fenômeno. Outrossim, envolve uma discussão que privilegia o exame dos papéis que homens e mulheres desempenham em suas práticas sociais cotidianas.
No tocante à poesia elaborada por mulheres faz-se necessário relembrar que, nós autoras, somos herdeiras de um longo processo histórico de silêncios, interditos e mutilações, cujas ressonâncias ainda operam marcas na atualidade. Até pouco tempo, as mulheres escritoras, de um modo geral, para expressar opiniões, ânsias e reivindicações eram obrigadas a fazer uso de pseudônimos e/ou se esconder em véus metafóricos; expandindo uma escrita que, em síntese, nada almejava expressar além de “silêncio”. Silêncio que as mulheres se encontravam submetidas no cotidiano social.
Hoje, após anos de lutas, retrocessos e vitórias, percebe-se que há um movimento de resistência e negação aos ditames da “tradição falocêntrica” que, aliada à filosofia e aos valores cristãos, qualificara a escrita feminina, no Ocidente, como algo de segunda grandeza... Isso porque, até pouco tempo, as mulheres eram privadas de informação, cultura e conhecimento educacional formal, já que as suas maiores qualidades residiam, sobremaneira, às “alegrias e elevações da maternidade”...
Esse discurso ideológico oriundo do pensamento iluminista, no dizer da crítica Nelly Novaes Coelho, encontra-se em “crise” e o que se percebe é que a escrita elaborada por mulheres, a cada dia, toma maior consciência da singularidade da voz poética feminina. Singularidade que comporta “diversidade”, já que cada autora porta valores e representações várias, além de múltiplas vivências com a leitura e a linguagem literária.
Essas são algumas das concepções e considerações compartilhadas que guiam a organização da obra "Maria Clara: uniVersos femininos". Livro coletivo que, brevemente, se encontrará disponível nas livrarias e sites para aquisição dos leitores.
A obra consiste uma coletânea de poemas composta por 12 poetisas que atuam em espaços pessoais na Internet e, simultaneamente, integram o blog/projeto voltado à apreciação de poesia feminina, sob a minha coordenação, Maria Clara: simplesmente poesia.
Contrariamente às práticas de publicações femininas realizadas em séculos anteriores, onde as escritoras adotavam pseudônimos para expansão de suas vozes, os capítulos que compõem a obra Maria Clara: universos femininos apresentam-se intitulados com os próprios nomes das autoras e/ou com as imagens que lhes são pertinentes. São elas, por ordem alfabética:

Adriana Godoy, de Belo Horizonte – MG;
Adriana Riess Karnal, de São Leopoldo – RS;
Hercília Fernandes, de Caicó – RN;
Lara Amaral, de Brasília – DF;
Lou Vilela, de Recife – PE;
Maria Paula Alvim, de Belo Horizonte –MG;
Mirze Souza, do Rio de Janeiro – RJ;
Nina Rizzi, de Fortaleza – CE;
Renata Aragão, de Juiz de Fora –MG;
Talita Prates, de Cajuru – SP;
Úrsula Avner, de Belo Horizonte –MG;
e, Wania Victoria, de Porto Alegre – RS.

A coletânea comporta “Apreciação Crítica” elaborada pela Professora Doutora em Literatura Comparada, pela UFRN, Ana Santana Souza de Fontes Pereira (UNP); “Apresentação” contextualizada de minha autoria; e “Posfácio” escrito por Nina Rizzi, que realiza considerações sobre a leitura de mulheres na obra de Renoir.
Hoje, 08 de março de 2010, “Dia Internacional das Mulheres”, compartilho com os leitores e leitoras do Novidades & Velharias parte das informações que envolve a publicação da obra coletiva Maria Clara: universos femininos, cuja editoração dar-se-á pela Editora LivroPronto (São Paulo-SP), com lançamento previsto para junho/julho deste ano.
O livro consiste, além de arte literária, instrumento de conscientização e liberdade em prol da singularidade na voz poética feminina; compondo mais uma página na (historio)grafia das mulheres. Página capaz de fundar, parafraseando Adélia Prado, reinos e linguagens.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Virada pra lua: a poesia de Maria Paula Alvim



