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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Crônica: AINDA OS TAMANCOS...


Esta semana li uma frase de Cecília Meireles (1901-1964), contida em uma das suas inúmeras crônicas de educação, que muito me sensibilizou. A autora, com seu jeito sincero de dizer as coisas certas nas horas incertas, fala-nos sobre a faculdade humana de conciliar extremos.

A mim, a frase parece por demais oportuna, visto que o momento é de conciliação e não de posições extremistas - apesar da existência de tantos "ismos" e "istas" circulando mundo afora...

Penso que, se cada um de nós tentar romper as fronteiras que separam gregos de troianos, o mundo seria mais colorido. Porém, estamos sempre tão preocupados em defender as próprias convicções, interesses... que esquecemos que, no outro lado da ponte, há também outras "verdades".

Bem... como é chegado o fim do ano, penso que é hora de começar a arrumar as prateleiras e a geladeira, os cômodos do quarto, a mesa, as cadeiras... e cingir os velhos retalhos daquela colcha de chenile. Rever as coisas esquecidas e os papéis empoeirados no fundo do baú. Enfim, é chegada a festa das gavetas! Abrir as janelas e deixar o sol arejar a casa.

É chegada a hora de calçar "novos tamancos". A vida segue seu fluxo e necessitamos de mais sapatos para calçar os acertos e desacertos, enganos e desenganos do novo ano. Para que possamos, sabiamente, compreender as coisas boas e más que se confrontam no cotidiano; sem, no entanto, perder de vista o ânimo, a serenidade, a tolerância, o bom humor...

Façamos como Cecília, busquemos a unidade do mundo!


"Vivo conciliando os contrários. Criando a unidade do mundo. Como os filósofos..."

(Cecília Meireles).


Nota:


* Texto de Hercília Fernandes publicado em HF diante do espelho, em 21 de dezembro de 2006.


domingo, 6 de abril de 2008

Crônica: "Livros para crianças" por Cecília Meireles



Um livro de Literatura Infantil é, antes de mais nada, uma obra literária. Nem se deveria consentir que as crianças freqüentassem obras insignificantes, para não perderem tempo e prejudicarem seu gosto. (Cecília Meireles In: Problemas da Literatura Infantil, 1951).

Cecília Meireles (1901-1964) - poetisa, educadora, jornalista, cronista, tradutora, entre outras denominações e habilidades profissionais – ao longo de sua vida também se dedicou à Literatura Infantil, seja na qualidade de escritora de livros para o público infanto-juvenil, seja por meio da assídua atividade como pesquisadora da temática[1].
Como autora de livros para crianças, Cecília Meireles publicou várias obras que se fizeram presentes, e ainda se fazem, no universo educativo; destacando-se: Criança meu amor (1924); A festa das letras (1937); Rute e Alberto resolveram ser turistas (1939); Rui: pequena história de uma grande vida (1949); Olhinhos de gato (1939-1940/Revista Ocidente/Portugal – 1980/Brasil) e Ou isto ou aquilo (1964) - dentre outras não menos significativas e adaptadas ao leitor infanto-juvenil.
Para Cecília a atividade de escrever ao leitor criança exigia do escritor duas qualidades específicas: “ciência e arte”. Para tanto, são necessárias competências técnicas e conhecimentos concisos sobre o universo da criança e os mistérios da infância. Atenta a esses parâmetros, a poetisa-educadora dedicara-se, também, à tarefa de teorizar sobre a literatura infantil, apresentando nas chamadas “crônicas de educação[2]”, publicadas nos anos de 1930, no jornal Diário de Notícias, os fundamentos básicos do que, para a escritora, se constituía um “bom livro” de literatura infantil.


LIVROS PARA CRIANÇAS POR CECÍLIA MEIRELES[3]:


Escrever para crianças tem de ser uma ciência e uma arte, ao mesmo tempo. Mas, desgraçadamente, entre nós, vem sendo, desde muito, uma indústria. Para o comprovar, é bastante percorrer com olhos de educador esses horríveis livros cartonados que por aí existem, muitos dos quais, embora eliminados na última seleção feita pela administração, ou adotados com restrições, continuam, inexplicavelmente, a atormentar com o seu peso inútil a pasta dos alunos das nossas escolas.
Escrever para crianças tem de ser uma ciência, porque é necessário conhecer as íntimas condições dessas pequenas vidas, o seu funcionamento, as suas características, as suas possibilidades – e todo o infinito que essas palavras comportam - para escolher, distribuir, graduar, apresentar o assunto.
Tem de ser uma arte porque, ainda atendendo a tudo isso, se não estivermos diante de alguém que tenha o dom de fazer de uma pequena e delicada coisa uma completa obra de arte, não possuiremos o livro adequado ao leitor a que se destina.
Esta segunda condição - que pressupõe o artista – é ainda mais indispensável que a primeira – que requer o técnico.
O artista é uma criatura que se distingue das outras pela sua intuição, pela sua sensibilidade e pelo seu poder de criar de acordo com a vibração especial que lhe transmite cada ambiente. Por isso mesmo, há neles como uma faculdade divinatória, que os faz pressentir acontecimentos e épocas. Eles são, também, capazes de escrever para crianças, embora ignorando as verdades que sobre elas vem fixando a ciência: orientados, apenas, pela delicadeza do seu tato espiritual, e pelo desejo superior de um convívio íntimo com a alma infantil. Modernamente, aliás, se está verificando a enorme similitude psicológica da criança com o artista, quer nas vivências subjetivas, quer nas realizações objetivas.
Ora, se há, também, coisa fácil de ser verificada é que nós não temos escritores, escritores-feitos, escritores-consagrados pelo senso das gerações que vêm, e que ainda não estejam contaminados nem pelo preito aos ‘medalhões’, nem lisonja aos cabotinos, - não temos escritores que de dediquem a fazer livros infantis, como os faz um Mukerjee, na Índia, e uma Selma, na Suécia, por exemplo.
Muita gente se aventura a essa literatura por julgá-la ‘fácil’... Saem esses livros hediondos em que sempre há um sino batendo as ‘aves marias’, numa paisagem piedosa, ou um gato pulando numa panela, ou um menino amarrando um rabo no paletó do tio.
Mas, há também quem suponha que, com boas intenções de pregar moral, será capaz de resolver o problema do livro infantil.
Não sei qual dos casos é o pior. E por que essas e outras coisas é que J. J. Rousseau e Bernard Shaw são de opinião que não há maior tragédia para a criança do que aprender a ler. É um caminho aberto a todas as tolices dos maus livros.
Como tudo é possível, talvez me esteja lendo alguém. E pode acontecer ser algum autor ou aficionado desses livrinhos sentenciosos, que ensinam que “quem faz o bem é recompensado”, que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, que “um dia é o dia da caça, outro do caçador”, e assim por diante. E essa pessoa, se existir, vai ficar escandalizada quando eu escrever agora que a moral é suscetível de variação, - essa moral, está claro, que anda assim à tona nos provérbios e que, afinal de contas, a de uso generalizado...
Pois eu digo isso. E, como é meu costume, vou logo provando por que o faço: porque quem faz o bem para ser recompensado é egoísta; quem prefere um pássaro na mão a dois, ou mesmo a um, voando é interesseiro, e quem pensa que “um dia é da caça e outro é do caçador” tem, pelo menos, tendências à vingança...
Há muitas coisas bonitas para dizer à criança, sem entrar nesse dogmatismo decrépito e ridículo.
E pode fazer-se moral positiva, sem esse contraste de uso retórico.
Conhece-se o caso de uma menina que, um dia, perguntou ao tio, autor fecundo de livros infantis:
– Por que você não escreve histórias ‘amorais’, hein?
Depois do natural silêncio, a pequena explicou que se referia a histórias que não tivessem um fecho assim: Moralidade: os desobedientes sempre são castigados, ou qualquer outro jaez.
Não. Escrever para crianças é, ao mesmo tempo, difícil e fácil. É, como um dia ouvi dizer: o ovo de Colombo. O difícil é a gente ser Colombo. Ser, de fato. Não, apenas, pensar que é...



Notas:

[1] Cecília Meireles, além dos vários artigos publicados em jornais brasileiros nos anos de 1930 e 1940, deixa como patrimônio cultural e científico o livro Problemas da Literatura infantil (1951); obra que se constitui fonte bibliográfica, dir-se-ia leitura obrigatória, para aqueles que enveredam na compreensão do gênero infantil.
[2] As crônicas de educação escritas por Cecília Meireles nos Jornais cariocas “Diário de Notícias” e “A Manhã”, nos anos de 1930-1940, foram republicadas, em 2001, em uma antologia intitulada: Obra em prosa: crônicas de educação; que reúne os textos em 5 (cinco) volumes através de núcleos temáticos sob o planejamento editorial de Leodegário A. de Azevedo Filho.
[3] MEIRELES, Cecília. Livros para crianças. Rio de Janeiro, Diário de Notícias, 9 de novembro de 1930. In: _____. MEIRELES, Cecília. Obra em prosa: Crônicas de educação, v. 4, 2001, pp.121-123.