De Adélia Prado à Líria Porto, salvas as singularidades de cada universo de criação, poder-se-ia elucidar que a poesia mineira elabora por mulheres apresenta uma característica notadamente comum: a sutileza na expressão feminina que direciona, poeticamente, o olhar às coisas circundantes na natureza e ao cotidiano social-humano.
A linguagem geralmente clara, sem excessos de artifícios, portanto não mergulhada na efemeridade e/ou obliquidade dos simbolismos, desenvolve com perspicácia, sentimento, humor e ludismo assuntos recorrentes ao ser e ao estar no mundo.
É nesse horizonte de contemplação que se vislumbra a criação poética da poetisa mineira Maria Paula Alvim, idealizadora e autora do espaço virtual Literal-mente.
Maria Paula nasceu e reside na capital mineira, Belo Horizonte-MG. É médica patologista clínica, com pós-graduação em Gestão Estratégica. Possui uma empresa na área de gestão em saúde onde presta serviços a hospitais, clínicas e consultórios. Além disso, leciona em duas instituições de ensino superior.
Na atividade literária desenvolvida na Web, a poetisa das minas gerais atua em vários celeiros poéticos, donde se destacam o Maria Clara: simplesmente poesia, projeto voltado para apreciação de poesia feminina, e O Gato da Odete, espaço que reúne múltiplas linguagens.
Em seu celeiro poético Literal-mente, a poetisa, fazendo referências às suas origens, declara: “O sol estava em câncer, ascendente em libra, quando nasci, virada pra lua. De herança, o gosto pelas palavras”.
O primor à palavra, à seleção e combinação entre signos, o humor, à graça e à ludicidade, à sonoridade e o movimento rítmico, são atributos de composição que revelam o bom relacionamento do artista com a arte da leitura, o seu universo de experiências com a linguagem literária e a emoção estética.
Nesse sentido, a poesia de Maria Paula se apresenta rica em linguagens e conteúdos; propõe entrecruzamentos de referências e, simultaneamente, materializa uma poética essencialmente feminina, intuitiva, criativa e dinâmica. Esboçando uma criação poética "virada pra lua", conforme próprio dizer da autora, porém edificada em solo firme.
Essas qualidades podem ser apreciadas em Mulheres tônicas, onde a poetisa verbaliza, em 5 (cinco) atos, a intensidade do sentir do eu-feminino que, apesar da diversidade de contextos, atribui às experiências cotidianas enorme tonicidade. Para tanto, a autora não economiza o uso de proparoxítonas que, além de combinar linguagem ao tema proposto, atribuem sonoridade, ritmo e sentidos aos versos.
Passemos à leitura de “Cândida, a Médica”, ato que compõe Mulheres tônicas:

Era a tímida típica, estrábica, pálida e asmática. Espírito ético, pródigo.
Engolia críticas e sapos pétricos. Máscara pacífica.
Apesar da sólida clínica, lágrimas a faziam líquida. Náufraga sem fôlego.
Morreu de cálculo nefrético crônico. Trágica estatística, a propósito.

O apreço à língua, às possibilidades morfológicas, sintáticas e semânticas que as palavras são capazes de oferecer ao poeta, são qualidades da poesia “virada pra lua” de Maria Paula, que, não se distanciando da beleza poética, explora com inteligência e maestria o jogo, o humor e a ludicidade dos signos. Essas características são perceptíveis em Sequela, poema que compõe a série Ao pé da letra:

consequência tinha trema
quando ele se foi, sequioso
tremi

na sequência

sigo só
ô sequidão

Além do ludismo, da metalinguagem, do uso de rimas, sílabas tônicas e aliterações, a poesia de Maria Paula também perpassa as linhas da melancolia e da lírica amorosa, revelando o manancial “lunar” de contemplação do eu-lírico feminino que, em sua poesia, já nasceu virada pra lua, entretanto aprimorada pela soma de experiências com a arte de versejar.
Fiquemos com a leitura de mais dois poemas da autora:



Momento retrô

o que mais me dói agora

é ver esse infinito amor findado
é não cruzar teu olhar de outrora
agora que me conjugas passado
(perdido, posto, finado)

o que mais me dói agora
da garganta por um nó te prendo
do corpo pelos poros me escapas
agora a vida insone me apavora
(meu sonho, o teu devora)

receio que o que mais me dói agora
é perceber que na madrugada fria
só lembranças me farão companhia
agora que a ausência de ti vigora

no fundo, sinto que o que mais dói agora
é pressentir as propostas sem propósito
consentir na espera que desespera
agora que sei que a paz inda demora

o sonho acabou, te pergunto ciente
como sublimar o sentir que evapora
peço que esclareças antes de ir embora
a mim, que só te sei conjugar presente

by Maria Paula Alvim

Ah, se não fosses casada

Ah, quem me dera não fosses casada
Com esse belicoso aventureiro
Eu enfrentaria íngreme escalada
E - milagre! - me terias inteiro

Dar-te-ia a mais fulgorosa estrela
Clamaria versos para enlevá-la
Fuzilaria os outros só pra tê-la
E sentir o olor que teu lume exala

Jamais em ti eu pisaria atroz
Nem soltaria fogo pelas ventas
Verias um vulcão dentro de nós
De derreter até massas cinzentas

Nova, te encheria com meu ardor
Num resplendor de beleza crescente
Prenhe, minguar-te-ia acolhedor
À míngua, começarias novamente

Quando viesses nua, qual clarão
Amada, não fartaria de olhar
Lua, se te separares do dragão
São Jorge deixa a gente namorar?

by Maria Paula Alvim




*Poemas disponíveis no blog da autora, Literal-mente, e no Maria Clara: simplesmente poesia.

sábado, 17 de outubro de 2009

Literatura com sotaque: "português ou caipirês?"

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A poetisa e professora universitária Adriana Karnal publicou um belo artigo sobre literatura e preconceito linguístico no quadro “postagem simplesmente poesia”, no blog de poesia feminina Maria Clara.
No artigo “Literatura com sotaque”, Adriana analisa o fenômeno da variedade da língua e a marginalidade linguística a que estão submetidos os grupos sociais economicamente desfavorecidos, os chamados “sem língua”.
A partir de uma reflexão pautada nos estudos realizados por Marcos Bagno, dentre os quais se destaca o livro “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, a poetisa reflete os mitos que se convencionam na sociedade em razão das diferenças sociais, regionais, dialetais; e a controversa articulação entre oralidade e escrita normativa.
Por meio de uma argumentação fundada na sociolinguística e da análise de aspectos imbricados em textos literários, em que se destaca um poema do poeta portuquês Nilson Barcelli, Adriana nos leva a preciosas reflexões sobre o uso da língua; acenando, inclusive, para as controvérsias acerca do novo acordo ortográfico da língua portuguesa. Em suas palavras: “Ainda que as novas regras tenham sido introduzidas na escrita da língua portuguesa, elas ainda não conseguiram ser incorporadas pelos falantes, muito em razão de a escrita refletir a pronúncia”.
Os argumentos e análises enunciados por Adriana Karnal reportaram-me a um texto de Dad Squarisi que discute a língua portuguesa praticada pelos brasileiros. O texto reflete, no dizer de Bagno, "o círculo vicioso do preconceito linguístico", que tem raízes em interesses hegemônicos e se legitima por meio da gramática normativa da língua culta. Mas, sem mais preâmbulos, passemos à escrita; que cada leitor realize as suas próprias acepções...
Português ou Caipirês?[2]

Dad Squarisi

Fiat Lux. E a luz se fez. Clareou este mundão cheinho de jecas-tatus. À direita, à esquerda, à frente, atrás, só se vê uma paisagem. Caipiras, caipiras e mais caipiras. Alguns deslumbrados, outros desconfiados. Um - só um - iluminado. Pobre peixinho fora d’água! Tão longe da Europa, mais tão perto de paulistas, cariocas, baianos e maranhenses.
Antes tarde do que nunca. A definição do caráter tupíniquim lançou luz sobre um quebra cabeça que atormenta este país capial desde o século passado. Que língua falamos? A resposta veio das terras lusitanas.
Falamos o Caipirês. Sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa. Vale tudo: eu era, tu era, nós era, eles era. Por isso não fazemos concordância em frase como "não se ataca as causas" ou "vende-se carros".
Na língua de Camões o verbo está enquadrado na lei da concordância. Sujeito no plural? O verbo vai atrás. Sem choro nem vela. O sujeito causas e carros estão no plural. O verbo, vaquinha de presépio, deveria acompanhá-los. Mas se faz de morto. O matuto, ingénuo, passa batido. Sabe por quê?.
O sujeito pode ser ativo ou passivo. O ativo pratica a ação expressa pelo verbo. Os caipiras (sujeito) desconhecem (ação) o outro lado. Passivo, sofre a ação: o outro lado (sujeito) é desconhecido (ação) pêlos caipiras. Reparou? O sujeito - o outro lado - não pratica a ação.
Há duas formas de construir a voz passiva:
a- com o verbo ser (passiva analítica): A cultura caipira é estudada por ensaístas. Os carros são vendidos pela concessionária.
b- Com o pronome se (passiva sintética): estuda-se a cultura caipira. Vendem-se carros. No caso, não aparece o agente. Mas o sujeito está lá. Passivo, mas firme.
Dica: use o truque dos tabaréus cuidadosos: troque a passiva sintética pela analítica. E faça a concordância com o sujeito. Vende-se casas ou vendem-se casas? Casas são vendidas (logo; vendem-se casas). Não se ataca ou não se atacam as causas? A causas não são atacadas (não se atacam as causas). Fez-se ou fizeram-se a luz? A luz foi feita (fez-se a luz). Firmou-se ou firmaram-se acordos? Acordos foram firmados (firmaram-se acordos).
Na dúvida, não bobeie. Recorra ao truque. Só assim você chega lá e ganha o passaporte para o mundo. Adeus, Caipirolândia.