Bibliografia recomendada:

MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Ilust. Thais Linhares. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.
_________. Obra em prosa: crônicas de educação. Rio de janeiro: Nova Fronteira: Biblioteca Nacional, 2001, Vol(s) 1, 2, 3, 4 e 5.
_________. Obra poética. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987.
_________. Problemas da literatura infantil. 3 ed. São Paulo: Summus, 1984.
_________. Criança meu amor. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.
MEIRELES, Cecília; CASTRO, Josué de. A festa das letras. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1996.




sábado, 1 de março de 2008

Crônica: Gentileza Gera Gentileza


Gentileza Gera Gentileza[1]

Por Hercília Fernandes

Vive-se uma época de retrocesso à barbárie. As bandeiras e os instrumentos de guerra, no entanto, já não são os velhos e encardidos panos, nem as espadas grotescas e as armaduras enferrujadas sobre/sob cavalos altivos. Aprimoram-se os discursos, inventaram idéias, falsearam a realidade, visto que “apagaram tudo e pintaram tudo de cinza[2]”...
A palavra, outrora dita para esclarecer os homens, tornou-se objeto de dominação, exercício de poder e de saber. O amor, sentimento humano maior, tornou-se objeto de riso, siso, fabulação...
E, nesse grande palco da “modernidade”, anjos rebeldes são postos ao fogo, crianças e idosos jogados às próprias sortes. Mulheres violentadas, silenciadas e mutiladas em seus desígnios. Homens morrem a cada dia e mortos-vivos enfeitam cenários; e, autômatos, enredam cenas reais nessa grande comédia da vida moderna.
O palco não é mais o “bem perdido”, o locus amoenus redentor - élan capaz de oferecer luz às idéias. O palco, composto por “flores de cimento”, não configura mais a natureza idílica gritante, mas as pedras cuidadosamente emparelhadas, ornamentalmente bem elaboradas...
Compõem-se as cores da cidade: os tons opacos, nublados, acinzentados; mãos e sinais fechados, olhos empoeirados... Cenário rude, pobre, nefasto. Nesse teatro mortificado surge então o fogo e, com ele, a devassidão, a claridade e a normalização... Entretanto, não é o fogo o temível vilão! Não é o fogo o terrível atroz da multidão!...
O fogo deixa seus rastros pela cidade e, com as nuvens de fumaça, vem acordar a criatura humana da sua rudeza e automatização. Nesse palco de desolação, um homem se levanta e grita à multidão: o MAL reside no coração!
Um homem - um homem "com a sua dor estampada na cara" - entra em cena nesse “circo” de horrores. Nele, Ele recolhe os doentes, expande sonhos, alimenta crianças, velhos, “lobos” e “dementes”... Um homem com a sua dor, com a dor escancarada na longa barba, grita: só existe um caminho, o caminho é o do amor!...
Mas, as pessoas estão por demais ocupadas para receberem o pão na farta mesa. Seus corações, presos no cimento e no vazio, ignoram “palavras de Gentileza”; e, não percebem quantas cores podem existir no mundo, na natureza; E, recusam-se à frase: “Gentileza Gera Gentileza”!
E, mesmo com a sua tamanha e gentil Gentileza, o circo continua pegando fogo e as pessoas que, “apressadas passam pela cidade”, caminham silenciadas por intermináveis círculos de escuridão, posto que: “[...] a palavra no muro fora coberta de tinta"...
O homem, com a sua dor, é afastado da cega e homogênea multidão, tiram-lhes a mobilidade do estandarte e os instrumentos de luta; tiram-lhes, da palavra, a trindade redentora: o “amorrr”. Amor composto pelo “R” do Pai, “R” do Filho e “R” do Espírito Santo. E o circo novamente invade a escola, e a escola rouba a vida e o tom cinza pinta negritudes nos corações.
Porém, a “gentileza que Gentileza gera” se eterniza e, em meio às flores de cimento, o profeta - louco, poeta, criança - indaga os mortos-vivos e deixa o questionamento como herança:
- “Qual o mais importante: o livro ou a sabedoria?”.
Eis, aí, a gentileza na sofia do Messias!




  • Descrição: Marisa Monte, através da música "Gentileza" pertinente ao Cd “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”, difunde os ensinamentos espirituais do Profeta Gentileza. Partindo dos princípios de Gentileza, a cantora reflete: “Amor palavra que liberta, já dizia o Profeta”!


Notas:

[1] Texto escrito com base na vida e missão espiritual abraçada pelo Profeta urbano Gentileza - José Datrino (1917-1996) - na cidade do Rio de Janeiro. Para saber mais sobre a história do Messias Urbano consulte o site Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Datrino e os textos de Leonardo Boff sobre o espírito do profeta Gentileza. Artigos disponíveis em: http://www.leonardoboff.com/site/vista/2004/abril30.htm e http://leonardoboff.com/site/vista/2004/maio07.htm.

[2] Gentileza In: Cd “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (Marisa Monte).