Notas
[1] Vale a pena ler/reler o texto da poetisa e professora Adriana Karnal. Para tanto, visite o “Maria Clara: simplesmente poesia”.
[2] Texto extraído de: BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 5. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000. Arte disponível no Google Imagens.

domingo, 23 de agosto de 2009

A simplicidade "enganadora" na poesia de Adriana Karnal


A poetisa Adriana Karnal realizou a sua estréia poética no “Maria Clara: simplesmente poesia”, nesta última quinta-feira, 20 de agosto de 2009. Em sua postagem de estréia, Adriana apresenta um “mini-conto” que narra belas paisagens humano-oníricas, materializadas em uma linguagem lírica e musical.

Adriana Karnal, - cujo sobrenome não é meramente artístico, consiste herança familiar - reside na cidade de São Leopoldo-RS. É professora universitária com mestrado em Linguística Aplicada e Especialização em Língua Inglesa. Autora de livros didáticos com publicações no mercado editorial e tradutora nas “horas vagas”, como costuma poetizar. Na Web, a poetisa expande a sua voz poética no espaço que leva o seu nome: Adriana Karnal-Poemas e participa do blog coletivo de literatura Manufatura, projeto coordenado por Larissa Marques.

A voz de Adriana Karnal se expande por meio de uma simplicidade encantadoramente “enganadora”. Sua poesia não se materializa a partir de rebuscamentos de linguagem ou uso exagerado de neologismos. A simplicidade na linguagem, no entanto, revela uma enorme sensibilidade expressiva.

Suas escritas demonstram cuidado na escolha e trato com as palavras, e apontam para a intensidade emotivo-conceitual da autora que, através da sugestão de signos, desvia o curso usual das palavras para compor novos arvoredos e paisagens poéticas. Tais considerações podem ser vislumbradas em o poema Sem pé nem cabeça, onde as palavras se transfiguram, sugerem combinações e sentidos para alcançar o clímax da expressividade:


Um quarto, deitado...

tem poesia.

O colchão, não.

A terra da geada fresca,

a chuva que cai, a noite, o luar.

Até o arado tem poesia,

mas, a vaca... não.

O mar, imensidão,

a pele, textura fina.

A piscina?

Eu me pergunto:

Em que pé dá poesia?

(in: Adriana Karnal-Poemas)


Seus poemas - em geral escritos em versos breves, livres, musicais -, costumam exercitar, além da função puramente estética, a função metalinguística da linguagem. Propondo questionamentos e explicitações reflexivo-conceituais acerca do fenômeno criador, da poesia, da atividade do poeta, do poema...

Assim, além da riqueza expressiva na voz de Adriana Karnal, convém destacar a sinceridade com que a autora externaliza a sua visão de mundo e sentimentos experimentados durante o voo poético; que expõem, a alma nua, as percepções e convicções mais íntimas.

Isso tudo em meio a figuras de linguagem, de pensamento e sonoridade, donde se destaca o manuseio equilibrado de aliterações que atribuem movimento e ludicidade aos versos; de assonâncias que conferem harmonia e musicalidade; de sinestesias que produzem efeitos e sensações corpóreas no ser do leitor; e antíteses que aproximam sentidos denotativamente opostos - dentre outras figuras não menos expressivas.

Passemos para mais três poemas de Adriana Karnal, onde a poetisa transporta o leitor a um universo puramente lírico através de um dizer metalinguístico:



Quisera eu ser poeta


indecente

Pura pretensão.

Poeta é Adélia, Líria, Clarice.

Poucas verdadeiras o são.


Poeta tem língua incandescente

dente amarelado do palavreado

do palavrão

e palavrinha...

Desmedida na linguagem.

(Poeta sabe falar sacanagem)


Escrita com tinteira

elegante

Quisera eu ser poeta

e ter meu livro na estante


by Adriana Karnal



Sobre o frio


O fio da faca

e todo o frio que faça

não me desatinam.

Tenho a chama dos loucos e a

brasa sob os pés.

Tu não me descansas.

Insisto em ser solarínea.


by Adriana Karnal



Meio poema


Entre meus riscos

e rabiscos

A caligrafia e

a garatuja

Há o dilema da poeta:

A folha em branco.

Vestida de noiva pronta

para casar-se com as

palavras.


by Adriana Karnal



Notas:


*Este artigo fora construído mediante leituras, então realizadas, acerca de lirismo e aspectos intrínsecos à linguagem poética; donde se destacam, implicitamente, conceitos apresentados pelo analista Massaud Moisés e a crítica Nelly Novaes Coelho.

**Me custa [muitíssimo] escrever mediante as novas regras propostas no Acordo Ortográfico, por isso mantenho a grafia, ainda em uso corrente, de algumas palavras.

***Imagem: Clio, Euterpe e Tália. Pintura de Eustache le Seur, 1652-1655, Paris, Museu do Louvre.